Desvio de foco

Em: 12 de abril de 2018
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Um dos fenômenos recorrentes na economia e na política quando um assunto ou fato incomodam ou atrapalham os que dominam, é o surgimento de outro fato geralmente mais espalhafatoso que tira a atenção de todos, muda o foco de atenção da população e na maioria das vezes relega ao esquecimento as mazelas choradas até aquele momento. Não foi diferente desta vez, quando se discutia a inocuidade das taxas inflacionárias e os índices irrisórios de crescimento, que não dá para configurar um verdadeiro crescimento em uma sociedade com doze milhões de desempregados.

A bomba da prisão do ex-presidente foi tão explorada, discutida à exaustão e levantou tantas polêmicas e discussões pessoais e até mesmo ideológicas, o que é difícil em nosso país, que esqueceu-se do problema econômico. Falar do desemprego e discutir sobre esta inflação baixa que está neste nível muito mais pela falta de dinheiro da população do que por questões estruturais de políticas econômicas, virou algo fora do contexto. As pessoas passaram a discutir muitas vezes de maneira insana e até deseducada pelas redes sociais suas posições em relação à decisão judicial que levou para a prisão um líder político que se dizia blindado à Justiça.

Não me interessa discutir o fato pois já está até mesmo saturado, porém não posso me abster de comentar as consequências deste fato triste para a economia de nosso país. A corrupção que levou já alguns políticos para a prisão e deverá levar mais alguns, se Deus quiser, é resultado de um processo que destruiu nossa economia e todo um projeto estruturado pelo Plano Real que nos tornaria com certeza absoluta um país de primeiro mundo. Não tenho nenhum problema ao afirmar isto, pois o Plano Real foi um projeto técnico, onde as metas foram estabelecidas de forma macroeconômica e abrangiam todos os aspectos do fluxo produtivo.

Infelizmente quando houve a primeira dificuldade, as chamadas externalidades, das quais o Brasil não conseguia se livrar antes do real, com três crises internacionais seguidas, os inimigos do Real e do país aproveitaram para lançar uma estratégia política para vencer as eleições e piorar a situação econômica do país. A partir daí a economia brasileira foi desmoronando e levando junto a estrutura social e política, pagando um preço tão alto que a população não conseguiu entender à época e alguns até hoje não entenderam.

Agora, em pleno século 21, quando se passou a discutir questões de gênero sem mesmo entender os direitos básicos do cidadão e em uma sociedade em que as pessoas muitas vezes querem impor sua presença pela cor da pele ao invés da capacidade intelectual, nos colocamos novamente diante de outra oportunidade de mudança radical da nação brasileira. Temos um grupo de promotores, juízes e delegados buscando enfrentar os poderosos e mostrar à população o escrachamento da corrupção. Temos o poder judiciário a duras penas cumprindo o seu papel e fazendo valer a constituição tentando mostrar que a lei deve valer para todos. Deveriam ser atos normais e corriqueiros porém no caso brasileiro é algo a que não estamos acostumados.

E a economia? Bem, o sistema econômico precisa mais que nunca de algo valioso para trabalhar que é a confiança da população e dos investidores externos, além de certa dose de estabilidade social e política. Neste caso fica bem complicado determinar se temos estes elementos que nos permitam recuperar este sistema que tem tudo para crescer mas vive sendo estuprado por quem deveria defendê-lo. Depois que passar esta onda toda de prisões políticas e lavagens morais que são justas e necessárias, quero apenas que o FOCO VOLTE A SER A ECONOMIA e os atos que precisam ser tomados.

*é professor, economista, mestre em engenharia da produção, consultor econômico da empresa SINÉRGIO

Orígenes Martins

É professor, economista, mestre em engenharia da produção, consultor econômico da empresa Sinérgio
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