De mascates que desbravaram a Amazônia no século 19 a empresários e políticos na atualidade, é fácil perceber a presença de árabes e judeus no Amazonas. Dos primeiros tempos, de quando batiam de porta em porta, dominando o comércio de miudezas e confecções na capital e no interior, os imigrantes do oriente deixaram marcas indeléveis no comércio e na indústria amazonense.
Um dos aspectos dos imigrantes e de seus filhos e netos que residem no Amazonas é a ausência de conflitos entre estes povos, que aqui se uniram para vencer na vida e construir um Estado mais forte. O conflito por terras no Oriente Médio é algo tão antigo quanto às narrativas bíblicas, mas nas últimas semanas houve um recrudescimento, o que vem causando preocupação a palestinos e judeus em Manaus.
Dois povos
Filho da família judia de origem marroquina Assayag, que fincou bases em Parintins há 120 anos, o empresário e presidente da CDLM (Câmara de Dirigentes Lojistas de Manaus) Ralph Assayag lamenta o que acontece em Gaza e lembra que não é um conflito entre povos e sim entre algumas pessoas que defendem suas religiões. “Nem todo muçulmano é palestino e nem todo judeu é israelense. Quem perde com o conflito é a humanidade. Sabemos que países que governam com extremistas têm problemas. E lá, eles estão dos dois lados”, disse o empresário.
Há 15 anos trabalhando com panificação em Manaus, o empresário palestino Nedan Ali, comenta que no momento, o que pode ser feito é reunir a comunidade e amigos, alguns judeus insatisfeitos com os rumos do conflito e com a política vigente. Para os palestinos em Manaus, conseguir a paz é urgente. “Nessas reuniões 70% das conversas são sobre o que acontece em Gaza, o tempo todo pensamos em uma solução para o conflito. Às vezes fazemos um ‘caixa’ e enviamos dinheiro para quem está na Palestina. É o que podemos fazer. Não pensamos em voltar lá nesse momento, estamos bem no Brasil, mas a angústia e a tristeza são enormes”, conta o palestino.
O empresário lamenta a pouca voz dada aos palestinos na mídia. Segundo Ali, apenas o lado do conflito divulgado por Israel tem vez nos noticiários. “O povo palestino não tem voz. É como se estivesse tudo escuro, não sabemos com certeza do que acontece, mas sabemos de crianças mortas e casas destruídas. A política atual não quer um Estado Palestino e tenta acabar com qualquer chance disso. Como pode haver a paz? A Terra Santa é para todos os povos”, disse Ali.
Convivência pacífica
Lembrando que todos os povos que chegaram ao Amazonas passaram por dificuldades e precisaram se unir para vencer e engrandecer o Estado, Assayag comenta sobre essa convivência pacífica. “Vemos todos como brasileiros, filhos deles casaram com filhas nossas e tiveram netos. Todos precisaram caminhar juntos. Aqui no Amazonas, todos têm ótimas relações, cada um sabe de sua crença e todos somos um só povo, existe muito respeito e lutamos por igualdade”, resume.
Diretor do Centro Islâmico do Amazonas, Walid Saleh acredita que a paz pode ser encontrada na região do conflito e que árabes e israelenses podem conviver em harmonia, citando o que acontece no Amazonas como exemplo. “Na história recente do Amazonas, seja empresarial ou política, é praticamente impossível passar sem ver a presença de uma pessoa do oriente, seja árabe ou judeu. Temos orgulho do que acontece aqui e queremos que lá também haja essa convivência pacífica entre os povos”, finaliza Saleh.
Origens
Em ‘Eretz Amazônia’ de 2008 que faz referência ao nome bíblico ‘Eretz Israel’ (Terra de Israel) obra referencial sobre o processo de ocupação da região, o professor, empresário e pesquisador Samuel Benchimol (1924-2002) narra a saga dos judeus que chegaram à região a partir do início do século 19 (1808). Fugidos de perseguições na Europa e norte da África encontraram no espaço amazônico acolhimento e um lugar seguro para viver.
Segundo o diretor do Centro Islâmico do Amazonas, atualmente, cerca de 500 palestinos residem no Amazonas. Para o diretor as levas de palestinos têm suas datas importantes, a primeira no ano de 1896 com a chegada dos primeiros e depois em 1948. “Os 500 que agora estão aqui representam a terceira geração, mais nova e que está sentindo mais diretamente o que acontece em Gaza”, conta Saleh.







