A última reunião da COP-15 (15ª Conferência da Mudança do Clima da ONU), na qual Brasil, China, EUA, África do Sul e Índia discutiram as metas climáticas – ou a falta delas – terminou na sexta-feira, sem consenso. Segundo informou a delegação brasileira, o conteúdo da declaração sobre o encontro será feito com vistas a um possível acordo apenas em 2010.
EUA e China, os dois maiores emissores de gases de efeito estufa, são os criadores de entraves para o acordo climático entre os 193 países participantes da conferência.
Os EUA propuseram um fundo bilionário para ajudar os países pobres a lidar com as mudanças climáticas, mas condicionou a contribuição a uma “transparência” dos países envolvidos e uma possível vigilância. Sobre isso, o presidente Lula disse que o fundo não podia ser usado como “desculpa” para intromissão nos países ajudados. A China também rechaçou um possível controle.
Antes da última reunião sobre as metas, o premiê chinês faltou aos dois encontros improvisados pelos EUA e enviou um emissário – a atitude enfureceu líderes europeus e Barack Obama.
Fundo global
No começo do dia, o presidente Lula, que há dois dias tentava mediar com o francês Nicolas Sarkozy uma saída do impasse, declarou-se “frustrado” em sessão plenária com líderes mundiais. Na plateia estavam Obama, Gordon Brown, Wen Jiabao, Angela Merkel e outros.
Lula fez também uma oferta de doação para um fundo global de combate à mudanças climáticas.
Em discurso duro, feito de improviso e longamente aplaudido, Lula enumerou as ações do Brasil e disse que o país estaria disposto a contribuir para um fundo se isso salvar a conferência.
“Não sei, se não fizemos até agora, um anjo ou um sábio descerá e colocará na nossa cabeça a inteligência que faltou até agora. Todos poderíamos oferecer um pouco mais se tivéssemos assumido boa vontade nos últimos tempos’’, declarou Lula, ressaltando os esforços dos países emergentes.
Crítica velada
Já o americano Barack Obama, que tomou seu lugar no púlpito, criticou os países que não aceitam se submeter à verificação de suas ações, uma crítica velada à China. Os países desenvolvidos usam esse argumento para justificarem sua inação. Minutos antes, Lula havia reclamado da “intrusão nos países em desenvolvimento e países pobres’’.
Brasil, EUA, Japão e União Europeia acenam para construção de fundo global
Os EUA propuseram o fundo que ajuda os países pobres a lidar com a mudança climática, mas condicionou a contribuição a uma “transparência’’ dos países envolvidos. Uma oferta como essa era esperada pela delegação brasileira, que achava difícil metas de corte maiores dos EUA.
“Os países têm direito de exigir transparência, exigir o cumprimento da política financiada. Mas precisamos tomar cuidado com esta intrusão nos países em desenvolvimento, nos países mais pobres. A experiência que temos como o Fundo Monetário Internacional e o Banco Mundial, não é recomendável que continue a acontecer no século 21’’, alertou Lula.
Diante das dificuldades para um acordo nos primeiros dias de Copenhague, o presidente Lula já apostava em um aporte de dinheiro público dos EUA para um fundo global que bancaria o corte das emissões de gases-estufa e a adaptação à mudança climática.
Além do Brasil e dos EUA, o Japão e a União Europeia também já se comprometeram em ajudar a construir esse fundo, considerado importante para responder às necessidades de adaptação dos países em desenvolvimento aos impactos da mudança climática e a atenuação de suas emissões.
Metas brasileiras
Lula falou ainda das metas brasileiras para combater o aquecimento global e reiterou que, até 2020, o Brasil vai reduzir as emissões de gases do efeito estufa entre 36,1% e 38,9%, em referência ao que manteria sem nenhuma política ambientalista.
A mudança, explicou o presidente, será baseada em mudanças consideradas importantes para o Brasil e incluem os sistema de agricultura e siderúrgico, além do aprimoramento da matriz energética.
“Assumimos ainda o compromisso de reduzir o desmatamento da Amazônia em 80% até 2020. Fizemos isso construindo uma engenharia econômica que obrigará um país em desenvolvimento, com muitas dificuldades econômicas, a gastar, até 2020, US$ 166 bilhões’’, afirmou Lula.
O montante também é considerado necessário pela Comissão Europeia para responder às necessidades de adaptação dos países em desenvolvimento aos impactos da mudança climática e a atenuação de suas emissões.
ONU estuda convocar nova cúpula no 1º semestre
O secretariado da ONU responsável pela convenção do clima estuda convocar um novo encontro no próximo semestre, uma espécie de COP-15 “bis’’. Esta, segundo fontes que tiveram acesso à proposta, deve acontecer fora das mãos da presidência dinamarquesa.
A avaliação geral no Bella Center, sede do evento, é que a Dinamarca foi um redundante fracasso, dizem delegações de países emergentes e europeus ouvidas. A crise de confiança provocada pela apresentação abrupta de uma proposta unilateral logo no início da conferência é uma das principais razões para o naufrágio da cúpula.
A versão de declaração que circula pelo Bella Center, resultante de horas de reunião entre os principais líderes mundiais, não estabelece metas de corte de gases-estufa para 2020. Fala-se apenas em uma redução de 50% das emissões até 2050 e genericamente de um fundo de US$ 100 bilhões para o mesmo ano, sem dizer de onde vem o dinheiro nem como ele será usado.






