A Conab (Companhia Nacional de Abastecimento) projeta queda de 31,4% para a safra de grãos 2021/2022 do Amazonas, para 37,6 mil toneladas. A expectativa é diametralmente oposta ao resultado obtido na presente safra, de 54,8 mil toneladas, que avançou 31,4% sobre o dado de 2019/2020 (41,7 mil toneladas) – que também foi um período de expansão. Três das quatro culturas sondadas pela estatal no Estado aparecem com estimativas negativas para os próximos meses e a restante aponta estagnação. A expectativa é igualmente pessimista para a área de plantio (-25,8%) e produtividade (-7,5%).
No primeiro levantamento da estatal para a nova safra, o Estado figura no último lugar do ranking nacional de maiores altas proporcionais – após encerrar a temporada 2020/2021 na terceira colocação. Para efeito de comparação, os desempenhos aguardados para o cultivo de grãos no Brasil e na região Norte são de elevações respectivas de 14,2% (288,61 milhões de toneladas) e de 3,6% (12,69 milhões de toneladas). Os melhores índices vêm do Mato Grosso do Sul (+25,5% e 23,77 milhões de toneladas) e do Paraná (+25,4% e 42,80 milhões de toneladas), em uma lista com cinco resultados negativos, entre as unidades federativas.
Diferente do ocorrido nas últimas duas safras, quando o crescimento se deu principalmente pelos desempenhos exponenciais do arroz e da soja, em detrimento do feijão, e com declínio gradual do milho, o panorama sinalizado pela Conab agora é de declínio geral. A maior retração aguardada para 2021/2022 vem da soja, um dos campeões deste ano, com alta de três dígitos (+143,4%). No cálculo da entidade, sua produção deve ser 51,9% menor, totalizando 6,2 mil toneladas – contra as 12,9 mil toneladas da safra de 2020/2021.
O segundo pior número da produção de grãos do Estado, conforme a análise da Conab, deve vir do milho (-41,8% e 13,5 mil toneladas). Caso confirmada, será uma queda mais que duas vezes maior do que a registrada em 2020/2021 (-18,3%). Produto do gênero com o melhor desempenho na safra mais recente (+200%), o arroz aponta, desta vez, baixa de 4,9% (15,4 mil toneladas). Paradoxalmente, o feijão (2.500 toneladas), que atravessou pelo menos três anos seguidos de queda, tem o melhor dado, ao apontar para estagnação – e melhor do que o tropeço de 3,8% deste ano. Nos três casos, assim como no da soja, o Amazonas aparece com as maiores quedas de produção do Brasil.
Área e produtividade
A projeção para a área de plantio ainda é de 16,1 mil hectares, 25,8% a menos do que o dado da safra de 2020/2021 (21,7 mil hectares), ficando aquém inclusive do dado de 2019/2020 (18,7 mil hectares). A pior estimativa é a da soja (2.400 hectares), que sinaliza fica 44% aquém do número anterior (4.300 hectares). O milho (5.200 hectares) ainda é listado com o segundo maior tombo de produção (-42%). As projeções para o feijão (2.700 hectares) e para o arroz (5.800 hectares), por sua vez, são de estabilidade.
Com o virtual encolhimento nas apostas para as áreas cultivadas no Amazonas, na safra de 2021/2022, a produtividade também sinaliza retrocesso. A estimativa da Conab é de um recuo de 7,5%, de 2.525 kg/ha (de 2020/2021) para 2.335 kg/ha (2021/2022). Ao contrário do ocorrido neste ano, três das quatro culturas listadas pela Conab no Amazonas aparecem com desempenho menor do que o registrado na safra precedente. A exceção vem do feijão (+0,2% e 923 kg/ha). Os piores índices vêm da soja (-14,4% e 2.567 kg/ha), do arroz (-5,3% e 2.652 kg/ha) e milho (-0,6% e 2.591 kg/ha), na ordem.
Em entrevistas anteriores à reportagem do Jornal do Commercio, a Conab informou que a produção de milho do Amazonas se concentra principalmente em Manacapuru e Boca do Acre, onde está o maior plantel animal, já que entre 60% e 70% da produção é destinada à ração. A soja vem de Humaitá (a 591 quilômetros de Manaus), na Fazenda Santa Rita. O arroz tem destaque nos municípios do rio Juruá, principalmente Eirunepé e Envira. O feijão, por outro lado, é cultivado na calha do rio Purus – em especial, Lábrea e Boca do Acre.
Mercado e reuniões
Após comemorar os resultados da safra 2020/2021, no levantamento anterior, o presidente da Faea (Federação da Agricultura e Pecuária do Amazonas), Muni Lourenço, ficou surpreso diante do panorama negativo projetado pela Conab, e não quis traçar conjecturas a respeito dos possíveis motivos para a estimativa no vermelho. “Esperamos que essa projeção de redução não se confirme, pois, até então, a tendência tem sido de crescimento da produção e da produtividade, na safra de grãos do Estado”, resumiu.
Em entrevistas anteriores à reportagem do Jornal do Commercio, o dirigente apontou que o declínio da produção de milho era nacional e se dava em virtude da permuta da cultura em favor do arroz e da soja, em função da maior valorização e demanda destes. Mas, também havia destacado o entusiasmo dos produtores rurais do Sul do Estado – com destaque para Humaitá – em relação ao cultivo justamente da soja e do arroz, materializada pela busca da produtividade e pela incorporação de novas tecnologias. Já o recuo no feijão se daria em virtude de dificuldades da agricultura familiar em áreas de várzea, em meio à cheia recorde de 2020 e à pandemia.
Diante dos números, o ex-superintendente da Conab, administrador com especialização no agronegócio e colaborador do Jornal do Commercio, Thomaz Meirelles, ressaltou que não é a primeira vez que o levantamento da Conab começa com viés de baixa. O especialista reforça que, para evitar “divulgações equivocadas”, é necessário retornar as reuniões do GCEA (Grupo de Controle Estatística Agropecuária), que envolve Conab, IBGE, Idam (Instituto de Desenvolvimento Agropecuário e Florestal Sustentável do Amazonas), Faea e Fetagri (Federação dos Trabalhadores Rurais, Agricultores e Agricultoras Familiares do Amazonas) entre outras entidades.
“Como aconteceu na safra passada, a Conab divulgou uma safra para o Amazonas na sua primeira avaliação. Nas outras ocasiões, fez as devidas correções e mostrou nosso avanço. Isso vai acontecer novamente. Não vejo essa redução estimada pela Conab para a soja. Quanto à queda do milho, esta envolve a questão da opção por outras culturas e por não ter tido a parceria com a Conab”, finalizou.
Foto/Destaque: Divulgação







