Cooperativa aumenta oferta da polpa de cupuaçu no Tarumã

Em: 30 de julho de 2008
Cultivo e processamento do cupuaçu por produtores cooperados em Nossa Senhora de Fátima cria renda e ocupação para mais de cem famílias
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Cultivo e processamento do cupuaçu por produtores cooperados em Nossa Senhora de Fátima cria renda e ocupação para mais de cem famílias

A comunidade rural Nossa Senhora de Fátima, a oito quilômetro da capital, é a pioneira na instalação de um centro agroindustrial destinado à extração e processamento da polpa do cupuaçu na área rural de Manaus.
A comunidade está aprovando a produção de derivados do cupuaçu sem desperdício, uma vez que este é o objetivo do projeto ‘O cultivo do cupuaçu gerando trabalho e renda’, implantado em 2007 pela prefeitura de Manaus e viabilizado por meio da Semdel (Secretaria de Desenvolvimento Econômico Local) em parceria com a Sudam (Superintendência do Desenvolvimento da Amazônia).
A Unidade de Beneficiamento e Processamento do Cupuaçu, inaugurada no ano passado, já registra lucro nas vendas e o dirigente da Semdel estima que haja crescimentode 30% na produção de polpa para a safra 2008/2009.
De acordo com o secretário da Semdel, Milson Pascholine, “a idéia é aumentar a produtividade da plantação de cupuaçu, e assim reduzir as perdas, além disso existe o objetivo de incrementar a renda dos agricultores, aumentar o número de produtores atendidos dentro do projeto e proporcionar a transformação da produção em polpas, doces, compotas e geléias”.

Recursos aplicados

O acordo com a FAO (Organização das Nações Unidas para a Agricultura e Alimentação) e Pronager Amazônia (Programa Nacional de Geração de Emprego e Renda em Áreas de Pobreza) o projeto foi lançado em abril de 2006, com a participação de 120 produtores da comunidade. Milson Pascholine informou que o projeto recebeu aporte de R$ 350 mil por meio de convênio para a implantação da cooperativa.
Hoje, a cooperativa atende 107 famílias certificadas nos diversos cursos ali oferecidos, como técnicas de cultivo de cupuaçu, administração rural, meliponicultura, café regional, beneficiamento do caju, artesanato, entre outros. Este projeto beneficia também outras comunidades rurais.

Expectativa é colher 500 t nesta safra

Na safra deste ano, a estimativa é de que sejam processadas cerca de 500 toneladas de cupuaçu, enquanto na época da entressafra do fruto, outras culturas poderão ser beneficiadas na agroindústria, como a do caju.
O projeto Agrofrutas acreditou e investiu na capacidade dos homens da zona rural da cidade, nos agricultores que perseveraram e, agora, iniciam uma nova etapa: expandir a produção, obter novos mercados e crescer ainda mais como força produtiva do setor primário de Manaus.
“A cooperativa também possui área destinada a estocagem de seus produtos para vendê-los na entressafra. No galpão estão estocadas dez toneladas do fruto descascado”, relata o produtor João Carlos.
Estes frutos estão estocados com o objetivo de manter o preço ou aguardar uma eventual valorização do produto para colocá-lo no mercado.

Perdas de produção

A fruta é colhida e entregue na cooperativa, onde ela é processada. Para se ter idéia das perdas, o produtor que colhe cem quilos de fruta, após ser processada para extração da polpa e embalada, o produto perde a metade do peso, restando 50 quilos de polpa, que pode render ao produtor cerca de R$ 360 com a venda do produto, caso seja vendido a R$ 4 por quilo. Com a entressafra, o produto fica mais caro, podendo ter oscilações de preço de até R$ 10, por quilo.
Conforme o secretário da Semdel, para agregar valor ao cupuaçu, um novo projeto será implantado na comunidade para oferecer não só a matéria-prima, mas o produto final do cupuaçu para os consumidores, como doces, geléias e licores.

