Declaração de Ricardo Salles gera novo ruído no Polo Industrial de Manaus

Em: 31 de janeiro de 2020
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A recente declaração do ministro do Meio Ambiente, Ricardo Salles, a um site de notícias, criticando os incentivos à produção de bicicletas na ZFM (Zona Franca de Manaus), gerou novo ruído de comunicação entre o governo federal e as lideranças políticas do Amazonas, além de manifestações parlamentares veementes em defesa da ZFM.

Ciente da má repercussão entre os políticos da bancada amazonense no Congresso, Ricardo Salles, ligou para alguns deles, argumentando que tudo não passou de um mal entendido. Deputados e senadores, entretanto, aguardam que o ministro aproveite sua visita a Manaus para a inauguração da Secretaria da Amazônia – programada para hoje – e faça uma retratação pública. 

Em entrevista concedida ao blog BR Político, do Grupo Estadão, postada nesta semana, o ministro Ricardo Salles disse que os incentivos fiscais que hoje beneficiam a fabricação de bicicletas poderiam favorecer a bioeconomia. “Em vez de continuar a dar subsídios a fundo perdido para o cara fabricar bicicleta na Amazônia, vamos fazer coisa que realmente precisar estar na Amazônia”, asseverou.

A fala ministerial não deixou de acender um sinal amarelo no PIM, que já convive com alíquotas reduzidas de IPI para seu polo de concentrados e teme sofrer uma nova baixa em outro segmento. Vale lembrar que, há exatos 12 meses, o mesmo polo de duas rodas foi alvo de rumores de que o Ministério da Economia estaria estudando a possibilidade de rever as alíquotas dos incentivos. O boato foi desmentido – e rapidamente esquecido – mais tarde.

“Falta de conhecimento”

Em nota à imprensa, o senador Eduardo Braga (MDB-AM) manifestou seu descontentamento e disse que a declaração de Ricardo Salles não faz o menor sentido, quando se leva em conta que o mundo inteiro se movimenta em direção aos meios de transportes alternativos e não poluentes, a exemplo justamente das bicicletas ‘made in Manaus’. 

“Porque não podemos produzir e exportar esse produto? O ministro está equivocado e demonstra falta de conhecimento em temas básicos. Vamos ao presidente Bolsonaro apelar para que bote ordem em seus subordinados para que não causem mais prejuízos ao Brasil e aprendam a respeitar os verdadeiros guardiões da floresta”, desabafou.

Em vídeo postado em suas redes sociais, no mesmo dia, o senador emedebista reforçou que o recesso parlamentar se encerra na próxima segunda (3) e que vai retornar à casa legislativa para defender a ZFM, bem como seus empregos e investimentos, com responsabilidade ambiental.

“O ministro perdeu a oportunidade de fazer um movimento que o mundo inteiro está fazendo em relação aos meios de transporte alternativo não poluentes. A própria Uber está alugando, mundo afora, bicicletas elétricas e patinetes, principalmente nas áreas turísticas. Dizer que a Zona Franca não deve produzir bicicletas em um momento desses é, mais uma vez, um equívoco do governo”, declarou.

“Futuro na biotecnologia”

O deputado federal Capitão Alberto Neto (Republicanos-AM) também se posicionou contra o teor da declaração do ministro do Meio Ambiente e defendeu a fabricação de bicicletas no PIM, ao lembrar que o segmento é um exemplo de produtividade, com 919.924 unidades fabricadas no ano passado – 18,9% a mais do que em 2018 (773.641).

“Teve um equívoco de o ministro pensar que, para conceder um incentivo, tem que retirar o outro. Porém, ele acerta em enxergar que este é o nosso futuro, o da biotecnologia”, ponderou, ao reforçar que o polo de bicicletas da ZFM é um dos pilares da indústria incentivada de Manaus e está com projeção de crescimento de 7,3% este ano, segundo a Abraciclo (Associação Brasileira dos Fabricantes de Motocicletas, Ciclomotores, Motonetas, Bicicletas e Similares). 

“Visão distorcida”

O deputado federal Marcelo Ramos (PL-AM) concorda que a declaração ministerial foi “temerária”, mas ressaltou ao Jornal do Commercio que recebeu uma ligação de Ricardo Salles, na manhã esta quinta (30), dizendo que foi “mal compreendido” e que tem o mesmo entendimento da bancada amazonense: de que não há contradição em investir em um polo de biotecnologia e manter o atual modelo ZFM, essencial para gerar os recursos para pesquisa e desenvolvimento.   

“Diante dessa nova declaração do ministro, que eu espero que ele confirme amanhã [hoje], quando estiver em Manaus, eu relevo aquela manifestação dele anterior. Agora, claro que é um tema preocupante. E é muito perceptível que há uma visão distorcida, por parte do Ministério da Economia principalmente, mas que contamina todo o governo federal, do que seja a Zona Franca e da importância que ela tem para o país”, ponderou.

“Mal entendido”

Na mesma linha, o vice-presidente da CAE (Comissão de Assuntos Econômicos) do Senado, o senador Plínio Valério (PSDB-AM), informou ao Jornal do Commercio que também recebeu uma ligação telefônica do ministro do Meio Ambiente para desfazer o que considerou ser um mal entendido. 

“Ele me telefonou para esclarecer. Disse que não é contra, mas a favor de explorar outras alternativas também, e que não há, da parte dele, nenhuma restrição ao modelo Zona Franca. Também me convidou para acompanhá-lo à viagem a Manaus mas não vai ser possível. Marcamos uma conversa para a próxima semana”, encerrou.

Redação

Jornal mais tradicional do Estado do Amazonas, em atividade desde 1904 de forma contínua.
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