Foi-se o tempo em que produtos artesanais eram vendidos nas calçadas e feiras, a preços que mal pagavam a matéria-prima do produto. Agora eles foram valorizados, ser artesão começou a virar uma profissão desde o final do ano passado (ver box) e das calçadas e feiras as peças artesanais agora ocupam as vitrines de shoppings, como aconteceu na tarde de ontem com a abertura oficial, no Amazonas Shopping, da loja Brasil Original, do Sebrae (Serviço de Apoio as Micros e Pequenas Empresas).
A loja reúne mais de mil peças, produzidas por membros de 168 famílias dos municípios de Barcelos, São Gabriel da Cachoeira, Benjamin Constant, Manaus e da Reserva Anamã, no município homônimo, que integram o projeto do Sebrae “Brasil Original Artesanato do Amazonas”, cuja estratégia é abrir mais canais de comercialização para o artesanato local.
As peças retratam a iconografia, os grupos étnicos, a história e as belezas da cultura amazônica produzidas com fibras, palhas, cerâmica, bordados, tecido, piaçava, madeira e sementes regionais, e são tanto utilitárias quanto decorativas.
“Nossas peças nunca chegaram a custar R$ 100, R$ 200, ou até mesmo R$ 50. Então, isso me deixa emocionada, porque é uma renda que, agora, é direta”, falou a artesã de Barcelos, Dinalva Dias.
“Eu praticamente dava meus produtos, pois o valor que recebia não cobria nem os custos. Com a consultoria do Sebrae, aprendi a valorizar meu produto, aumentei minhas vendas e estou tendo outros benefícios, tanto para mim quanto para a comunidade em que vivo”, relatou o artesão José Garcia, da etnia kuripaka, de São Gabriel da Cachoeira.
A curadoria dos produtos ficou sob a responsabilidade dos designers Jucelma Coutinho e Sérgio Matos, que realizaram todo o trabalho de orientação aos artesãos para que as peças chegassem ao conceito e qualidade exibidos na loja do Amazonas Shopping.
A Brasil Original deve funcionar no Amazonas Shopping até abril do ano que vem, quando o projeto do Sebrae deve encerrar no shopping.
Próximo desafio, em 2017
Lilian Simões, gestora do “Brasil Original Artesanato do Amazonas”, explicou que a primeira versão do projeto aconteceu em 2012, “mas os artesãos ficaram muito soltos e a maioria das peças apresentadas eram biojóias, então fizemos uma pesquisa e identificamos que o público queria peças decorativas, lançadas na versão de 2015 com muito sucesso”.
Sucesso maior, porém, aconteceria após a participação dos artesãos amazonenses numa feira de designers, no Rio de Janeiro, no ano passado. “Revistas como a Casa Vogue, a Casa Cláudia e a Casa Jardim estiveram presentes e acabaram por publicar matérias sobre o nosso artesanato e até a Rede Globo se interessou em adquirir nossas peças para utilizar nos cenários das novelas e programas”, contou.
“O artesanato amazonense é muito bem aceito fora daqui, e o artesão percebeu isso e começou a encarar seu trabalho como uma profissão que pode lhe dar um excelente retorno financeiro”, disse a gestora.
Além do Amazonas Shopping, os shoppings Ponta Negra e Sumaúma também têm espaços com artesanato local. “Aqui no Sebrae o artesão recebe as orientações para progredir com o seu trabalho. Ensinamos a colocar preço nas suas peças, produzi-las com qualidade, dar atenção ao design gráfico e ser empreendedor. Tudo isso tem um custo, mas logo eles percebem que, trabalhando de forma profissional, conseguem bancar esse custo e ainda conseguem ter uma renda bem significativa”, explicou.
Sobre o próximo desafio do “Brasil Original Artesanato do Amazonas”, Lilian adiantou: “no próximo ano iremos participar de uma exposição no Centro de Referência do Artesanato Brasileiro, no Rio de Janeiro, contando a história do artesanato no Amazonas, cujas raízes são indígenas. Já estou antevendo o sucesso do evento”.
Mais de dez milhões beneficiados
Pedraria, miçangas, cipós, retalhos (entre outras matérias-primas) nas mãos de quem tem habilidade podem transformar-se em um produto exclusivo. A técnica (denominada artesanato) é antiga no mundo, mas somente no ano passado é que foi sancionada a regulamentação da atividade no Brasil. A lei deve beneficiar mais de dez milhões de artesãos no país.
No dia 24 de outubro passado, a então presidente Dilma Rousseff assinou a lei 13.180, que estabelece diretrizes para a profissão de artesão. O documento define que o artesanato deve valorizar a identidade e a cultura nacional e especifica a destinação de uma linha de crédito especial para financiar a comercialização da produção e a aquisição de matérias-primas e de equipamentos. Determina ainda, a integração dessa atividade profissional com outros setores e programas de desenvolvimento econômico e social.
A Lei foi sancionada, mas ainda falta a regulamentação. É preciso decidir como será feita a organização da classe, quais serão as atividades desenvolvidas que se enquadrarão na profissão, a criação da Carteira Nacional do Artesão (que será válida em todo território nacional), além da criação da Escola Técnica Federal. Sem falar em como serão feitos os subsídios financeiros.







