Duas rodas, um caminho amazônico

Em: 28 de fevereiro de 2026
Com recordes de faturamento, emprego e investimento, o polo de duas rodas reafirma o vigor do PIM diante de crises e transições de mercado.
Polo de motocicletas de Manaus conta com mais de dez fabricantes.(Foto: IA/Nano Banana)
Polo de motocicletas de Manaus conta com mais de dez fabricantes.(Foto: IA/Nano Banana)

Motor do PIM, o polo de duas rodas reforçou trajetória de expansão em 2025, embalado nas mudanças de hábito do consumidor no período pós pandemia, e a despeito das crises. Os Indicadores de Desempenho do Polo Industrial de Manaus informam que o segmento faturou US$ 8.05 bilhões entre janeiro e dezembro do ano passado, com 20,25% de alta sobre 2024 (US$ 6.70 bilhões). Convertido em reais (R$ 44,82 bilhões), o incremento foi de 23,16%. Foi o melhor desempenho de vendas na série histórica da Suframa – iniciada em 1988 –, levando o subsetor a ocupar o segundo lugar no ranking de faturamento da indústria incentivada, com fatia de 19,69%. 

A base de dados da Suframa mostra ainda que o polo de duas rodas fechou 2025 com o mais elevado contingente de mão de obra dos últimos 37 anos, somando 20.917 trabalhadores, entre efetivos, temporários e terceirizados (ou 18,69% do total). Foi a segunda maior oferta de postos de trabalho do Distrito, ficando atrás apenas do somatório dos polos eletroeletrônico e de bens de informática (40.410). O investimento produtivo (US$ 1.30 bilhão) cresceu 8,33% ante 2024 e também foi recorde. Ainda assim, o ritmo de produção ainda não retomou os patamares alcançados em 2011. 

Números da Abraciclo confirmam que os dois segmentos que compõem motos e bicicletas giraram em velocidades diferentes, embora seja esperado avanço para ambos em 2026. O polo de motocicletas conta com mais de dez fabricantes, incluindo Honda, Yamaha, Harley Davidson, BMW e Triumph, entre outras marcas globais. Suas linhas de produção emendaram um quinto ano de alta, com 1.980.538 unidades e incremento de 13,3%. Foi a terceira melhor performance da série histórica da Associação Brasileira dos Fabricantes de Motocicletas, Ciclomotores, Motonetas, Bicicletas e Similares, iniciada em 2003.

A história foi diferente para os fabricantes de bicicletas do PIM – Caloi, Sense Bike, Oggi Bikes e Houston Bike, entre outros –, que respondem por 40% da oferta brasileira. O subsetor chegou ao auge em 2019 (919.900 unidades). Mas, desde 2022, amargou anos de quedas. Em 2025 (335.560), o tombo foi de 4,51%, embora a retração esperada fosse maior. Em paralelo, o perfil do mercado vem mudando com a escalada exponencial das bicicletas elétricas, em detrimento dos demais modelos. As projeções da Abraciclo, por outro lado, apontam crescimento para motocicletas e bicicletas em 2026.

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Alta mantida agora com menos força

A Abraciclo projeta altas menos robustas para a indústria de motocicletas em 2026. A expectativa é de incremento de 4,50% para a produção no parque industrial de Manaus, com 2.070.000 motocicletas entregues pelas montadoras ao mercado até o final de dezembro. Desde 2011, o PIM não supera a marca das 2 milhões de unidades anuais. A perspectiva para o varejo doméstico é que sejam emplacadas 2.300.000 motocicletas, configurando uma elevação de 4,60% na comparação com o resultado conseguido em 2025. As fabricantes esperam também manter as vendas externas no campo positivo pelo segundo ano seguido, ao avançar 4,4% nos embarques ao estrangeiro (43.117).

Durante a mais recente coletiva de imprensa da Abraciclo, ocorrida em janeiro, o presidente da Associação, Marcos Bento, disse que o mercado permaneceu com demanda constante em todas as regiões do país, em 2025. “Principalmente pelos atributos da motocicleta, de economia, mobilidade urbana, menor custo e destaque para o uso profissional. Tudo isso faz com que a indústria se preocupe continuamente com lançamentos de produtos mais modernos, versáteis e tecnológicos. Um destaque importante veio das vendas pela modalidade de consórcio, que representa mais de 30% de nosso volume”, analisou. 

