Dona Almerinda e seu Malaquias

Em: 11 de março de 2022
Ano passado a FAM (Fundação Almerinda Malaquias) completou 21 anos de existência, na cidade de Novo Airão, às margens do rio Negro, mas a sua história começou bem antes, há ao menos 40 anos

Fundação começou profissionalizando marceneiros e artesãos, mas hoje atua na educação ambiental e ecoturismo

Ano passado a FAM (Fundação Almerinda Malaquias) completou 21 anos de existência, na cidade de Novo Airão, às margens do rio Negro, mas a sua história começou bem antes, há ao menos 40 anos.

No início da década de 1980, Miguel Rocha da Silva era um guia turístico que viajava pelos rios do Amazonas a bordo de seu barco ‘Catuqui’, levando turistas para conhecer a região. Com visão empreendedora, ao observar que nas comunidades ribeirinhas havia muitos refugos de madeira, falava para os ribeirinhos entalhar pequenas réplicas do ‘Catuqui’ para vender ao turistas, o que eles fizeram e logo verificaram que dava para ganhar algum dinheiro com aquele trabalho artesanal.

Em 1991 o suíço Jean-Daniel Vallotton chegou ao Amazonas acompanhando um amigo etnólogo e, ao alugar o barco de Miguel Rocha, em 1992, para ir até Parintins, conheceu seu incipiente projeto cujas peças de artesanato em madeira não se resumiam mais a apenas réplicas do ‘Catuqui’, já havendo reproduções de animais amazônicos.

Como Jean-Daniel tinha formação técnica em marcenaria, logo se interessou pelo projeto de Miguel.

Em 1993, o suíço voltou para seu país, reuniu alguns amigos e criou a Ailleurs Aussi (em português, ‘Também em outros lugares’). Voltou a Novo Airão trazendo dois contêineres carregados com maquinário para ajudar no projeto de Miguel. Até hoje os contêineres estão expostos no terreno da FAM.

Em 1997, Jean-Daniel se radicou no Brasil e em 2000 criou a Fundação Almerinda Malaquias, homenagem aos pais de Miguel, dona Almerinda e seu Malaquias e, detalhe, ainda casou com Marta, filha de Miguel. Jean-Daniel e Miguel adquiriram um terreno na cidade e a marcenaria foi sendo montada à medida que os recursos da Suíça chegavam.

Jean e Ruy

“O objetivo da Fundação era criar um centro de educação e formação profissional na área da marcenaria, para a população de Novo Airão, reaproveitando as madeiras descartadas pelos vários estaleiros existentes na região. Esse descarte de madeiras nobres era, até então, queimado”, contou Ruy Carlos Tone, presidente do Conselho Curador da FAM.

Ruy Carlos é um empreendedor paulista que há mais de dez anos investe no turismo, em Novo Airão. Em 2004, Ruy fez as primeiras expedições pelo rio Negro, a bordo do barco Awape, pertencente à Expedição Katerre Ecoturismo, empresa da qual se tornou sócio nesse mesmo ano. Em 2013 ele inaugurou o restaurante flutuante Flor do Luar e, em 2014, o hotel ecológico Mirante do Gavião. Seu contato com Jean-Daniel aconteceu principalmente a partir de 2008 quando a crise econômica global ocorrida naquele ano fez com que os financiadores da FAM diminuíssem seus repasses e Jean passasse a pedir apoio das empresas de turismo que atuavam no município, entre elas a Expedição Katerre. Foi quando Ruy começou a se envolver com o projeto da FAM não só financiando as demandas emergenciais da Fundação, mas participando ativamente no conselho e gestão. Em 2015, o paulista assumiu a presidência do Conselho Curador da Fundação.   

“Desde 2014 eu idealizava criar uma ONG que reunisse o Flor do Luar e o Mirante do Gavião, mas a Fundação Almerinda Malaquias já estava pronta, precisando de apoio, e o Jean-Daniel passava por dificuldades financeiras para continuar a mantê-la. Em 2015 assumi a presidência do Conselho Curador, junto com o Jean, para entender a dinâmica da FAM, e assim foi até 2020, quando assumi sozinho”, contou.

Eixos de trabalho   

Hoje a FAM atende a três eixos de trabalho: geração de renda, através da capacitação de jovens e adultos para os ofícios de artesanato em marchetaria, reciclagem de papel e produção de sabonetes e velas (estes dois só para mulheres); educação ambiental, voltado a crianças e adolescentes nos estudos sobre o meio onde vivem e às alternativas econômicas para o desenvolvimento sustentável; e o ecoturismo, como ferramenta de educação ambiental e geração de empregos.

“Calculo que umas mil pessoas já se profissionalizaram em marcenaria e marchetaria, na Fundação. Atualmente, atendemos a 40 famílias nas oficinas e cerca de 200 crianças participam dos projetos educacionais. A Expedição Katerre Ecoturismo e o Mirante do Gavião Amazon Lodge são seus principais mantenedores”, revelou.

Uma loja, que antes funcionava na cidade e hoje ocupa uma área dentro do terreno da FAM, surgiu a partir de um projeto autônomo que criou a Associação de Produtores Nov’Arte. Os produtos dos artesãos estão à venda tanto na loja física quanto virtual (https://loja.fundacaoalmerindamalaquias.org/). Destaque para o sapinho que coaxa.

Agora Ruy trabalha no projeto ‘Educação Ribeirinha’ cujo objetivo é construir, ou reformar, escolas e casas de professores nas comunidades ribeirinhas.

A Fundação aceita parceiros, e mesmo doadores, que queiram ajudar na manutenção do projeto. Visitas virtuais no Face e Instagram: Fundação Almerinda Malaquias, e site: (http://fundacaoalmerindamalaquias.org/). Visitas presenciais podem ser agendadas pelo 9 9398-6331.

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Evaldo Ferreira

é repórter do Jornal do Commercio
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