Coronavírus, “são preocupantes os riscos do desabastecimento para a economia”

Em: 21 de fevereiro de 2020
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Numa conversa descontraída e muito densa por parte do entrevistado, o presidente da Eletros, José Jorge Nascimento Júnior, recebeu a  Follow-Up e percorreu alguns dos assuntos que traduzem as inquietações e expectativas do setor produtivo em tempos de insegurança jurídica e ameaças do Coronavírus. Presidente da Eletros, Associação Nacional de Fabricantes de Produtos Eletrônicos, Jorge Júnior se divide entre São Paulo, Brasília e Manaus, além das visitas aos associados por todo opais, para administrar um setor em movimento constante evolução. Confira. 

1. FOLLOW-UP: Como você analisa o risco do Coronavírus contaminar a economia do Amazonas?

JOSÉ JORGE DO  NASCIMENTO JÚNIOR: Considero preocupante a instabilidade na cadeia logística de importação de insumos produzidos na China. O desabastecimento pode trazer riscos e prejuízos, pois o país asiático é um fornecedor importante de componentes para empresas que fabricam produtos para a linha branca (fogões, geladeiras e máquinas de lavar); linha marrom (equipamentos de áudio e vídeo); e eletroportáteis (secadores de cabelo, sanduicheira, ventiladores, entre outros).  E o que mais nos preocupa com isso, é que os insumos que chegam ao Brasil por via aérea, considerados de maior valor agregado (para celulares, TV e tabletes fabricados na ZFM) são suficientes para abastecer a produção das indústrias por entre 10 a 15 dias. Em relação aos insumos que chegam ao país por via marítima, os estoques são suficientes para abastecer a produção por até 90 dias. Ou seja, podemos ter um risco de paralisação de recebimento de insumos neste momento e depois daqui a uns 3 meses, caso as coisas não se regularizem nesta semana. O fato é que a China já está com seu PIB contaminado e a indústria e o turismo mundial já se preparam para as mudanças em curso.

2. FUP: A performance do setor eletroeletrônico em 2019 causou surpresa aos próprios empresários. Entretanto, a concorrência dos importados começa a ser uma ameaça crescente. Como você analisa essa questão?

JJNJ: O mercado eletroeletrônico é extremamente competitivo e a indústria brasileira consegue atender o consumidor do Brasil mesmo não tendo o ambiente de negócios idêntico ao de outros países onde estão instaladas as empresas estrangeiras que vendem para cá. A proposta do Governo Federal de abertura comercial ou inserção comercial competitiva do Brasil, como alguns preferem chamar, deve ocorrer concomitantemente com a melhoria do ambiente de negócios no nosso país. Sem isso, a indústria nacional terá imensas dificuldades de competir com os produtos importados é isso causará a migração de investimentos para outros países e o desemprego em nosso país.

3. FUP:  Em recente visita Manaus, o ministro do Meio Ambiente, Ricardo Sales, deixou no ar um desestímulo a indústria local, especialmente o segmento de duas rodas, de bicicletas. Isto é um sentimento isolado ou do alto escalão do governo na sua opinião!?

JJNJ: Nem todos conhecem a realidade e a efetividade do parque industrial instalado em Manaus por isso surgem alguns comentários infundados. O Ministro Ricardo Sales após a sua declaração que criticou a ZFM retificou sua posição e reconheceu publicamente que a indústria da ZFM é importante para a geração de emprego e são esses empregos que evitam a degradação do meio ambiente. O Polo Industrial de Manaus é um dos mais importantes do país e quem o conhece o defende por sua relevância.

4. FUP: Pessoalmente você se envolveu com o problema dos PPBs, o famoso embargo de gaveta. Um atraso de muitos prejuízos aos interesses do Amazonas. Com a oportunidade do Grupo de Trabalho – GT PPB tratar deste assunto em Manaus, você acredita que a Suframa poderá transformar seu Conselho de Administração em palco das decisões que nos dizem respeito?

JJNJ: Não acredito que algum dia o Conselho de Administração da Suframa será o fórum exclusivo das decisões sobre os PPBs de produtos do PIM. Até gostaria que fosse. Fato é que devemos ter uma forma mais célere e extremamente técnica para se estabelecer ou alterar os PPBs. Acho que o CAS pode exercer um papel importante nas tramitações dos PPBs porque tem em sua composição representantes do Ministério da Economia e de Ciência e Tecnologia que são as bases do GT PPB, juntamente com a Suframa. Agora, ser o CAS o fórum exclusivo das decisões entendo que isso não deve acontecer.

5. FUP: Estamos vivendo a era do Fake News e do pós-verdade. A comunicação nunca foi tão intensa, como também tão confusa. Temos sido alvo de uma campanha publicitária subliminar para demonizar a Zona Franca de Manaus e transformá-la em razão do déficit fiscal do Brasil. Como você veria uma campanha publicitária associando PIM com proteção florestal e benefício ambiental para o país e o mundo?

JJNJ: Acho que sempre cometemos um grande erro ao não saber como divulgar as verdades sobre a ZFM e repelir as mentiras, aliás, esclarecer as mentiras apresentadas. Temos que considerar também que nos faltam espaços na imprensa nacional para isso e muitas vezes acabamos falando para nós mesmos, ou seja, falamos sobre a ZFM geralmente para aqueles que conhecem esse modelo e sabem do seu êxito e importância para o desenvolvimento regional, soberania e preservação da Amazônia. Não se pode falar ou pensar em crescimento econômico do país sem pensar no desenvolvimento sustentável da Amazônia. E a ZFM é comprovadamente o mais bem sucedido modelo de ação econômica sustentável por gerar emprego e renda, estar dotada de uma indústria moderna, com centros de pesquisa de excelência e avanços significativos na redução das desigualdades regionais.

*Esta Coluna é publicada às quartas, quintas e sextas-feiras, de responsabilidade do CIEAM. Editor responsável: Alfredo MR Lopes. [email protected]

Redação

Jornal mais tradicional do Estado do Amazonas, em atividade desde 1904 de forma contínua.
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