Crianças, cães e gatos

Em: 6 de abril de 2018
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O dia era de sol radiante. Ruas superlotadas de gente invadiam o meu limite visual, enriquecendo de cores e imagens o ambiente circundante. Um dia qualquer, parte do somatório de outros tantos dez que me permiti desfrutar de férias, dentro da agora folga geral da aposentadoria do trabalho formal.
Hoje, no conforto do lar, trabalho tanto ou mais do que antes. O tempo não para. Mudei apenas de nome: estou “JACK”. “Já que está em casa, faça isto ou aquilo para mim”. É o que mais ouço no transcorrer de cada dia. Retornemos, porém, às pessoas e à luminosidade ofuscante do astro rei. Ao asfalto repleto de andarilhos da cidade.

A pouco mais de duzentos metros adiante de onde me encontrava, a natureza nos brindava com um dos mais belos recantos que conheço, a Praia do Peró, em Cabo Frio, litoral norte do Estado do Rio de Janeiro. O fluxo humano, nos meses de dezembro, janeiro e fevereiro de cada ano, é intenso o suficiente no sentido de cuidarmos para não esbarrar no transeunte que vem em sentido contrário ao nosso são idosos, adultos, jovens e crianças lotando a via pública.

Ultimamente, porém, outro ser passou a ocupar o mesmo espaço: os cães. Caninos de diversos tamanhos e raças, arrastados por cordas , coleiras ou simplesmente carregados em colos amigos de homens e mulheres, entre afagos, lânguidos beijos nos focinhos e olhares carinhosos. Coloquei a mão em vespeiro ou casa de marimbondos.

A partir de agora, muitos dirão, com certeza, que sou inimigo dos animais, retrógrado, machista e insensível. E estarão redondamente equivocados. É certo que não os quero roçando em minhas pernas, latindo em meu apartamento, dormindo no sofá que sento e no colchão que durmo. Somente isto. É um direito meu, assim como é direito de quem discorda de mim, deixar que façam tudo isso que citei. E recrimino frontalmente quem maltrata animais.

Nem no céu, nem tanto no inferno: simplesmente não os adoto da forma como o fazem. Questão de opção. Entendo que animal de estimação, ou conforme queiram chamá-lo, deva ser colocado em um local apropriado: no quintal da casa ou até mesmo contíguo à moradia, com todos os cuidados resultantes da decisão de adotá-lo. Em apartamento, sou contra, pelos incômodos que proporciona aos demais moradores.

Acredito que joguei a última pá de cal na cova do “de cujus”. Que fazer? Reconhecer o direito de cada cidadão para assim entender, embora esta não seja a mínima verdade e estejam redondamente equivocados. O que considero fora de propósito e, por vezes, um absurdo, são alguns fatos, quase rotineiros, que me deixam apreensivo e me colocam em estado de alerta. Ninguém me contou. O que passarei a relatar eu, literalmente, vi.

Aeroporto Antônio Carlos Jobim, no Rio de Janeiro. Era noite de lua brilhante e estrelas cintilantes. Dia de retorno a Manaus, após cumprida a tarefa de serviço na cidade. Um vai e vem intenso de pessoas no andar reservado aos embarques. O fato que presenciei, tendo como protagonistas um cidadão e uma criança, me fez estarrecer e sentir o sabor da revolta: o homem, de trinta ou quarenta anos, provavelmente; o menino, de sete e oito anos.

O adulto segurava em suas mãos uma corrente de couro, em cuja extremidade existia uma argola do mesmo material, na qual visualizei, nitidamente, o pescoço de uma CRIANÇA. A convicção visual impediu-me de desacreditar na aberração. Estupefato fiquei.

Ocasião outra, surgiram problemas em relação ao meu aparelho celular, provocados por discordâncias com a minha operadora. Durante o atendimento, percebi que uma moça, muito bonita, por sinal, loura, olhos claros, adentrou o recinto, empurrando um carrinho para bebês bastante sofisticado, com boa cobertura para proteção solar. Homem também é curioso. Na primeira oportunidade que tive, olhei para dentro do carrinho e… surpresa: um belo exemplar canino descansava, sonolento e feliz, em seu interior.
Vez por outra, em conversa informal com amigos ou meros conhecidos, muitos deles se pronunciam, afirmando que é muito melhor criar animais do que crianças. Estas dão trabalho muito maior: cadernos e roupas escolares; tomada de lição; são pirracentas e, quando crescem, abandonam pais e mães, que os criaram com tanto carinho, do qual eu duvido ter existido. Cães e gatos são dóceis, fiéis e jamais abandonam os seus donos.

Tais pessoas esquecem, porém, de alguns detalhes simples e fundamentais: os animais são propriedade de, pertencem a alguém. Os filhos são parte de nós; aqueles que, num futuro do daqui a pouco, não muito distante, definirão que país será este, onde hoje nós vivemos, seus caminhos, suas estradas culturais, éticas e sociais.

Cães e gatos são, tão somente, mas nem sempre, dóceis. Os filhos serão amorosos na proporção em que a eles dedicarmos o verdadeiro amor; os animais se esfregam em nossas pernas; os filhos nos envolvem em seus braços; cães e gatos deitam em nosso colo; os filhos nos olham com ternura; os animais miam ou latem; os filhos nos chamam pai e mãe, complementando suas palavras com um reconfortante “eu te amo”.

Não. Absolutamente não. Eu não sou contra os animais. Sou radicalmente contra a postura de algumas pessoas em relação às crianças, a ter ou não ter filhos e adotar animais, sem perder a consciência dos direitos de cada um. Então, por que toco no assunto? A vida sempre foi e será um eterno aprendizado. Quem sabe alguém aproveita algo do meu raciocínio?

Mas imaginemos que nossos antepassados decidissem não ter filhos ou se optassem substituí-los por cães e gatos. Nem mesmo estaríamos aqui para decidir se queremos ou não ter filhos. Todos os seres e todas as coisas têm sua função no universo. Ao que vem do “húmus”, nos é dito, cabe ordenar as coisas, definir como será a sociedade e procriar. E este último fator é inerente a todas as espécies.

Bem sei que os animais dão menos trabalho do que os filhos, não reclamam ou fazem birra. As crianças, temos por obrigação orientar, cuidar, educar, proteger, nos dedicar. É um trabalho hercúleo. Sabemos, mais ainda, que os destinos do mundo se farão verdade na razão direta do quão melhor for a formação de uma criança.

Ela dá trabalho? Toma tempo? Assim foi com nossos pais e avós. Assim sempre será enquanto existirmos. Preocupo-me com as crianças deste mundo, que serão resultado direto de nossas ações e omissões na formação diária de um mundo novo que virá.

A responsabilidade do que se avizinhará como futuro da humanidade pertence a cada um de nós, de nossas ações no presente e do que plantarmos de flores ou espinhos nos canteiros que deixaremos de legado para os nossos filhos.

Redação

Jornal mais tradicional do Estado do Amazonas, em atividade desde 1904 de forma contínua.
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