Marco Dassori
Twitter: @marco.dassori Face: @jcommercio
O Copom confirmou as expectativas do mercado e interrompeu o ciclo de cortes da Selic, após sete meses consecutivos de baixas. A manutenção da taxa no atual patamar de 10,50% ao ano foi decidida nesta quarta (19), por unanimidade dos integrantes do Comitê de Política Monetária. O acerto, que deixou o Brasil com a segunda maior taxa de juros do mundo, já era esperado pelo mercado, diante da escalada recente do dólar e do aumento das incertezas econômicas. Economistas e lideranças classistas ouvidas pela reportagem do Jornal do Commercio se mostraram divergentes na avaliação da medida.
O encontro anterior já havia sinalizado para a manutenção da Selic, já que houve uma diminuição na velocidade do corte, restrito a 0,25 ponto percentual, contra os 0,50 p.p. arbitrados paulativamente desde agosto de 2023. Mas, naquela ocasião, o Comitê se dividiu, com quatro dos nove membros do colegiado votando por um novo corte de 0,50 p.p., o que não ocorreu agora. Em seu comunicado, o Copom justificou que decidiu o veredito citando um “cenário global incerto”, a alta da inflação doméstica e as expectativas “desancoradas”, como fatores que inspirariam maior cautela.
“O ambiente externo mantém-se adverso, em função da incerteza elevada e persistente sobre a flexibilização da política monetária nos EUA e quanto à velocidade com que se observará a queda da inflação de forma sustentada em diversos países”, destacou o texto. “Em relação ao cenário doméstico, o conjunto dos indicadores de atividade econômica e do mercado de trabalho segue apresentando dinamismo maior do que o esperado. A inflação cheia ao consumidor tem apresentado trajetória de desinflação, enquanto medidas de inflação subjacente se situaram acima da meta para a inflação nas divulgações mais recentes”, emendou, sem indicar a direção da próxima reunião.
De março de 2021 a agosto de 2022, o Copom elevou a Selic por 12 vezes, em um ciclo de aperto monetário iniciado em meio à alta dos preços de alimentos, energia e combustíveis. Por um ano, de agosto de 2022 a julho do ano passado, a taxa foi mantida em 13,75% anuais, até que o Comitê arbitrasse as reduções recentes dos juros básicos. Mas, antes do início do ciclo de alta e em decorrência dos impactos da pandemia, a Selic tinha sido reduzida para 2% ao ano, no nível mais baixo da série histórica iniciada em 1986.
“Decisão contraproducente”
O presidente da Fieam e vice-presidente executivo da CNI, Antonio Silva, considerou que a decisão do Copom é “contraproducente” à economia. “A interrupção no ciclo de redução mantém a Selic em patamar elevado e reprime a atividade econômica. A taxa atual encarece e dificulta o acesso ao crédito, o que, a médio e longo prazo, reduz o crescimento e impacta os resultados. Os reflexos dessa política contracionista podem ser observados no comportamento do PIB, que sinaliza crescimento mais tímido esse ano, estimado em 2,04%, contra 2,9% em 2023, segundo o Relatório Focus”, argumentou.
O presidente do Sinduscon-AM, Frank Souza, enfatiza que manutenção da Selic é ruim para a construção, que pode colher um crescimento inferior ao esperado, em virtude do encarecimento dos aportes produtivos e dos financiamentos habitacionais, entre outros fatores. “Havia uma expectativa de que já estivéssemos com uma taxa de 9% anuais. Mas, o BC, que sempre agiu com muita cautela, entende que as metas inflacionárias não estão sendo cumpridas, e que o dólar está subindo. O bom é que a taxa não subiu. Há uma tendência de estabilidade. Vamos torcer”, asseverou.
O presidente em exercício da Fecomercio-AM, Aderson Frorta, vê nisso um remédio amargo. “A Selic tem uma vinculação forte com a economia, que tem um elo forte com o desempenho do próprio governo. Como há um déficit cada vez mais expressivo, há uma necessidade técnica de parar a redução e conter a inflação. É claro que a gente sabe que juros altos dificultam o acesso do consumidor ao crédito e as vendas do comércio. Mas, o BC está certo, porque a inflação afeta muito mais a população de baixa renda”, ponderou.
Gastos em xeque
A ex-vice-presidente do Corecon-AM e professora universitária, Michele Lins Aracaty e Silva, lembra que a interrupção da trajetória de queda da Selic já tinha sido sinalizada pela autoridade monetária e era esperada pelos analistas de mercado. “Destaco o atual cenário de descontrole dos gastos púbicos como o principal motivo. Lembrando que o mercado foi surpreendido com a fala do presidente da República, explicitando que restrição de gastos não é prioridade. Tal escolha trará como consequência o desequilíbrio fiscal”, alertou.
A economista cita a elevação do IPCA, a subida do dólar e as turbulências internacionais como pontos delicados. “A interrupção da trajetória de queda dos juros eleva o valor do crédito, desestimulando consumo e produção. Sua retomada está condicionada ao compromisso do governo com o controle dos gastos. A autoridade monetária tem o compromisso de manter a inflação sob controle, analisando o cenário nacional e internacional. E sua independência garante que a avaliação seja técnica”, frisou.
O atual vice-presidente do Corecon-AM, e economista com especialização em Gestão Empresarial, José Altamir Cordeiro, vai na mesma direção. “Achei que a manutenção foi prudente e responsável. A decisão já era esperada, haja vista o presidente Lula ter subido o tom com o presidente do BC. A decisão unânime demonstra responsabilidade dos integrantes do Copom. Fatores domésticos e externos ainda mantêm a inflação no radar do BC. O governo precisa colaborar e não criar crises na política monetária. Os gastos públicos precisam sempre ter equilíbrio, diante do cenário que estamos passando”, recomendou.
“PIB pequeno”
O ex-presidente do Corecon-AM, consultor empresarial e professor universitário, Francisco de Assis Mourão Junior, diz que a interrupção do ciclo de cortes se deve principalmente a três fatores. “Há a melhora da economia americana, com a consequente resposta do Fed e o comportamento do câmbio. A segunda situação está no arcabouço fiscal e o fato que o governo gasta mais arrecada, afastando investidores. O último fator é o controle da inflação: o BC é um órgão técnico e uma de suas ferramentas é a Selic. A consequência é que teremos redução do consumo e um PIB pequeno”, avaliou.
Já a consultora empresarial, professora universitária e conselheira do Cofecon, Denise Kassama, avalia que o BC optou pela prudência, em face do cenário econômico nacional e internacional ainda indefinidos. Ela concorda que a tragédia ambiental do Rio Grande do Sul, pode mexer com o mercado de commodities e gerar mais inflação. Mas, considerou que a decisão foi “um exagero”, diante o potencial e necessidade de crescimento do país.
“Apesar da expectativa de inflação ter subido, tinha campo para cortar. Uma taxa alta prejudica principalmente as camadas endividadas mais baixas, e o cenário nacional que está clamando por crescimento. Uma Selic elevada estimula a poupança e inibe o consumo, fazendo com que o comércio venda menos e a indústria produza menos, sem gerarem emprego e renda. Mas, optaram pela prudência. Pelo menos, não aumentaram a taxa”, lamentou. “Esses juros precisam cair mais, porque o brasileiro está sofrendo”, encerrou.







