O otimismo dos comerciantes de Manaus arrefeceu em março, após dois meses consecutivos de altas. Medidos pela CNC, os dados locais do Icec (Índice de Confiança do Empresário do Comércio) mostram recuo, na comparação com fevereiro, na contramão da média nacional do setor. O humor dos lojistas, contudo, avançou no comparativo anual. Em síntese, a percepção sobre as condições atuais parou de piorar e há mais satisfação com os estoques. Mas, o ceticismo ainda contamina as expectativas com a economia, gerando reflexos negativos nas intenções de contratar e investir.
Manaus marcou 118,3 pontos de confiança em fevereiro, dado 0,7% inferior ao de fevereiro (119,1 pontos). No índice da Confederação Nacional de Comércio de Bens, Serviços e Turismo, valores acima de 100 pontos indicam satisfação. O decréscimo foi puxado somente por empresas com até 50 funcionários (-0,8%) e atuantes nos segmentos de bens duráveis (-1,3%). A confiança, por outro lado, superou em 2,9% o patamar de março de 2025 (115 pontos). Na média brasileira (107 pontos), o Icec progrediu 2,2% na variação mensal, em sua quinta alta seguida. E cresceu 4,9% diante da marca de 12 meses atrás.
O retrocesso do Icec local ocorre em um contexto de menor fôlego do consumidor para as compras. O ICF (Intenção de Consumo das Famílias), também da CNC, sinaliza que o manauara ficou mais satisfeito com a carreira e a renda, embora e tenha mais medo de perder o emprego e esteja menos disposto a adquirir bens duráveis, diante da maior dificuldade para conseguir crédito. Medida pela mesma entidade, a Peic (Pesquisa de Endividamento e Inadimplência do Consumidor) havia mostrado número recorde de famílias de Manaus embarreiradas por contas a pagar (88,2% do total, ou 623.810 delas), e novo avanço na quantidade de negativadas (50% ou 353.990).
Contratações e investimentos
Três dos nove componentes do indicador regrediram diante de fevereiro, sendo que dois ainda estão no patamar de insatisfação. As quedas vieram dos subíndices relativos às expectativas com a economia (-1,8%), de contratação de funcionários (-4,8%) e do nível de investimentos das empresas (-1,9%). Vale notar que os recuos se deram também na variação anual. Os avanços significativos se limitaram à situação atual dos estoques (+1,5%) e às condições atuais das empresas (+1,2%), enquanto a estagnação deu o tom às condições atuais da economia (0%) e do comércio (+0,1%), assim como nas expectativas com o setor (0%) e com o próprio negócio (0%).
Apesar da estabilidade mensal, o subíndice das Condições Atuais da Economia (78 pontos) ainda é o de mais baixa pontuação da lista do Icec manauara. A soma das avaliações que apontam que a situação “piorou muito” (31%) e “piorou um pouco” (30,6%) ainda supera com folga o somatório de comerciantes que garantem que “melhorou um pouco” (28,2%) e “melhorou muito” (10,1%). Em paralelo, as visões predominantes para a situação presente do comércio (96,1 pontos) e da empresa (pontos) ainda são de melhora moderada (32,2% e 43,8%, respectivamente).
A despeito do desempenho negativo em parte das expectativas, a sondagem ainda reforça um panorama consideravelmente melhor para um futuro sempre adiado. Os percentuais de comerciantes de Manaus que esperam que a economia brasileira (127,9 pontos) “melhore muito” (35,9%) ou pelo menos “um pouco” (32,4%) seguem predominantes e distantes dos grupos que esperam “muita” (16,5%) ou “pouca” (15,2%) piora. As projeções que pesam mais para o setor (147,5 pontos) e para os próprios negócios (160,8 pontos) também são de progressos mais significativos (48,4% e 51%, respectivamente).
O progresso medido no subindicador de contratações de funcionários (119,8 pontos) diminuiu o passo, mas a maioria dos lojistas reafirma que seus quadros devem “aumentar um pouco” (47,1%). O entendimento predominante sobre o investimento (108,7 pontos) é de que será “um pouco maior” (36,4%). Com a alta, a percepção sobre os estoques (10,1 pontos) retomou o nível de satisfação. Em torno de 66,5% consideram que a oferta está “adequada”; 16,2% dizem que está acima do ideal (em virtude de vendas baixas); e 17,3% apontam que está abaixo do desejável (em função de baixo capital de giro).
“Processo de acomodação”
Em comunicado à imprensa, o presidente do Sistema CNC-Sesc-Senac, José Roberto Tadros, avalia que a atuação integrada entre a iniciativa privada e o poder público é o caminho para fortalecer a percepção dos empresários do comércio. “O ano teve início com resultados positivos no turismo, mas avança para o segundo trimestre em meio a um cenário de instabilidade global que já impacta o mercado interno – seja pelo aumento dos preços dos combustíveis, seja pelas incertezas quanto à trajetória de queda da taxa Selic”, alertou.
De acordo com o dirigente, há um “clima de cauteloso otimismo no setor”, apesar das dificuldades. “Percebemos confiança entre empresários e empresárias que, com dedicação diária, seguem impulsionando seus negócios. É essa resiliência que nos faz acreditar em dias melhores para a economia brasileira, sobretudo com a construção de políticas públicas que assegurem um ambiente mais estável e favorável ao empreendedorismo”, reforçou.
Já o economista da Fecomercio-AM, Max Cohen, salientou à reportagem que o Icec local de março mostra um ambiente ainda otimista, mas em “processo de acomodação” e de maior prudência empresarial. “O cenário permanece favorável, mas com sinais claros de moderação no curto prazo. O momento recomenda crescimento seletivo, com foco em eficiência operacional, controle de custos e gestão criteriosa de estoques e capital humano. A estratégia ideal combina expansão disciplinada com preservação de caixa, e atenção redobrada ao ambiente macroeconômico nacional”, concluiu.






