Educação profissional

Em: 2 de março de 2018
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O termo educação profissional tem causado uma série de confusões compreensivas, especialmente dentre os profissionais que têm formação em educação. A razão disso é o desconhecimento tanto do seu sentido conceitual quanto operacional da palavra “educação”. E uma das saídas para a eliminação da ambiguidade do termo reside no conhecimento do vernáculo “profissional” e “profissão”. Ao dirimir essas dúvidas estaremos em condições de compreender por que a literatura científica lida com “ensino profissional” e “estudo profissional” e não propriamente com “educação profissional”. Assim, este artigo tem como objetivo definir o conceito Educação Profissional.

A educação profissional é o conjunto de conhecimento, habilidades e atitudes que um indivíduo precisa ter para que possa desempenhar a contento algum ofício específico. Isso quer dizer, por exemplo, que se alguém quiser ser advogado, precisa ter conhecimento sobre uma série de esquemas lógicos, saber manusear alguns desses esquemas lógicos e desempenhar determinadas atitudes. Da mesma forma, o professor, astrônomo, gari, mecânico e toda sorte de ofícios. Assim, o que diferencia uma profissão de outra é o que o profissional precisa saber, saber fazer e saber ser, que a literatura internacional e boa parte da nacional sobre formação profissional designa.

Operacionalmente, portanto, o conceito educação profissional abrange todos os tipos de ofícios. Melhor dizendo, todo tipo de preparação de indivíduos para o exercício de determinada profissão. E o termo “profissão” vem de professar, que significa reconhecer publicamente, declarar, jurar, de maneira que um mecânico, para ser profissional, precisa se declarar mecânico publicamente. Mas ele só o faz se tiver tido, antes, alguma preparação para tal, seja em forma de informações (aquisição de conhecimento) e da experiência (habilidade), mas que sejam essas informações e experiências ratificadas através das suas atitudes.

O que queremos mostrar é que o que chamamos “educação”, na verdade, é ensino. E isso é óbvio: conhecimentos, habilidades e atitudes podem ser ensinadas. Educação, não! As organizações escolares, de ensino, desde o jardim de infância até a universidade, podem ensinar conhecimentos, habilidades e atitudes para os indivíduos que compõem os seus públicos. Mas não podem e nem conseguem educar. O ensino adestra o indivíduo para saber coisas e manuseá-las; a educação lapida o espírito humano para a alteridade.

A educação só pode ser feita pela família e pelo Estado. A família é quem tem o resguardo legal de adotar determinadas posturas que visem à retidão do caráter, do espírito de seus membros. Se essa retidão de caráter não for alcançado pela família, e se as atitudes do membro familiar renegado ferir princípios da civilidade enquanto sujeito capaz, aí entra o Estado como ente educador, ainda que a retidão do caráter por ele pretendida signifique a restrição de liberdade. Diz-se, sabiamente, que a família educa pelo amor, e o Estado, muitas vezes pela dor. O ensino é volitivo: o indivíduo faz se quiser. A educação, não.

O ensino profissional, contudo, tem alguma conotação educativa. Se procurarmos com acuidade veremos que muitas vezes a aquisição profissional exige a mudança de caráter do aspirante a profissional. Alguém que queira ser militar, por exemplo, precisa ser disciplinado, ainda que o seu caráter seja de indisciplina, porque a disciplina é um dos fundamentos lógicos (conhecimentos) que precisa ser demonstrada diariamente (habilidades e atitudes) no exercício daquela profissão.

Por inferência, o curso que ensina meninos de rua a vender seus sucos de frutas congelados em sacos plásticos é ensino profissional, se explica aspectos lógicos, exercita habilidades e atitudes de vendedor, da mesma maneira que o curso universitário que forma o contador. E assim, por extensão, todo esquema de ensinamento que contribua ou leve diretamente à formação de algum ofício é ensino profissional, é educação profissional, para usar a forma utilizada em língua brasileira.

No Brasil, o ensino profissional ainda é extremamente reduzido, diferentemente de quase todos os países. Aqui, por exemplo, entrar para a universidade é obter uma profissão. Lá fora, não. Quer dizer, nem sempre. Fora alguns cursos da área de engenharia, por exemplo, nenhum curso universitário (undergraduate) dá qualquer profissão. Se alguém quiser, lá, ser administrador, médico ou psicólogo, terá que fazer pós-graduação stricto sensu. É isso mesmo: em inúmeros países as profissões são ensinos pós-graduados!

Vejam os casos de administração e medicina. Depois de terminar a faculdade, o indivíduo pode fazer um mestrado em administração de empresas (MBA) ou um doutorado em administração de empresas (DBA), se quiser exercer a profissão, da mesma forma que poderá fazer um doutorado em medicina (Medicine Doctor) para ser médico. Se quiser ser cientista, pesquisador de administração ou em medicina, terá que fazer o PhD (doutor em filosofia). Para ser administrador tem que ter MBA ou DBA; para ser médico, MD. Já pesquisador não é profissão!

A compreensão do fenômeno “educação profissional” exige muito mais conhecimento do que aquilo que normalmente é publicado em profusão por aí. Da mesma forma, é necessária muita cautela, principalmente porque quem mais tem publicado sobre o assunto parece desconhecer o conteúdo da literatura científica internacional. O que tem sido publicado, quase sempre, é apenas doxografia, opinião, ideias assistemáticas que passam ao largo das exigências científicas. Ainda que se continue usando o termo educação profissional ao invés de ensino profissional, que suas categorias de análise sejam explicitadas. Isso quer dizer que não se pode falar de educação profissional sem se ater aos conhecimentos, habilidades e atitudes que a compõem.

Daniel Nascimento

É Professor e Pesquisador do Instituto Federal do Amazonas (IFAM)
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