” A evolução da classe C é um dos movimentos sociais mais belos que já vi na vida”
Jaime Benchimol
Com uma grande combinação de competência e discrição e uma história de existência que muitas vezes se confunde com a evolução de Manaus, o grupo Bemol é, hoje, uma das maiores empresas varejistas atuante no Amazonas. Apostando na fórmula de sucesso particular, o grupo criou o conceito de negócios que depende mais do tamanho das lojas – que oscilam entre 1800 m2 a 3000 m2 – do que propriamente do número de lojas. As empresas do grupo estão em diversas atividades, incluindo distribuição de GLP (gás de cozinha), lojas de departamento e exportação de produtos naturais. E à frente desse complexo empresarial, o presidente da rede, Jaime Benchimol, em entrevista ao Jornal do Commercio, comentou o desempenho das lojas Bemol e avaliou o comércio de Manaus, destacando os principais fatores do desenvolvimento da região.
Ao mesmo estilo de seu pai, Samuel Benchimol (fundador do grupo Bemol), empresário, escritor e pesquisador da Amazônia que deixou no conjunto de sua vasta produção intelectual, importantes obras sobre a região, Jaime é um grande entusiasta, não apenas do Amazonas, como também do comércio e da economia. Para ele, o Estado é um dos mais promissores do Brasil, fato que atrai a chegada de grandes empresas nacionais, o que não ameaça o ‘ império’ Bemol, segundo seu presidente, pelo contrário, estimula a criatividade do grupo para continuar na liderança do mercado.
Jornal do Commercio – A empresa Bemol é uma das maiores do Amazonas e precursora no setor de varejo. Por esta experiência, como o senhor avalia o setor varejista de Manaus, hoje, com o surgimento de novos shoppings?
Jaime Benchimol – O varejo é um segmento extraordinariamente dinâmico e que responde rapidamente às mudanças da sociedade. Na minha opinião, três fatores marcaram o varejo de Manaus nos últimos 20 anos: o crescimento da cidade que promoveu uma diversificação geográfica e uma explosão no comércio dos bairros da zona leste e a Cidade Nova, por exemplo; o surgimento do Amazonas Shopping há 18 anos e posteriormente de vários outros shoppings (culminando com o Manauara) que aceleraram a tendência sociológica do consumidor preferir as lojas de shoppings sobre o comércio de rua, principalmente pela conveniência de acesso, estacionamento, segurança e refrigeração; e mais recentemente o comércio eletrônico que vem apresentando crescimento exponencial em Manaus, no Brasil e no mundo. Para alguns segmentos do varejo como livros, música, passagens aéreas, serviços bancários e outros o comércio eletrônico já é a forma principal de distribuição de produtos no varejo.
JC – Como vê a chegada de novas empresas nacionais grandes em Manaus? Isso, de alguma forma, atrapalha as vendas ou estimula a competição de mercado?
Jaime Benchimol – Manaus tem crescido, prosperado e chamado a atenção de todo o Brasil e por isso é natural o interesse de novos grupos de varejo. Nenhum empresário fica feliz em receber novos concorrentes, mas a competição traz para as empresas vários aspectos positivos: obriga as organizações a se manterem eficientes, promove a inovação e a criatividade o que em última análise assegura a preferência dos clientes e a solidez das empresas. A história das empresas de sucesso é indissociável de um ambiente competitivo saudável. Faço aqui uma ressalva importante, é necessário que haja ação firme e justa na cobrança dos impostos e das obrigações legais por parte de todos. Só assim podemos assegurar que as empresas corretas e eficientes prosperem e não aquelas que deixam de cumprir com as suas obrigações para obter vantagem de custos sobre as demais. Penso que o desempenho das instituições do estado do Amazonas é melhor que a média brasileira nesse aspecto.
JC – O senhor avalia como positiva a moda de fusão entre grandes empresas no Brasil, como as Casas Bahia e o grupo Pão de Açúcar? Na sua opinião, porque acontecem estas uniões?
Jaime Benchimol – Não tenho todas as informações das duas organizações para afirmar com segurança, mas penso que a gestão de uma empresa tão grande resultante de duas culturas tão diferentes como Pão de Açúcar e Casas Bahia será um desafio e demorará vários anos para que produza os resultados desejados, se é que um dia o fará. O tamanho pode representar alguma vantagem negocial junto aos fornecedores e também economia de escala na publicidade, mas torna a administração difícil, impessoal, lenta e incapaz de focar nas peculiaridades locais. A história das grandes fusões mundo afora mostra que cerca de 2/3 delas fracassa e destroem ao invés de criar valor para seus acionistas. Por outro lado, há empresas enormes de varejo que superaram as dificuldades mencionadas: Carrefour e Walmart são dois bons exemplos.
JC – De que forma o senhor analisa o crescimento da classe C, que hoje é considerada a nova classe média?
Jaime Benchimol – O crescimento da Classe C no Brasil é um dos mais bonitos movimentos sociais e econômicos que presenciei na minha vida. É extraordinário ver pessoas que há dez anos apenas sobreviviam e que agora podem educar seus filhos, comprar carro, telefone, geladeira, ar condicionado etc. Esse crescimento explica parte da evolução do comércio de bairros que mencionei acima. Dentre outras mudanças nos padrões de consumo, o crescimento da Classe C trouxe consigo a universalização do cartão de crédito e do uso do automóvel e das motocicletas. Estacionamento e disponibilidade de crédito tornaram-se imperativos do varejo atual no Brasil. Não é mais possível prosperar sem eles.