Cultivo do fruto

O cupuaçuzeiro pode viver até 80 anos, alcança entre 2 e 3 m de altura no estado silvestre e 8 m se cultivado. A copa tem 7 m de diâmetro. Fruto considerado dentre os melhores da flora amazônica, tem 12 a 25 cm de comprimento, e 10 a 12 cm de largura, pesando entre 1,2 a 4 kg; tem casca dura, lenhosa, quebrável, polpa amarela ou esbranquiçada, tem sabor ácido e cheiro agradável. O fruto tem 30 a 40 sementes que se desprendem com facilidade da polpa.
O técnico agrônomo Everaldo Portugal explica que a vassoura-de-bruxa (fungo crinipellis perniciosa) é a doença mais comum entre as pragas para destruir os pés de cupuaçu. A doença causa superbrotamento dos ramos levando-os à morte. “A poda e queima dos ramos atacados por duas vezes por ano, podem controlar a doença”, relata o agrônomo.

Técnicos oferecem acompanhamento

No decorrer de dois anos, os agricultores cadastrados no Projeto Agrofrutas receberam acompanhamento e orientação de técnicos do governo. Além disso, foram distribuídos insumos como calcário, adubo orgânico, superfosfato simples, cloreto, uréia e FTE. Estes produtos são empregados para aperfeiçoar a propriedade da produção, são fontes de nitrogênio, de nutrientes, auxiliam no desenvolvimento da planta e destaca o sabor dos frutos.

Universitários checam cultivo

O projeto também dá chances a universitários dos cursos de engenharia florestal, zootecnia e agronomia. Eles têm a oportunidade de vivenciar a realidade na zona rural, estes estagiários fazem o trabalho de visitação e acompanhamento dos agricultores.
A Semdel também investiu na capacitação e qualificação dos produtores rurais que participam do projeto. Diversos cursos foram oferecidos, para dar ao agricultor não só o conhecimento de como cultivar o cupuaçu, mas também prepará-lo para tornar-se um empreendedor no setor primário da economia.
Um exemplo disso foi o curso de beneficiamento do caju, outro fruto bastante abundante na comunidade. No total, 26 pessoas concluíram o curso e aprenderam a fazer alimentos a partir da fruta, como pudim de caju, carne básica de caju, salada de manga com caju, entre outros. Os participantes também aprenderam conceitos de apresentação pessoal, higiene e manipulação dos alimentos, equipamentos e utensílios, além da organização e armazenamento dos insumos.
O produtor rural Antonio Ferreira da Silva relata que agora já consegue viver do que planta produz. Ele é um dos mais antigos no local, possui 12 hectares de terra na qual apenas 5 são beneficiados com o cupuaçu. Silva possui 1.100 pés e recebeu três mil quilos de adubo orgânico. Sua produção foi de 500 quilos de polpa e teve um lucro de R$ 2 mil. Este ano, com a vassoura-de-bruxa, deve cair a produção. Mas ele está investindo para plantar novas mudas de cupuaçu.

Instalações da cooperativa

A estrutura física da cooperativa conta com dois vestiários e quatro salas nas quais são realizadas os processos de lavagem, quebra, despolpamento, embalagem e congelamento do cupuaçu. As salas são equipadas com 20 freezers, duas despolpadeiras, um liquidificador industrial, uma seladora (para fechamento das embalagens), um triturador, uma mesa e quatro tanques de aço inox. A agroindústria será administrada pela Cooperativa Mista dos Produtores Rurais do Tarumã que tem como diretor-presidente da agroindústria João Carlos Soares Freires.

Planta amazônica

O cupuaçu (theobroma grandiflorum) é uma planta nativa da Amazônia e pertence à mesma família do cacau (theobroma cacau), da qual se obtém o chocolate. Ao contrário do cacau que é cultivado em diversas partes do mundo, o cupuaçu está em processo de domesticação e seu cultivo é limitado aos Estados da região Norte e a alguns países que fazem parte da Amazônia. Em decorrência desse processo recente, pode ser encontrado em estado silvestre, no interior das florestas, em pomares caseiros e em plantios comerciais.
A polpa do fruto, com aroma e sabor bem peculiar, é o principal produto obtido, sendo largamente utilizada no preparo de bombons, mousses, sorvetes, sucos e refrescos. Apesar de ser o produto mais valorizado, não é o único.
Fundada em 1978 por um grupo de agricultores que viviam da caça, pesca e de uma agricultura de subsistência, Nossa Senhora de Fátima, hoje, é habitada por 866 famílias com um total de 4.300 pessoas que vivem na margem direita do rio Tarumã-Mirim, no município de Manaus.

Redação

Jornal mais tradicional do Estado do Amazonas, em atividade desde 1904 de forma contínua.
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