Em busca do ouro olímpico

Em: 28 de outubro de 2014
Indígena da tribo kaixana é atual campeã brasileira de Box olímpico feminino, categoria mosca (51 kg)
Indígena da tribo kaixana é atual campeã brasileira de Box olímpico feminino, categoria mosca (51 kg)

Nas Olimpíadas passadas, em Londres, em 2012, o boxe feminino fez sua estreia na competição. Três brasileiras estavam lá, competindo, e começaram bem: Érica Matos foi medalha de prata; Adriana Araújo, bronze; mais Roseli Feitosa. Em 2016, quando as Olimpíadas acontecerem no Brasil, no Rio de Janeiro, são grandes as possibilidades de uma amazonense também estar lá, integrando a equipe brasileira. Trata-se de Sandraerleia Garcia Ramos, 26 anos, indígena da tribo kaixana, localizada em Santo Antônio do Içá (a 880 km em linha reta de Manaus, no alto Solimões). Sandra está em São Paulo desde o dia 20, treinando para participar da edição anual dos Jogos Abertos, em São Vicente, que acontecem do dia 22 ao dia 27 de novembro.
A boxeadora é casada há oito anos com o também boxeador, e seu técnico, Cássio Ramos. Cássio já foi campeão brasileiro e sua categoria é a superpesado. Vendo a capacidade da esposa para o boxe, o lutador resolveu dedicar parte do seu tempo para o preparo de Sandra. “Há 18 anos ela reside em Manaus e desde que me conheceu, começou a praticar a luta. Em 2007 parou por falta de apoio, mas há quatro anos resolveu voltar e há dois anos passou a competir, se destacando e ganhando competições logo de início”, lembrou.
A rotina de treinos de Sandra é puxada e diária. São quatro horas por dia, seis vezes na semana, sendo duas horas de exercícios musculares e duas horas de boxe, na academia One Fitness, no bairro Dom Pedro.

Primeira amazonense
Sandra começou no boxe olímpico Feminino Elite na categoria até 48 kg (mosca ligeiro) e é a atual vice-campeã brasileira, feito conquistado por ela em junho passado durante o Campeonato Brasileiro de Boxe, realizado em Campo Grande, Mato Grosso do Sul. Agora ela está competindo na categoria até 51 kg (mosca). Nessa categoria ela detém o título de campeã conquistado na primeira edição da Copa Norte de Boxe, evento realizado em maio deste ano, no Centro de Convivência da Família Magdalena Arce Daou, em Manaus. “Como ela tem se saído melhor nessa segunda categoria, vamos continuar mantendo o seu peso aí”, explicou Cássio. Para ele, a atleta está em uma fase de aprimoramento e aperfeiçoamento das técnicas de luta. “Estamos treinando séries e sequências para que a Sandra não só ganhe as competições, como também possa fazer um bom combate, se possível, com finalização, o que valoriza o estágio em que o atleta atinge ao vencer um duelo antes do tempo estipulado pela organização do evento”, disse.
Atualmente em São Paulo, Sandra conta com o apoio da Prefeitura de Manaus por meio da Semjel (Secretaria Municipal de Juventude, Esporte e Lazer), que lhe custeia as passagens para as disputas fora da cidade. Na capital paulista a atleta tem toda uma infraestrutura de apoio para permanecer treinando até a disputa dos Jogos Abertos, em novembro, além de receber o Bolsa Atleta, um programa do governo federal que custeia atletas de alto rendimento, visando as próximas Olimpíadas. “Depois do Campeonato Brasileiro, os Jogos Abertos são a competição mais importante para a carreira de um atleta”, acrescentou Cássio. “Sandra é a primeira amazonense a ocupar o topo do ranking da CBBoxe (Confederação Brasileira de Boxe) e estamos confiantes de que ela possa defender nosso país durante os Jogos Olímpicos de 2016”, comemorou Elvys Damasceno, secretário da Semjel.
“Estou participando dessas competições e aproveitando o máximo possível, pois elas servem como preparação para uma eventual disputa de vaga na CBBoxe”, concluiu Sandra.
Em São Paulo ela busca o resultado tanto por meio da classificação geral no ranking quanto por meio do Campeonato das Estrelas, que selecionará as melhores atletas para participar das Olimpíadas no Rio de Janeiro.

Por dentro

Um povo perseguido

Os kaixana, antigos habitantes da extensa área de terra firme que vai do rio Tonantins até o igarapé Coperçu, hoje vivem no médio curso do rio Japurá. Documentos do início do século 18 já faziam menções a ações violentas contra essa população que culminaram em deslocamentos forçados e mortes. Foi, no entanto, nas décadas de 1940 e 1950 que a entrada de não-índios no território kaixana se intensificou, particularmente devido à exploração da borracha. Novas ondas migratórias ocorreram, mas, dessa vez, em direção a áreas pouco privilegiadas pelos seringalistas: a várzea e o interior da mata. Os kaixana que fugiram da terra firme passaram a viver junto com os kokama, sobretudo, nas comunidades de Jacapari e Bararuá, situadas em áreas de várzea. A crise da borracha fez com que muitos não-índios abandonassem as atividades na região, possibilitando o retorno dos kaixana a algumas áreas de ocupação tradicional, entretanto, ameaças à integridade do ambiente e à qualidade de vida dos índios continuam a ocorrer, especialmente por conta de atividades ilegais de garimpo e pesca predatória na área.

Redação

Jornal mais tradicional do Estado do Amazonas, em atividade desde 1904 de forma contínua.
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