Documento aponta novas políticas públicas ao setor pesqueiro

Em: 1 de fevereiro de 2023

Um documento foi protocolado, na última  sexta-feira (27) nas presidências da República, da Câmara e do Senado pede a correção de problemas considerados urgentes, como a “insegurança jurídica e a instabilidade institucional provocadas pelas brechas na atual Lei da Pesca (11.959/2009), que prejudicam centenas de milhares de pescadores e pescadoras que têm na pesca artesanal seu modo de vida e que permitem a perpetuação de um modelo de exclusão e a marginalização das mulheres pescadoras e dos jovens”. 

A “Carta de Brasília”, aponta também o risco futuro da atividade com a crescente escassez de pescado em rios, mares e estuários decorrentes dos mais variados impactos. Pela primeira vez, a construção de uma proposta de lei para o setor da pesca reflete as vivências, necessidades, culturas e tradições daqueles e daquelas que realizam esta atividade nos seus cotidianos.

Outras demandas relevantes apresentadas pelas lideranças são: a necessidade de compreender as especificidades da pesca artesanal e regionalizar a gestão da pesca; a importância de garantir a participação social das comunidades na construção das políticas públicas; a garantia da estabilidade das instituições governamentais do setor — que não podem ficar sujeitas às desestruturações que têm ocorrido a cada mudança de governo; e a valorização das mulheres pescadoras — que, apesar de participarem de toda a cadeia da pesca, ainda não têm os mesmos direitos e o mesmo reconhecimento que os homens.

“Esse processo une as lutas e as reivindicações de pescadores e pescadoras artesanais que são ditas há muito tempo, mas nunca aglutinadas de forma efetiva. É inédito também porque pode ser feito sem os pescadores e as pescadoras artesanais. É uma proposta deles de como deve ser construída uma política pública para eles”, destaca Marcelo Apel, do CPP (Conselho Pastoral dos Pescadores).

Classe fortalecida

Esse pertencimento dos pescadores e das pescadoras artesanais traz para a proposta de lei a legitimidade de uma classe historicamente sem segurança no exercício da função. Flávio Lontro, da Confrem (Comissão Nacional de Fortalecimento das Reservas Extrativistas Costeiras e Marinhas), acredita que esse é o início de um processo para que a pesca artesanal seja protegida. “Hoje, têm pessoas que, apesar de não serem da pesca artesanal, classificam-se dentro do nosso ofício, beneficiando-se indevidamente de nossos direitos”.

A falta de proteção trabalhista atinge toda a classe reflete-se, com maior intensidade, sobre as mulheres que trabalham em diversas atividades da cadeia da pesca artesanal. “Estamos lutando pelo respeito da mulher dentro do nosso trabalho e trazendo para a lei a necessidade de empoderamento da pescadora, com uma proposta que tenha a nossa cara. Estou aqui representando uma multidão de 35 mil trabalhadores e trabalhadoras filiados à Federação dos Pescadores do Estado do Amazonas (Fepesca) e espero que nossa proposta seja abraçada pelo atual governo, que restituiu o Ministério da Pesca e tem claro comprometimento com o nosso setor”, aponta Raimunda Célia Ferreira de Souza, que também representa a Confederação Nacional de Pescadores (CNPA).

Josana Pinto da Costa, integrante do Movimento dos Pescadores e Pescadoras Artesanais (MPP), comemora a importância da mulher dentro do processo de construção da proposta da nova política nacional da pesca não só pela representação de seus anseios, mas também pela força da discussão pautada ao longo desse múltiplo debate. “Essa é a primeira etapa de uma jornada de construção de muitas mãos, de muitas pessoas e territórios. E a nossa participação feminina se reflete em todo esse caminho, que foi também de autoconhecimento para a mulher da pesca”.

“Tivemos, nesse processo de construção dessa minuta de lei, os maiores representantes da pesca artesanal em toda a diversidade do Brasil. Os resultados alcançados são inéditos porque refletem demandas estruturais importantíssimas mas que foram levantadas pelo próprio setor produtivo, com o apoio da Oceana. É um processo que indica a confiança, aprendizado e o amadurecimento das organizações”, avalia o diretor científico Martin Dias.

Pleito antigo

Essas iniciativas trazem um novo horizonte para a categoria num momento em que representantes pleiteiam melhorias para o segmento e ressaltam que além de favorecer a atividade, o investimento reforça o potencial da atividade no Amazonas.

“Quem vive da atividade sabe a importância dessas demandas e iniciativas para a nossa classe. É crucial que o governo e entidades tenham essa sensibilidade   de que o pescador artesanal de fato seja valorizado”, disse o pescador Raimundo Costa. 

O representante sindical do município de Manaquiri afirmou que é preciso pensar em estratégias de políticas públicas de valorização e não políticas assistenciais, em conjunto com várias entidades governamentais e empresas privadas para que abrace a  proposta de valorização dos povos das águas. 

Por dentro

A “Carta de Brasília”, construída por lideranças das quatro regiões costeiras do país, reivindica garantia dos territórios pesqueiros, participação social e valorização das mulheres na pesca.

Saiba mais

Nesse sentido, a garantia dos territórios pesqueiros foi uma das principais preocupações dos 150 participantes dessa construção coletiva que teve início em agosto de 2022, em Fortaleza (CE). Além da capital cearense, em um período de três meses, outras quatro cidades receberam oficinas: Belém, Salvador, Rio de Janeiro e Florianópolis.

Agora, a Oceana prossegue o processo de aprimoramento da minuta de lei com novas discussões com representantes da pesca industrial, cientistas e organizações não governamentais. Em dezembro de 2022, a instituição lançou o estudo “A Política Pesqueira no Brasil”, que compara o atual marco legal da pesca com a Constituição Federal, políticas ambientais e legislações de outros seis países.

Andréia Leite

é repórter do Jornal do Commercio
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