Como já diziam nossas avós

Em: 31 de março de 2017
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Elas estão aí há milhares de anos, mas só agora, cansadas de comer tanta comida industrializada, as pessoas começam a lhes dar valor: as panc’s (plantas alimentícias não convencionais). E o curioso, as plantas mais inusitadas, às vezes desprezadas nos quintais das casas, podem se tornar excelentes quitutes, plantas como a beldroega, a ora-pro-nóbis, o trevo, a quebra-pedra, o caruru.

“E muitas delas são consideradas ‘mato’, encontradas no campo e mesmo em terrenos baldios, nas cidades, e negligenciadas para o consumo humano”, falou Alexandre Victor, personal chef ecológico, e completou: “No mundo são registradas milhares de panc’s, porém elas só devem ser introduzidas na alimentação humana se levar-se em conta aspectos econômicos, culturais e sócio ambientais”.

Apesar de, como disse o personal chef, as panc’s serem encontradas com facilidade nos mais variados lugares, elas não devem ser consumidas de qualquer maneira. “Não. As pessoas não devem sair por aí catando e comendo qualquer ‘mato’, o que seria um risco muito grande para a saúde. É importante que se saiba identificar o que é uma panc. Algumas já foram identificadas há centenas de anos, porém, com a massificação da industrialização dos alimentos, elas caíram no esquecimento; outras, somente agora, após pesquisas, estão sendo identificadas como panc’s”, explicou. E o conceito do termo panc é recente, cunhado pelo professor e biólogo Valdely Kinupp, após reunir estudos de mais de 15 anos. Em sua tese de doutorado, Kinupp estudou cerca de 1.500 espécies de plantas e apontou 311 com potencial alimentício, e ao menos 100 com capacidade para gerar renda e ainda conservar a natureza. “Plantas alimentícias não convencionais (panc) no Brasil”, o livro de Kinupp, se tornou a Bíblia de quem se interessa por esse tipo de alimentação.

“A melhor forma de identificar uma panc é ir atrás da experiência dos mais velhos. Nossas avós eram exímias utilizadoras de panc’s, não só como alimento, mas principalmente para remédios caseiros. Outra maneira é pesquisar sobre o assunto. Atualmente existem vários pesquisadores descobrindo novas panc’s, inclusive aqui em Manaus, no Inpa (Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia), além de estarem sendo publicados livros sobre otema”, ensinou.

Vitória-régia e Urtiga
“Outro detalhe é que, muitas vezes, uma panc não é comestível num determinado lugar, como a ora-pro-nobis ou a taioba, mas é muito popular em outro. Então deve-se resgatar, valorizar e introduzir na alimentação essa panc até então desprezada, utilizando-a em receitas populares esquecidas. Ultimamente elas estão sendo encontradas até em restaurantes de alta gastronomia”, esclareceu.

Em Manaus, os restaurantes já começam a aderir à antiga (nova) alimentação e incluir panc’s nos seus cardápios. Duas plantas se destacam na lista: a bela vitória-régia e, pasmem, a assustadora urtiga, ela mesma, a planta de folhas peludas que queimam a nossa pele ao menor toque. “Da vitória-regia aproveitamos as flores (faz-se geleia), as sementes (prepara-se pipocas), o rizoma (é o caule subterrâneo), e a parte que liga a planta ao fundo do rio ou lago (ótimo tira-gosto). Já a urtiga, depois de lavada fica inofensiva. Pode ser cozida ou refogada, sendo uma excelente opção de verdura, leve, saborosa e crocante, muito apreciada pelos europeus. Já a taioba necessita ser refogada e principalmente cozida para eliminar a toxidade natural, mas a maioria das panc’s não têm nenhum segredo para o seu preparo, diferenciando-se uma das outras na textura e no sabor, como o capim limão ou a erva cidreira, excelentes como condimentos de diversos alimentos”, ensinou.

Sobre a panc que mais prefere, Alexandre tem uma. “Aprecio muito o jambu”, a famosa planta que faz a língua tremer.

O jambu possui propriedades anestésica local, antifúngica, antisséptica, antiviral, diurética e estimulante do sistema imunológico. Imagine se juntarmos todas as panc’s existentes em nossa região. Teremos medicamentos naturais baratíssimos para uma infinidade de problemas de saúde e que, além de tudo, alimentam.

Para todos os gostos
Entre as hortaliças que fazem parte da culinária regional destaca-se o jambu componente essencial do tacacá, prato típico da culinária amazônica. Outra planta típica da Amazônia é o cubiu, cuja árvore produz frutos que podem ser usados na tradicional caldeirada, assim como para a elaboração de sucos, sorvetes, doces e geleias. Esta espécie já está também sendo cultivada e comercializada em outros Estados extra-amazônicos, recebendo o nome comercial de maná-cubiu ou simplesmente maná. Outra muito cultivada e vendida na região Norte é a chicória-de-caboclo, um tempero essencial em alguns pratos, sobretudo, naqueles a base de peixes, mas pode ser utilizada também como ingrediente principal em bolinhos (tempurá). Merece destaque o ora-pro-nobis ou carne-de-pobre, verdura típica da culinária mineira. Em 1997 foi criado o Festival do Ora-Pro-Nóbis, no município de Sabará/MG. Dentre as hortaliças nativas cabe destacar também as taiobas, taiás, mangarás e mangaritos. Algumas espécies deste gênero, tais como a taioba, além das folhas cordiformes ricas em vitamina A e recomendadas para quem sofre com prisão de ventre, produz grande quantidade de tubérculos amiláceos saborosos, consumidos cozidos e fritos, ensopados ou transformados em pães e bolos. Entre as Dioscoreaceae nativas algumas podem ser consumidas (tubérculos) como alimento, a caratinga, a qual é ocasionalmente cultivada em alguns quintais ou jardins como ornamental, devido às belas folhas.

Redação

Jornal mais tradicional do Estado do Amazonas, em atividade desde 1904 de forma contínua.
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