Custo do dinheiro está levando a economia brasileira a seu ponto de ruptura

Em: 3 de fevereiro de 2023

Economistas ouvidos pela reportagem do Jornal do Commercio avaliam que as atuais conjunturas internacional e nacional ainda não deixam espaço para o Copom promover cortes na Selic no curto prazo. Resignadas, as lideranças classistas do setor produtivo amazonense não deixaram de apresentar ressalvas à manutenção da taxa nos atuais 13,75% ao ano e reforçaram que o custo do dinheiro está levando a economia brasileira a seu ponto de ruptura. A decisão de segurar os juros básicos foi tomada pela unanimidade do colegiado do Comitê de Política Monetária, nesta quarta (1º), e novamente em sintonia com as expectativas do mercado.

A taxa continua no maior nível desde janeiro de 2017. Essa foi a quarta vez seguida em que o BC não mexe na Selic, que permanece nesse nível desde agosto do ano passado. Mas, entre março de 2021 e a agosto de 2022, a taxa saltou de 2% – o nível mais baixo desde 1986 – para o patamar atual, após 12 reajustes consecutivos, em meio a um ciclo inflacionário iniciado sob o impacto da alta dos preços de alimentos, de energia e de combustíveis. Os aumentos foram progressivos até maio, mas perdera a força a partir de junho.

Assim como nas últimas vezes, o comunicado do Copom indicou que os juros podem ficar altos por mais tempo que o previsto, ou até sofrerem novas elevações. Também informou que espera convergir a inflação para o centro da meta até meados de 2024. “O comitê segue vigilante, avaliando se a estratégia de manutenção da taxa básica de juros por período mais prolongado do que no cenário de referência será capaz de assegurar a convergência. E reforça que irá perseverar, até que se consolide o processo de desinflação, e a ancoragem das expectativas em torno de suas metas, que têm mostrado deterioração em prazos mais longos desde a última reunião”, ressaltou.

Desaquecimento e incertezas

O presidente da Fieam, Antonio Silva, avalia que há mais de um ano a Selic se encontra em patamar necessário para desacelerar a inflação. O dirigente aponta que a taxa real, deduzida a inflação, está em 7,5% ao ano, ficando 3,5% acima do patamar de equilíbrio. “A manutenção da atual taxa é suficiente para restringir a atividade e manter o cenário de deflação já observado. Mais que isso, a Selic nesse nível continuará como fator determinante para o desaquecimento da atividade econômica, razão pela qual o Copom deve iniciar em breve um processo de redução”, recomendou.

Na mesma linha, o presidente da Faea, Muni Lourenço, considera “importante” a interrupção do atual ciclo de alta da Selic, que já se encontra em nível “preocupante” e tende a encarecer o crédito para o setor agropecuário, além de inibir o consumo de seus produtos. “A decisão do Copom já era esperada, diante da conjuntura econômico-política mundial e nacional. No entanto, a Selic ainda continua alta e o país precisa ter menores juros para favorecer o desenvolvimento econômico nacional. Esperamos que o Brasil possa ter um cenário que permita essa redução”, asseverou.

Mais assertivo, o presidente do Sinduscon-AM, Frank Souza, ressalta que a manutenção da Selic em patamar tão elevado é ruim para a construção e “para toda a economia do Brasil”. “O financiamento está mais caro para o financiador e para o comprador. Temos um fator preponderante que é a incerteza. Se tivéssemos uma economia mais estável e uma aplicação de recursos mais previsível, haveria condições de redução. Torcemos que, ao final de março, a situação esteja mais propícia em termos de inflação e juros”, lamentou.

Já o presidente da CDL-Manaus, Ralph Assayag, se mostrou mais resignado. “Até o mercado e o comércio conseguirem se equilibrar, juntamente com a indústria, a Selic vai ter de permanecer alta para não aumentar o consumo e a inflação. Esperamos que o ministro da Economia consiga ter equilíbrio em suas decisões, além de segurar o desemprego e não inventar leis malignas para os setores econômicos. Assim, poderemos ter uma redução gradativa dos juros e voltar a pensar em crescimento”, frisou.

Cenário volátil

A ex-vice-presidente do Corecon-AM e professora universitária, Michele Lins Aracaty e Silva, observa que a manutenção da Selic já estava sendo aguardada pelo mercado, dado o pouco avanço da economia após os meses mais duros da pandemia. Segundo a economista, a inflação internacional, a desordem da cadeia de suprimentos e um cenário de preços ainda em alta influenciaram na decisão contracionista do BC, que teria sido pioneiro a tomar decisões nesse sentido, em âmbito global. 

“Mas, como observamos até o presente momento, as medidas não surtiram efeito e não vemos sinal de retração inflacionária. A taxa serve de referência para o mercado e deixa o crédito mais caro para pessoas físicas e jurídicas, afetando das decisões dos tomadores de crédito. Mas, dado o cenário, não acredito numa retomada de queda de juros neste primeiro semestre de 2023. A taxa deve permanecer em alta e podemos chegar a 14% neste ano”, analisou.

Para o ex-presidente do Corecon-AM, consultor empresarial e professor universitário, Francisco de Assis Mourão Junior, a continuidade da guerra na Ucrânia e as expectativas de baixo e crescimento e mais inflação nas economias e da Zona do Euro e dos EUA – assim como sua disposição de reajustar seus juros – estão entre os principais fatores que ajudam a explicar a decisão do Copom. “A economia brasileira enfrenta câmbio alto e pressão inflacionaria interna, além das incertezas. Fazer a inflação ficar no teto da meta, pode prejudicar o crescimento, embora seja esta a missão do BC. Mas, não vejo condições de reverter este quadro, neste momento”, avaliou.

“Desmame” e “prudência” 

Embora considere que a decisão do Copom foi acertada, o consultor empresarial e professor universitário, Leonardo Marcelo Braule Pinto, vislumbra um cenário mais favorável para redução de juros. “O ‘desmame’ precisa acontecer aos poucos, e o primeiro passo é manter o patamar. Talvez nas próximas reuniões já tenhamos atitudes monetárias mais positivas ao crédito. Por enquanto, não aumentar significa manter a média de patamar equilibrada, juntamente com o controle inflacionário e controle das expectativas, o que ajuda a diminuir incertezas”, ponderou.

Em sintonia, a consultora empresarial, professora e integrante da seção regional da Associação Brasileira de Economistas pela Democracia, Denise Kassama, também considerou que a atitude do BC foi de “prudência”. Reforça, contudo, que os juros devem cair, pois há “gordura para cortar” na Selic, e seu atual estágio penaliza a maior parte da população – que está endividada. “O viés mudou. Embora o Banco Central tenha autonomia, o governo deve propor uma mudança nesse status, no médio prazo. Até porque a inflação já tendencia queda”, arrematou.

Marco Dassori

É repórter do Jornal do Commercio
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