A despeito da alta na geração de empregos formais, a demanda por seguro-desemprego no Amazonas emendou um segundo mês de alta, no mês passado. A quantidade de solicitações subiu 3,20%, entre janeiro (6.308) e fevereiro (6.510). Ficou 6,38% aquém do patamar do mesmo mês do ano passado (6.961) –período ainda impactado pela segunda onda –, sendo o maior número em 12 meses. Com isso, o Estado acumulou 12.818 requisições no bimestre, 28,05% a mais do que o registrado nos dois meses iniciais de 2021 (10.010). Os números são do Ministério do Trabalho e Previdência.
A nova alta veio em um mês em que as admissões (+18.798) superaram os desligamentos (-15.581), conforme o “Novo Caged”, da mesma fonte. O saldo foi de 3.217 postos de trabalho celetistas, com alta de 0,72% sobre o estoque anterior. Todas as atividades econômicas avançaram e o bimestre também ficou no azul (+0,92% e +3.887 vagas). Economistas ouvidos pela reportagem do Jornal do Commercio concordam que o cruzamento das estatísticas indica maior rotatividade no mercado de trabalho, mas se dividem quanto aos pesos da conjuntura econômica desfavorável e da sazonalidade negativa.
A procura local pelo seguro-desemprego foi mais forte na primeira quinzena (3.627) do que na segunda (2.883), o que pode sinalizar uma desaceleração neste mês. A maioria das requisições de seguro-desemprego apresentadas no mês passado vinha de amazonenses do sexo masculino (64,56% do total e 4.203 registros), com 30 a 39 anos de idade (34,53% e 2.248), contando com ensino médio completo (74,73% e 4.865) e que ganhavam um salário mínimo e meio (40,21% e 2.618). Em síntese, é isso o que apontam os mais recentes dados do Ministério do Trabalho.
O montante total pago no Amazonas superou os R$ 18,69 bilhões e o valor médio das parcelas foi de R$ 1.488,35. Campeão absoluto na geração de vagas, o setor de serviços respondeu por 33,33% (2.170) da demanda por seguro desemprego no mês passado. Indústria (1.956) e comércio (1.765) vieram na sequência, respondendo por 30,05% e 27,11% das requisições, e acompanhando as mesmas posições no ranking amazonense dos dados do “Novo Caged”. Construção (7,99% e 520) e agropecuária completam a lista (1,52% e 99).
A performance do Estado acompanhou a tendência da média brasileira, mas novamente com desempenhos mais acentuados. O Brasil registrou 550.270 solicitações de seguro-desemprego, em fevereiro, tendo sofrido alta de 3,86% ante janeiro (529.828) e elevação de 13,18% em relação ao valor de 12 meses atrás (486.154). No acumulado do ano, o incremento foi de 11,79%, com 1.080.098 (2022) contra 966.187 (2021) pedidos.
Pandemia e sazonalidade
A conselheira do Corecon-AM (Conselho Regional de Economia do Estado do Amazonas), ex-vice-presidente da entidade, e professora universitária, Michele Lins Aracaty e Silva, concorda que o aumento na rotatividade de trabalho é uma realidade que deve ser levada em consideração, diante do confronto de ambas as estatísticas, mas lembra que a tendência costuma ser forte especialmente nos primeiros meses do ano.
A economista reforça que os números do Amazonas acompanham a movimentação e a tendência nacional do período e avalia que os números refletem também uma combinação da desaceleração da economia, que teve seu início no quarto trimestre de 2021. No entendimento da docente, a junção dos surtos da ômicron e da influenza impactou principalmente o setor de serviços, que constitui o maior empregador, e influenciou as decisões de curto prazo nas empresas.
“Sabemos também que novembro e dezembro são meses de contratação de mão de obra para as festividades de Natal e ano novo e tendem a apresentar queda nos primeiros meses do ano seguinte. É a sazonalidade natural da dinâmica econômica. Acreditamos que os meses seguintes possam refletir uma realidade mais favorável para o mercado de trabalho, como consequência do avanço da vacinação, do fim da obrigatoriedade do uso de máscaras, e do aquecimento no setor de serviços”, analisou.
“Efeito cascata”
Já o professor universitário, consultor empresarial e conselheiro do Corecon-AM, Leonardo Marcelo Braule Pinto, avalia que os números de ambos os indicadores apontam para um “sintoma muito grande” de aumento no turn over do mercado, decorrente do descasamento entre os perfis da oferta e da procura. “Temos abertura de vagas formais, mas há cada vez mais exigências para preenchê-las. Há uma demanda por pessoas mais qualificadas, que o mercado não consegue encontrar. Por outro lado, temos pessoas desempregadas e ocupações que não compactuam com a formação e competência técnica dessas pessoas”, comentou.
O economista reforça que a economia brasileira em geral, e a amazonense em particular, sofre um “efeito cascata negativo”, através de aumentos de inflação e de juros, o que demandaria maior participação do Estado na indução do crescimento. “Temos mais empresas fechando e as pessoas estão ficando sem seus empregos. E esses funcionários estão buscando mais seguro-desemprego. Esse é um reflexo das péssimas políticas macroeconômicas que estamos adotando”, desabafou.
Custo e planejamento
Na mesma linha, o consultor empresarial, professor universitário, e também conselheiro do Corecon-AM, Francisco de Assis Mourão Júnior, diz que a alta do seguro-desemprego e do turnover é previsível em um panorama de inflação e juros altos, e de seus efeitos no consumo, venda e produção. O economista lembra ainda que o motor da economia do Estado é a ZFM e que esta é dependente do andamento do PIB nacional, e está sendo desfavorecida pelo corte linear do IPI por decreto federal.
“O aumento das entradas e saídas de colaboradores das empresas também é efeito de outras variáveis macroeconômicas, como o câmbio, que favorece a compra de insumos e a produção do PIM, assim como um ambiente de novas vagas. Por outro lado, as próprias empresas estão buscando trabalhar com contratos temporários de trabalho, buscando dessa forma controlar o custo variável e, ao mesmo tempo, trabalhar com planejamento. Principalmente na conjuntura em que estamos, que inclui pandemia, guerra e a crise aberta pelo decreto do IPI”, arrematou.