O dirigente ressalvou que, apesar de promissor, 2026 também oferece desafios. “Estamos diariamente diante de conflitos internacionais, que afetam muito a logística mundial e trazem a possibilidade de ampliação de políticas protecionistas. No aspecto nacional, temos um cenário macroeconômico de Selic ainda alta, inflação e crescimento moderado do PIB. Esse ano é extremamente desafiador em termos de calendário, com muitos feriados, Copa do Mundo e eleições. A regulamentação da reforma Tributária continua em andamento e temos de ficar de olho em nossa logística, com monitoramento do nível dos rios”, listou.

 

 

Bicicletas em ano de recuperação

Já o polo de bicicletas se prepara para registrar seu primeiro ano de aumento de produção, desde 2021. A Abraciclo projeta uma subida de 4,30% na oferta do Polo Industrial de Manaus, de 335.560 (2024) para 350.000 (2025) unidades. “Tivemos uma variação real de 4,9% [+15.560] maior do que a projetada. Sentimos essa demanda um pouco maior só no quarto trimestre. Crescer em 2026 é desafiador, mas a gente acha viável, e esperamos chegar com notícias melhores em outubro”, resumiu o vice-presidente do Segmento de Bicicletas da entidade, Fernando Rocha, durante a coletiva de janeiro.

Mas, caso confirmado, o desempenho de 2026 ainda terá ficado abaixo do registro em 2024 (351.400), conforme a série histórica da Abraciclo. Mas, números mais recentes, relativos ao comparativo anual de janeiro (19.028) mostraram um tombo de 18,90%. “A comparação anual indica que o subsetor permanece atento ao comportamento do consumidor e confiante na evolução do mercado”, amenizou o vice-presidente do segmento de bicicletas da Abraciclo, em texto veiculado pela assessoria de imprensa da entidade.

Embora a categoria MTB/Moutain Bike (161.400) se mantenha majoritária sua participação no mercado caiu de 56,1% para 48,1%, refletindo queda de produção (-8%). Já as e-bikes (+8,5% e 46.900) lideraram o crescimento e elevaram seu share de 5,5% para 14,1%. “A tendência é o consumidor sair das bicicletas analógicas em favor das eletrificadas. A categoria começou com participação de 1,4%, em 2021, o que dá um crescimento anual de 144%, com 44 modelos disponibilizados pelas associadas”, ressaltou Rocha. “O usuário que pegava o transporte público começou a entender que talvez o produto seja mais eficiente. E o custo da parcela acaba saindo similar ao ticket de condução”, emendou.

 

 

Posição global de destaque

O polo de duas rodas da ZFM é o maior fora do eixo asiático. Com os investimentos mais recentes, a capacidade produtiva dos fabricantes instalados no parque industrial da capital amazonense subiu de 1,8 milhão para 2 milhões de motocicletas por ano, na comparação de 2025 com o exercício anterior. De acordo com entidade, as linhas de produção e de bicicletas do PIM contribuem também com números expressivos no país: mais de 150 mil empregos diretos; 7.800 concessionárias e 1.500 fornecedoras de componentes.

“O polo de duas rodas se destaca por seu elevado nível de regionalização e produtos direcionados para diversos públicos. As fabricantes atendem ao uso cotidiano do produto, mas também ao seu uso profissional e para lazer, além daqueles que preferem os veículos de duas rodas a outros tipos de transporte. E os preços relativos diante dos automóveis, além dos engarrafamentos, dão um privilégio maior aos equipamentos de duas rodas. Tanto que, na retomada do pós-pandemia, houve um crescimento vertiginoso e quase ininterrupto da produção de motocicletas, por exemplo”, arrematou o contador, professor da Ufam e consultor empresarial com foco na indústria incentivada, André Costa.

Marco Dassori

É repórter do Jornal do Commercio
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