O início do defeso de seis espécies de peixes no Amazonas traz à tona o desafio de ampliar a escala da piscicultura no Estado uma vez que, segundo a Apeam (Associação dos Piscicultores do Estado do Amazonas), o Amazonas não produz nem 10% do pescado consumido no Estado.
De acordo com o presidente da Apeam, Alberto Brilhante, o Amazonas ainda está engatinhando na comparação com outros Estados que produzem peixes em larga escala, como Porto Velho e Roraima, esses dois centros produzem peixes de excelente qualidade. “Nós, apesar de termos capacidade para produzir o pescado em grande quantidade, ainda estamos muito atrás, é necessário dar um salto em tecnologia, senão vamos definhar quanto criadores”. Segundo o presidente, o Amazonas já chegou a produzir 100 mil toneladas por ano, agora não chega nem 4 mil toneladas.
Para Alberto, as informações em relação à quantidade de pescado produzida no Amazonas não batem e os números são defasados, existe um número que é divulgado para efeito de propaganda que gira em torno de 18 mil toneladas e outro para efeito real da produção que chega perto de 4 mil toneladas ao ano. “O Amazonas tem capacidade para consumir 1.000 toneladas de peixe por ano e, no entanto só produz 4 mil toneladas e o resto temos que importar”, disse.
Alberto acrescenta que esse segmento vem avançando com o suporte de informações e tecnologias na área, porém lentamente. “Os outros produtores, como é o caso de Roraima, produzem um pescado de excelente qualidade diferente do nosso que é um peixe muito gordo e ruim para o consumo, por isso muitos comerciantes preferem importar de outros Estados a comprar aqui”, finaliza.
Sete restaurantes e pei–xarias da cidade foram ouvidos pela equipe do JC em uma breve pesquisa realizada para saber se a produção atende a demanda exigida na capital, o número de comerciantes que compram o pescado aqui e os que compram fora deu empate. O Restaurante Delícias do Peixe, Recanto do Peixe e Peixaria Bom Gosto compram o pescado em Roraima e Porto Velho, todos alegaram que o peixe em Manaus está caro e que possui um excesso de gordura, o que prejudica as vendas. Já os restaurantes Canto da Peixada, Turiyá e Peixa–ria Moranguetá compram a produção aqui na capital.
Segundo Feliz Aquino, proprietário do Restaurante e Peixaria Moranguetá, sempre comprou o peixe produzido em reservas certificadas aqui no Estado. “Compramos o peixe de reservas devidamente certificadas e em grande estoque, entre outros fornecedores especiais que já trabalhamos há algum tempo, minha pei–xaria consome em média 2,5 toneladas de peixe nobre por mês, como é o caso do tambaqui, que já chegamos a consumir 3 toneladas,agora deu uma leve queda, mas tende a aumentar no próximo mês”, disse.
Restaurante quer projeto próprio
De acordo com Feliz, o restaurante está trabalhando em um projeto próprio onde vai produzir peixe de barragem para o consumo e suprir a necessidade do restaurante. E em relação à produção de peixe de criadouros no Amazonas, o empresário acrescenta que o peixe é muito caro e muito pequeno. “Produção existe, mas nem sempre atende a demanda exigida no mercado”, finaliza.
O secretário da Sepa (Secretaria Executiva de Pesca e Aquicultura), Geraldo Bernadino, defende a produtividade do Amazonas e enfatiza que atualmente o Estado tem uma produção de pescado suficiente para abastecer a capital que é Manaus, incluindo a rede de hotelaria, bares e restaurantes da cidade que usam o pescado de formas diversas na culinária local. Ao todo são 172 mil toneladas por ano, o equivalente a R$ 385 milhões gerados para o Estado anualmente.
Das 172 toneladas, 80% são consumidas em Manaus, 81% pelas comunidades ribeirinhas, 38% por municípios vizinhos, 13% são para exportações. “Aqui, produz-se basicamente o tambaqui (46 mil t/ ano) e em menor escala o pirarucu e a matrinxã, por isso temos grandes possibilidades de crescimento nessa área”, esclarece.
Geraldo ressalta que mais de 12 municípios já estão atuando na piscicultura no Estado, com destaque para Rio Preto da Eva, Benjamin Constant e Presidente Figueiredo. Juntos, esses criadores produzem, aproximadamente, 1,5 mil toneladas de peixe por ano, sendo 90% de tambaqui. Rio Preto da Eva já desponta como um polo de piscicultura, concentrando a maior parte dos criadores, bem mais de 150, seguido por Benjamim Constant, com aproximadamente 150 criadores.
Para o Analista Ambiental do Inpa (Instituto Nacional de Pesquisa do Amazonas), José Lelad, a piscicultura é uma atividade produtiva e favorecida na região amazônica onde se concentra 20% da água doce do planeta. E que já existe informações que o pescado é produzido em longa escala nos cativeiros, porém no seu habitat natural os peixes estão a cada dia mais ameaçados. Pois o Amazonas ainda peca com fiscalizações, os órgãos responsáveis em fiscalizar a pesca clandestina e o defeso não fiscalizam de forma correta, e isso acaba com as espécies de peixes importantes como tambaqui, matrinxã e surubim que não conseguem se reproduzir como antes.
Tambaqui corre risco de extinção
A pesca feita de forma desmedida levou algumas espécies como a do tambaqui, que tem seu defeso iniciado em 1º de novembro e término em 1º de março, a quase extinção definitiva. De acordo com o analista ambiental José Lelad, o tambaqui é um dos peixes que mais vem sofrendo com a pesca sem fiscalização no Estado e sua escassez se dá devido ele ser abatido abaixo do tamanho ideal para a pesca, que é de 55 centímetros, em média o tambaqui precisaria de dez meses a um ano para ficar no tamanho ideal para a pesca. Atualmente segundo pesquisadores o tambaqui já está indo para extinção comercial. Os peixes encontrados em feiras e supermercados são em sua maioria de cativeiros, essa espécie não tem tempo para se reproduzir e com o passar do tempo é cada vez mais difícil encontrar tambaqui nas feiras medindo mais que 55 centímetros, de cada 10 tambaquis encontrados sendo comercializados 9 são oriundos de cativeiros.
A produção atual de tambaqui no Amazonas cresceu nos últimos anos com a maior eficiência na criação em cativeiro. Na época do defeso (outubro a março), o consumo de tambaqui oriundo da piscicultura chega a ultrapassar 80% em Manaus. Atualmente a produção amazonense de tambaqui de piscicultura está na ordem das 13 mil toneladas por ano, sendo o principal polo produtor as propriedades rurais localizadas no município de Rio Preto da Eva, Iranduba e Manacapuru.







