Confiança sobe em Manaus

Em: 6 de fevereiro de 2026

O otimismo dos comerciantes de Manaus escalou em janeiro, acompanhando a intenção de consumo das famílias, a despeito da transição do Natal para a época sazonalmente mais fraca do varejo. Medidos pela CNC, os dados locais do Icec (Índice de Confiança do Empresário do Comércio) mostram melhora no humor dos lojistas, na comparação com dezembro, em sintonia com a média nacional do setor. A melhora veio principalmente da percepção sobre as condições atuais da economia, do comércio e da própria empresa, com maior intenção de contratar e investir. Em contrapartida, as expectativas sofreram inflexão e a há maior insatisfação com os estoques. 

Manaus marcou 118,4 pontos de confiança em janeiro, dado 3% superior ao de dezembro (115 pontos). No indicador da Confederação Nacional de Comércio de Bens, Serviços e Turismo, valores acima de 100 pontos indicam satisfação. O acréscimo foi puxado pelas empresas com até 50 funcionários (+3%) e que vendem bens duráveis (+3,6%). O humor dos comerciantes manauaras, contudo, ainda ficou 0,34% aquém do patamar de janeiro de 2025 (118,8 pontos), sinalizando estabilidade. Na média brasileira, o Icec progrediu apenas 0,9% na virada do ano, ficando na margem de confiança (103 pontos). Mas, permaneceu 3,8% abaixo da marca de janeiro do exercício anterior.

A diminuição do Icec local ocorre em um contexto em que o consumidor manauara voltou a aumentar sua propensão às compras. O ICF (Intenção de Consumo das Famílias), também da CNC, sinaliza mais segurança no emprego, menos dificuldade no crédito, e maior propensão na aquisição de bens duráveis, apesar da menor satisfação com a renda. Medida pela mesma entidade, a Peic (Pesquisa de Endividamento e Inadimplência do Consumidor), da mesma entidade, mostrou redução no número de famílias de Manaus embarreiradas por contas a pagar (86,6% do total, ou 586.387 delas), e um repique na quantidade de negativadas (47,4% ou 320.869).

 

Contratações e investimentos

Cinco dos nove componentes do indicador progrediram ante dezembro, mas três ainda estão no patamar de insatisfação. Os aumentos vieram principalmente dos subíndices relativos às condições atuais do comércio (+13,5%), da economia (+11,6%) e das empresas comerciais (+8%), mas também do indicador de contratação de funcionários (+3,2%) e nível de investimentos das empresas (+3,2%). Em contrapartida, os dados negativos foram puxados pelas expectativas com os negócios (-1,1%), a economia (-0,2%) e o setor (-0,1%), incluindo a situação atual dos estoques (-2%).

Apesar da relativa melhora, o subíndice das Condições Atuais da Economia (74,4 pontos) é o de mais baixa pontuação da lista do Icec manauara. A soma das avaliações que apontam que a situação “piorou um pouco” (31,5%) e “piorou muito” (33,2%) ainda superam com folga o somatório de comerciantes que garantem que “melhorou um pouco” (23,7%) e “melhorou muito” (11,6%). Em paralelo, a visão predominante para a situação presente do comércio (92,1 pontos) é de piora moderada (30,7%), enquanto a da empresa (119,1 pontos) reforçou o quadro de melhora amena (40% pontos).

A despeito do desempenho negativo em parte das expectativas, a sondagem ainda reforça um panorama consideravelmente melhor para um futuro sempre adiado. O percentual de comerciantes de Manaus que espera que a economia brasileira (137,2 pontos) “melhore muito” (40,2%) ou pelo menos “um pouco” (33,9%) segue predominante e distante dos grupos que esperam “muita” (13,8%) ou “pouca” (12,2%) piora. As projeções que pesam mais para o setor (148,4 pontos) e para as empresas (159,1 pontos) também são de progressos mais significativos (46,4% e 49,3%, respectivamente). 

O progresso medido no subindicador de contratações de funcionários (127,3 pontos) chega na contramão da chegada do período mais fraco para o comércio, com a maioria dos lojistas locais confirmando que seus quadros devem “aumentar um pouco” (44%). O entendimento predominante sobre o investimento (110,2 pontos) é de que será “um pouco maior” (36,7%). A percepção sobre os estoques (97,4 pontos) ficou novamente no nível de insatisfação. Em torno de 58,3% consideram que a oferta está “adequada”; 21,6% dizem que está acima do ideal (em virtude de vendas baixas); e 19% apontam que está abaixo do desejável (em função de baixo capital de giro).

 

“Retomada cautelosa”

Em comunicado à imprensa, a CNC aponta que o Icec nacional foi puxado para baixo na base anual (-8,1%), refletindo o “patamar elevado das taxas de juros” e seus impactos negativos no crédito e no consumo. “O ciclo de endividamento e inadimplência do consumidor tem efeito no bolso das famílias brasileiras e no planejamento do investimento por parte do empresário. Precisamos fazer um esforço para ter taxas de juros menores, devolvendo poder de compra ao trabalhador, e assim avançarmos em 2026 com a nova reforma tributária e o período de eleições sem o aperto monetário que diminuiu a confiança do comerciante nos últimos meses”, avaliou o presidente do Sistema CNC-Sesc-Senac, José Roberto Tadros.

A entidade salienta, entretanto, que vislumbra um ponto de inflexão com a aguardada redução da taxa Selic, prevista para o segundo trimestre, e que os lojistas aguardam apenas essa sinalização para voltar a investir. “O cenário de pleno emprego e inflação menor do que o esperado são dois bons sinais. No entanto, para que a população tenha poder de compra de bens duráveis e semiduráveis, precisa de acesso saudável ao crédito para desfrutar do parcelamento. Mesmo com a recente queda do dólar, dependemos de uma Selic mais amena e juros menos agressivos”, explica o economista-chefe da CNC, Fabio Bentes.

Já o economista da Fecomercio-AM, Max Cohen, salientou à reportagem que o primeiro Icec local deste ano aponta melhora, mas ainda inspira cuidados. “Há uma melhora clara no curto prazo, com recuperação da confiança, avanço das condições atuais e manutenção de planos de investimento e contratação. Mas, a comparação anual revela um ambiente ainda mais frágil, especialmente no que diz respeito à economia e ao setor. O cenário sugere que 2026 inicia com retomada cautelosa, recomendando aos empresários estratégias de crescimento seletivo, foco em eficiência operacional e atenção redobrada aos sinais macroeconômicos.”, encerrou.

Marco Dassori

É repórter do Jornal do Commercio
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