Em busca de empreendedores para investir em alimentos para peixes

Em: 25 de agosto de 2022
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Evaldo Ferreira: @evaldo.am

Fotos: Divulgação

Larvas de inseto para alimentar peixes. Essa é a pesquisa que a doutora em zootecnia, Ligia Gonçalves, do Inpa (Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia) está coordenando através do projeto ‘Proteína de inseto em rações: uma proposta sustentável para a piscicultura amazônica’. A pesquisa, que tem o apoio da Fapeam (Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado do Amazonas), visa mostrar o potencial nutricional e as vantagens econômicas do uso de larvas de inseto na composição de rações de peixes amazônicos, conforme a pesquisadora explicou ao Jornal do Commercio. 

Jornal do Commercio: Quais espécies de larvas a senhora utiliza nas suas pesquisas?

Ligia Gonçalves: As larvas de inseto utilizadas por nós são da espécie Hermetia illucens, mais conhecida como BSF (Black Soldier Fly), ou mosca soldado negro.

JC: Onde as consegue?

LG: Quando iniciamos os estudos, as larvas de BSF eram fornecidas pela empresa Natuprotein, de Manaus, vencedora do prêmio Benchimol e edital Sinapse da Fapeam, porém, com a pandemia, a empresa foi descontinuada. Hoje, produzimos larvas frescas no Inpa e utilizamos as matérias-primas industriais (farinha de BSF desengordurada e óleo de BSF), gentilmente doadas pela empresa Cyns, de Piracicaba/SP.

JC: Tambaquis e pirarucus, as espécies utilizadas na pesquisa, têm as larvas de insetos como parte de sua alimentação?

LG: Sim. Na natureza, várias espécies de peixes ingerem insetos como parte de suas dietas.

JC: Como a senhora concluiu que essas larvas poderiam ajudar na alimentação desses peixes?

LG: A criação de insetos já é uma realidade ao redor do mundo e, a utilização de larvas de BSF na nutrição aquícola é uma aposta promissora das grandes empresas de ração. Os estudos desenvolvidos pelo Inpa a partir dessas larvas apontam benefícios na criação de tambaqui para os diferentes atores desse setor: piscicultura familiar (verificamos que larvas frescas de BSF podem substituir 50% da ração comercial); piscicultura semi-intensiva (desenvolvemos processo para utilização da larva fresca em uma mistura de ingredientes que pode ser processada com equipamentos simples na própria piscicultura); fábrica de ração (desenvolvemos ração extrusada com farinha de larvas de BSF e ingrediente protéico).

JC: Onde essas larvas podem ser conseguidas em grande quantidade? Terão criatórios específicos?

LG: Sim, há empresas especializadas na produção de insetos. Inicialmente, as empresas eram mais voltadas para produção de insetos destinados a aves e animais exóticos. Hoje, os empreendimentos para produção de farinha de inseto se multiplicam ao redor do mundo. No Brasil, não é diferente, a empresa Cyns já fornece toneladas de farinha de BSF, BSF inteira seca e óleo de BSF, todos produtos registrados no MAPA. É importante ressaltar que os preços dessas matérias-primas ainda são considerados altos, porém, é esperado que com o aumento da oferta, haja uma diminuição no preço com o passar do tempo. O Amazonas possui condições propícias para a produção de insetos, pois a BSF é bem adaptada para a região. Assim, é uma grande oportunidade de negócios para empreendedores, tanto para reciclar resíduos orgânicos de cadeias produtivas, quanto utilizar as larvas para produção de ingrediente que possam ser utilizados em rações para animais.

JC: A ração será somente com larvas, ou elas serão um complemento à ração já consumida pelos peixes?

LG: É possível fornecer a larva íntegra, fresca ou seca, para tambaquis como substituição parcial da ração comercial. Essa é uma solução para a piscicultura familiar que pode criar as larvas com resíduos orgânicos de alimentos na sua própria propriedade. Já para as rações, a farinha de BSF entra como um ingrediente protéico na formulação, ou seja, para formatação dos péletes são necessários outros ingredientes como fonte de amido, por exemplo.

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JC: Como está a sua pesquisa?

LG: Para o tambaqui, verificamos desempenho de crescimento superior para os peixes alimentados com larvas de inseto na ração, tanto quando incluímos as larvas íntegras na mistura de ingredientes, quanto quando as rações foram formuladas com a farinha desengordurada de BSF. Quando as larvas de BSF foram fornecidas sem nenhum processo, ou seja, frescas, houve a possibilidade de reduzir em 50% a ração comercial. Os estudos com pirarucu ainda estão no início, mas no nosso primeiro ensaio, os peixes responderam muito bem a ingestão da ração formulada com BSF, tanto em relação à ingestão quanto ao crescimento.

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JC: O que precisa agora para as larvas saírem do laboratório e serem comercializadas?

LG: Em termos de Amazonas, seria muito interessante que houvesse investidores dispostos a financiar uma indústria de produção de insetos. As larvas de BSF são capazes de reciclar as toneladas de resíduos orgânicos que são descartados na indústria de frutos, nos mercados, feiras e até mesmo residências. Até o momento, as nossas pesquisas demonstram que o tambaqui digere e aproveita bem os nutrientes das larvas de BSF, sem prejuízo na saúde dos peixes e ainda, com melhorias sensoriais em sua carne. Não há dúvidas que a produção de insetos é uma alternativa sustentável para fornecimento de ingrediente proteico no estado do Amazonas.

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Evaldo Ferreira

é repórter do Jornal do Commercio
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