Demônios da garoa

Em: 8 de julho de 2014
Há 70 anos, sempre atuais
Há 70 anos, sempre atuais

“Não posso ficar, nem mais um minuto com você. Sinto muito, amor, mas não pode ser. Moro em Jaçanã. Se eu perder esse trem, que sai agora, às onze horas, só amanhã, de manhã…”.
Há 50 anos essa música, “Trem das Onze”, do poeta Adoniran Barbosa, é o cartão de visitas do grupo Demônios da Garoa, muito embora os músicos já se apresentassem desde 1943. Izael Caldeira, em entrevista exclusiva de São Paulo para o Jornal do Commercio, contou que em fevereiro de 2015 o Demônios da Garoa vai completar 72 anos de existência. “No começo, os integrantes originais imitavam outros grupos que faziam sucesso nas rádios, principalmente de São Paulo. Aí surgiu o Adoniran com suas bem humoradas composições, e o grupo passou a ter uma identidade com o que ele compunha, muito embora gravássemos músicas de outros compositores”.
Desde então o Demônios da Garoa não mais parou de fazer sucesso sendo hoje o mais antigo grupo musical do Brasil. “Não sei explicar porque. Talvez pela perseverança ou sorte em conquistar o público pelo repertório que apresentamos. Após gravarmos as músicas de Adoniran, mantivemos o nosso padrão musical. Acredito que a junção disso tudo seja o responsável pelo nosso sucesso há tanto tempo”. Atualmente o Demônios da Garoa faz uma média de 15 shows por mês.
De Adoniran, Izael disse que o grupo gravou umas 40 músicas, dez fizeram muito sucesso, além de “Trem das Onze”, como “Saudosa Maloca” (1951), “Samba do Arnesto” (1953), “Iracema” (1956) e “Tiro ao Álvaro” (1960). “Essa última foi censurada por causa do ‘Tiro ao Álvaro’ e ficou engavetada. Um dia, num show do Adoniran, ele convidou a Elis Regina para cantar com ele essa música. Ela gostou, gravou em 1980 e fez muito sucesso. Aí nós gravamos em seguida e também fizemos muito sucesso”, recordou.

Muita gente boa
Já em sua terceira geração, o Demônios da Garoa continua mais atuante do que nunca. Depois de comemorar em 2013 os 70 anos de carreira com o DVD “Vem cantar comigo”, o grupo lança agora o seu 30º trabalho, o CD “Um samba diferente”, título de uma das músicas do disco que relembra os bons e velhos tempos, da década de 1950, quando começaram a interpretar os sucessos de Adoniran. E “Trem das Onze” está lá. Composto por 12 músicas, cinco inéditas, o CD parece percorrer toda a história do grupo.
Samba de raiz, letras sobre o cotidiano e bom humor, receita que convenceu gerações e continua levando milhares de pessoas aos shows do grupo, podem ser ouvidas em “Melô do Camelô”, “Bêbado Minerim” e “Dá nele, nega”. Existe também a crítica social “A Lei do Morro” e a romântica, “Zoião”, todas respaldadas pela musicalidade apurada de Sérgio, Ricardinho, Dedé, Canhotinho e Izael.
Outra novidade do álbum é a identidade visual baseada em caixas de fósforos, “instrumento” usado por Adoniram para compor suas canções.
Entre idas e vindas, Izael está com os Demônios da Garoa desde 1999. “Nesses quase 72 anos de existência do grupo, já passou muita gente boa por aqui. Deu pra fazer umas cinco ou seis formações, sem falar dos que passaram rapidamente. O último integrante original a morrer foi o Toninho, em 2005, mas o Sérgio e o Ricardo são filho e neto do Arnaldo, também integrante original, morto em 2000. Atualmente o mais antigo no grupo é o Roberto Barros, o Canhotinho, que está no Demônios desde 1962”, explicou.
Sobre Manaus, Izael lembrou que o Demônios da Garoa esteve na capital amazonense na década de 1980. “Gostaríamos muito de voltar aí para mostrar o nosso novo trabalho. É só nos chamar”, brincou.

Redação

Jornal mais tradicional do Estado do Amazonas, em atividade desde 1904 de forma contínua.
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