JC – A Bemol também foi uma das precursoras no lançamento de cartões próprios de crediário, muito utilizados também pelas classes B e C. Como o senhor avalia essa questão entre o cartão próprio da loja e os da administradora. Existe diferença para a empresa?
Jaime Benchimol – Na Bemol optamos por ter um cartão próprio associado a um programa de fidelidade (Bônus Bemol) como forma de agradecer a preferência dos nossos clientes e estimulá-los a continuar conosco. Escolhemos usar crediário próprio. Ao comprar a crédito, muitos clientes preferem lidar com a loja do que com uma instituição financeira pela maior agilidade na concessão de crédito e maior facilidade em repactuar as dívidas. A principal desvantagem é que não conseguimos financiar em prazos tão longos quanto os bancos e administradoras de cartão.
JC – Quantas lojas Bemol já existem no Estado e quais os outros empreendimentos que o grupo administra?
Jaime Benchimol – O sucesso do nosso conceito de negócios depende mais do tamanho das lojas – que oscilam entre 1800m2 a 3000m2 – do que propriamente do número de lojas. Atualmente temos 13 lojas em Manaus, uma em Itacoatiara e duas em Porto Velho. Temos também buscado enriquecer o nosso modelo adicionando loterias da Caixa que atraem novos clientes e oferecem serviços adicionais aos clientes atuais. A Fogás (distribuidora de gás liquefeito de petróleo, o gás de cozinha) também é uma empresa do grupo e temos ainda uma participação no eCenter, um site para empresas de varejo, em parceria com a Argo Informática.
JC – Como o senhor avalia esta crise que abalou o mundo no ano passado. Na sua opinião, o pior já passou ou ainda poderá dar trabalho à economia brasileira?
Jaime Benchimol – Creio que não há mais o risco de uma depressão mundial como se temia no final de 2008. Contudo, para abrandar os efeitos da crise os governos da maioria dos países usaram agressivamente a política monetária (reduzindo os juros) e a política fiscal (aumentando gastos e investimentos públicos). Essa situação é insustentável por mais dois ou três anos e assim, em breve veremos juros mais altos, retração nos gastos públicos e aumento de impostos. Qualquer combinação dessa reversão nas políticas irá desacelerar o crescimento e a recuperação de empregos.O Brasil, como se sabe, estava em um dos seus melhores momentos quando a crise aconteceu e por isso usou apenas moderadamente a política monetária e fiscal. Assim, pagaremos um preço menor ao precisarmos revertê-las. De qualquer forma acho que a recuperação mundial e brasileira será um pouco mais lenta do que a maioria dos economistas e governos estimam. Adicionalmente, acho que o efeito das eleições deste ano sobre as compras no varejo será pequeno por força do melhor controle que está sendo exercido pelo TRE e Tribunais de Conta sobre os gastos dos governos, candidatos e partidos.
JC – Quais são as metas para este ano à frente dos negócios?
Jaime Benchimol – Em 2010 e 2011 investiremos na ampliação da nossa infraesturura nos Centros de Distribuição de Manaus e Porto Velho, na expansão da nossa sede administrativa, no aumento de vagas de estacionamentos e na criação de novas lojas em Manaus, Manacapuru e Rio Branco (AC).
JC – Como anda o nível de inadimplência no varejo e como reduzir?
Jaime Benchimol – Historicamente o varejo perde cerca de 3 a 4% dos seus financiamentos. Atualmente esse número é próximo de 5% já consideradas as recuperações. Muitos clientes erram ao planejar seus orçamentos ou são tomados de surpresa por um fato inesperado com uma doença, a perda do emprego, redução em seus negócios etc. Há ainda aqueles que usam seu crédito para comprar para amigos que nem sempre honram seus compromissos, mas o conceito de crédito é muito valorizado pela grande maioria dos clientes e felizmente são poucos os casos de má fé. Tentamos reduzir as perdas com um sistema de pontuação que tenta prever situações de maior risco na concessão de crédito. Além disso há ações de cobrança, telefonemas, SPC, Serasa etc.
JC – A Copa do Mundo deste ano já movimenta o comércio? E a Copa 2014, tendo Manaus como subsede, em que pode influenciar no desempenho do grupo?
Jaime Benchimol – Além da Copa da África do Sul que já começa no dia 12 de junho deste ano, estão em curso mudanças tecnológicas com a substituição dos aparelhos analógicos de TV de CRT (tubos de raios catódicos) por unidades digitais de telas finas de LCD, LED e Plasma. Esse processo já tem ajudado muito nas vendas e promoverá nos próximos meses um grande impulso na produção de televisores a partir do Polo Industrial de Manaus. No que concerne a Copa de 2014, estou certo de que o seu efeito sobre a economia amazonense será positivo, especialmente pelas obras de mobilidade urbana, segurança, infraestrutura turística e esportiva. As maiores oportunidades de negócios deverão surgir na construção civil, turismo e transportes. Nas nossas empresas, acho que seremos beneficiários indiretos desses investimentos.







