Das calçadas e feiras aos shoppings

Em: 18 de novembro de 2016
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Foi-se o tempo em que produtos artesanais eram vendidos nas calçadas e feiras, a preços que mal pagavam a matéria-prima do produto. Agora eles foram valorizados, ser artesão começou a virar uma profissão desde o final do ano passado (ver box) e das calçadas e feiras as peças artesanais agora ocupam as vitrines de shoppings, como aconteceu na tarde de ontem com a abertura oficial, no Amazonas Shopping, da loja Brasil Original, do Sebrae (Serviço de Apoio as Micros e Pequenas Empresas).

A loja reúne mais de mil peças, produzidas por membros de 168 famílias dos municípios de Barcelos, São Gabriel da Cachoeira, Benjamin Constant, Manaus e da Reserva Anamã, no município homônimo, que integram o projeto do Sebrae “Brasil Original Artesanato do Amazonas”, cuja estratégia é abrir mais canais de comercialização para o artesanato local.
As peças retratam a iconografia, os grupos étnicos, a história e as belezas da cultura amazônica produzidas com fibras, palhas, cerâmica, bordados, tecido, piaçava, madeira e sementes regionais, e são tanto utilitárias quanto decorativas.

“Nossas peças nunca chegaram a custar R$ 100, R$ 200, ou até mesmo R$ 50. Então, isso me deixa emocionada, porque é uma renda que, agora, é direta”, falou a artesã de Barcelos, Dinalva Dias.

“Eu praticamente dava meus produtos, pois o valor que recebia não cobria nem os custos. Com a consultoria do Sebrae, aprendi a valorizar meu produto, aumentei minhas vendas e estou tendo outros benefícios, tanto para mim quanto para a comunidade em que vivo”, relatou o artesão José Garcia, da etnia kuripaka, de São Gabriel da Cachoeira.

A curadoria dos produtos ficou sob a responsabilidade dos designers Jucelma Coutinho e Sérgio Matos, que realizaram todo o trabalho de orientação aos artesãos para que as peças chegassem ao conceito e qualidade exibidos na loja do Amazonas Shopping.
A Brasil Original deve funcionar no Amazonas Shopping até abril do ano que vem, quando o projeto do Sebrae deve encerrar no shopping.

Próximo desafio, em 2017

Lilian Simões, gestora do “Brasil Original Artesanato do Amazonas”, explicou que a primeira versão do projeto aconteceu em 2012, “mas os artesãos ficaram muito soltos e a maioria das peças apresentadas eram biojóias, então fizemos uma pesquisa e identificamos que o público queria peças decorativas, lançadas na versão de 2015 com muito sucesso”.

Sucesso maior, porém, aconteceria após a participação dos artesãos amazonenses numa feira de designers, no Rio de Janeiro, no ano passado. “Revistas como a Casa Vogue, a Casa Cláudia e a Casa Jardim estiveram presentes e acabaram por publicar matérias sobre o nosso artesanato e até a Rede Globo se interessou em adquirir nossas peças para utilizar nos cenários das novelas e programas”, contou.

“O artesanato amazonense é muito bem aceito fora daqui, e o artesão percebeu isso e começou a encarar seu trabalho como uma profissão que pode lhe dar um excelente retorno financeiro”, disse a gestora.

Além do Amazonas Shopping, os shoppings Ponta Negra e Sumaúma também têm espaços com artesanato local. “Aqui no Sebrae o artesão recebe as orientações para progredir com o seu trabalho. Ensinamos a colocar preço nas suas peças, produzi-las com qualidade, dar atenção ao design gráfico e ser empreendedor. Tudo isso tem um custo, mas logo eles percebem que, trabalhando de forma profissional, conseguem bancar esse custo e ainda conseguem ter uma renda bem significativa”, explicou.

Sobre o próximo desafio do “Brasil Original Artesanato do Amazonas”, Lilian adiantou: “no próximo ano iremos participar de uma exposição no Centro de Referência do Artesanato Brasileiro, no Rio de Janeiro, contando a história do artesanato no Amazonas, cujas raízes são indígenas. Já estou antevendo o sucesso do evento”.

Mais de dez milhões beneficiados

Pedraria, miçangas, cipós, retalhos (entre outras matérias-primas) nas mãos de quem tem habilidade podem transformar-se em um produto exclusivo. A técnica (denominada artesanato) é antiga no mundo, mas somente no ano passado é que foi sancionada a regulamentação da atividade no Brasil. A lei deve beneficiar mais de dez milhões de artesãos no país.

No dia 24 de outubro passado, a então presidente Dilma Rousseff assinou a lei 13.180, que estabelece diretrizes para a profissão de artesão. O documento define que o artesanato deve valorizar a identidade e a cultura nacional e especifica a destinação de uma linha de crédito especial para financiar a comercialização da produção e a aquisição de matérias-primas e de equipamentos. Determina ainda, a integração dessa atividade profissional com outros setores e programas de desenvolvimento econômico e social.

A Lei foi sancionada, mas ainda falta a regulamentação. É preciso decidir como será feita a organização da classe, quais serão as atividades desenvolvidas que se enquadrarão na profissão, a criação da Carteira Nacional do Artesão (que será válida em todo território nacional), além da criação da Escola Técnica Federal. Sem falar em como serão feitos os subsídios financeiros.

Redação

Jornal mais tradicional do Estado do Amazonas, em atividade desde 1904 de forma contínua.
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