O consumidor de Manaus reduziu sua confiança na economia, em março. Em meio aos impactos inflacionários da guerra na Ucrânia, em um ambiente já marcado por desemprego, crédito mais caro e endividamento, as famílias da capital amazonense estão fugindo do crédito, congelaram suas perspectivas de consumo e reduziram suas apostas na estabilidade do emprego e perspectivas profissionais. É o que apontam os dados regionais do índice de ICF (Intenção de Consumo das Famílias) da CNC (Confederação Nacional do Comércio de Bens, Serviços e Turismo).
A intenção de consumo das famílias de Manaus teve uma queda de 1,1%, entre fevereiro (37,5 pontos) e março (37,1 pontos). Com o decréscimo, a pontuação ficou ainda mais distante da marca atingida no período pré-pandemia – ou mesmo do placar de 12 meses atrás (53,6 pontos). O indicador permanece na zona de insatisfação (de 0 a 100 pontos) há 23 meses consecutivos. As famílias com renda acima de dez salários mínimos mensais (61,5 pontos) tiveram leve melhora, enquanto as que contam com renda abaixo dessa marca (34,7 pontos) foram na direção contrária.
O Estado teve resultado inverso ao da média brasileira (78,1 pontos), que avançou 1,8%, registrando seu terceiro aumento mensal consecutivo e o maior nível desde maio de 2020. Em relação a 12 meses atrás (73,8 pontos), a alta foi de 5,9%. As regiões Sudeste (+2,1%) e Nordeste (+2,1%) tiveram as maiores taxas mensais. No bimestre, o melhor número veio do Sul (+12,9%) e o pior, do Norte (-8,2%) –que experimentou melhora relativa no mês.
A piora em Manaus foi puxada por quatro dos sete componentes do ICF, na variação mensal, sendo que todos seguem no nível de insatisfação. Em sintonia com a escalada dos juros e do endividamento, a baixa foi puxada pela percepção sobre o “momento para aquisição de bens duráveis” (-5,8%). Emprego atual (-2,6%) e perspectiva profissional (-1,7%) vieram na sequência, enquanto as perspectivas de consumo ficaram estagnadas (0%). Em contrapartida, as avaliações sobre nível de consumo atual (+10,9%) e renda atual (+1,9%) melhoraram, assim como o entendimento em relação ao acesso ao crédito (+1,4%).
Renda e emprego
Em termos absolutos, as intenções de compras do manauense ainda são puxadas para baixo pelo nível de consumo atual das famílias. Embora venha registrando melhora gradual, e tenha obtido uma alta de dois dígitos neste mês, o subindicador ainda tem o pior escore da lista (14,5 pontos). Nada menos do que 90,6% dizem que estão comprando menos do que no ano passado, sendo que a restrição é maior entre os que recebem abaixo de dez salários mínimos (91,5%). Apenas 5,1% dizem que estão comprando mais –com predomínio das famílias mais ricas (12,2%) –e 4,3% apontam empate.
Outro entrave vem da perspectiva de consumo (25,2 pontos) e das avaliações sobre a renda familiar atual (26 pontos). Para 82,8%, o consumo familiar e da população deve ser menor nos próximos meses. Uma parcela de 8,1% arrisca dizer que será maior e outros 7,8% aguardam estagnação. Em paralelo, 79,4% dizem que a renda familiar piorou em relação a 12 meses atrás. Só 5,4% viram melhora e os outros 15,2% avaliam que está igual.
Em paralelo com as demissões sazonais, o entendimento sobre a situação atual do emprego (58,5 pontos) piorou, apesar de ainda ter a melhor pontuação da lista –mas não o suficiente para sair do nível de insatisfação. A maioria se diz “menos segura” (48,2%). Os consumidores que não veem mudanças (24,3%) e os desempregados (20,6%) vêm em seguida, enquanto só 6,6% se dizem “mais seguros”. Na perspectiva profissional (33,2 pontos), a percepção majoritária sobre os próximos seis meses é negativa (81,4%), em detrimento dos otimistas (14,6%) e indecisos (4%). Nos dois casos, o pessimismo é muito maior entre os que ganham menos.
Embora o consumidor de Manaus sinalize fugir do endividamento, visão sobre a situação atual do crédito (49 pontos) mostrou melhora. Mas, 64,5% ainda dizem que o acesso está mais difícil, quando comparado ao panorama do ano passado. Apenas 13,5% dizem que ficou mais fácil e 21,8% apontam estabilidade. O cenário para o “momento de aquisição de bens duráveis” (56,2 pontos) piorou. Pelo menos 71,9% garantem que esta não é a melhor hora para isso, só 26,8% têm opinião contrária e 2,9% dizem que não sabem. Em ambas as situações, as dificuldades e cautela são predominantes nas famílias de menor renda.
Inflação e desabastecimento
O presidente em exercício da Fecomércio-AM (Federação do Comércio de Bens, Serviços e Turismo do Estado do Amazonas), Aderson Frota, avalia que o crescimento no nível de confiança na média nacional aponta para um “quadro de estabilidade positiva” para as famílias brasileiras, que mostra uma retomada. Com relação a Manaus, o dirigente diz que a inflação, o desabastecimento “de alguns setores” e o encarecimento dos fretes preocupam. Mas, salienta que, apesar da desaceleração, o viés é de alta e de consolidação gradual para a confiança do consumidor local.
“Todos sabemos que ainda vivenciamos uma série de dificuldades provenientes do cenário externo e de problemas internos. Mas, estamos vendo também que, aos poucos, a economia vai se restabelecendo. Principalmente nos segmentos comercial e de serviços, que são os grandes vetores de nossa economia. No caso de Manaus, ainda vivemos dificuldades, mas temos um indicativo de restabelecimento pelo crescimento dos empregos, que poderia ser melhor. Temos um cenário um pouquinho diferente, mas isso não quer dizer que estamos fora do crescimento que a economia vem experimentando aos poucos, apesar de todas as dificuldades”, ponderou.
“Condições favoráveis”
Em âmbito nacional, a sondagem também mostrou melhora na percepção das famílias quanto ao acesso ao crédito. Em texto distribuído pela assessoria de imprensa da CNI, a economista responsável pela pesquisa, Catarina Carneiro da Silva, pontua que, embora a maior parte das famílias ainda considere difícil obter acesso ao crédito, o entendimento de que a renda está mais equilibrada e a maior confiança na manutenção do emprego proporcionam condições de consumo favoráveis o suficiente para “compensar esse desafio”.
Segundo a economista, trata-se de um fator que auxilia especialmente os bens duráveis –o que não ocorreu em Manaus. Mas, a despeito das condições de consumo mais favoráveis para as famílias brasileiras, Catarina da Silva observa que a incerteza em relação ao futuro, com os efeitos da guerra na Ucrânia e as dificuldades econômicas internas, levou a uma queda de 1,2% nas perspectivas de consumo, “revelando que as famílias ficarão atentas à evolução do ambiente econômico antes de consumir, nos próximos meses”.
No mesmo texto, o presidente da CNC, José Roberto Tadros, observa que os dados nacionais apontam a recuperação do mercado de trabalho como fator de forte influência para os resultados positivos. “Com maiores chances de emprego, consequentemente, os consumidores passaram a ter mais acesso à renda. Esse processo levou a um aumento do percentual de famílias que consideraram sua renda melhor do que no ano passado”, encerrou.















