Encontro da Ufam aproxima teoria econômica do cotidiano e amplia debate sobre desenvolvimento, bem-estar, meio ambiente e participação feminina

Em: 23 de junho de 2026
(Foto: Divulgação)

Qual a relação da felicidade com a economia? Por que o trabalho doméstico realizado por milhões de mulheres raramente aparece nos indicadores oficiais? Quanto custa para a sociedade um igarapé poluído ou uma floresta derrubada? Perguntas como essas nortearam o Encontro de Economia da Universidade Federal do Amazonas (Ufam), realizado na última semana, em Manaus, reunindo professores, pesquisadores e estudantes em torno de um objetivo comum: aproximar a teoria econômica da realidade vivida pela população.

Coordenado pela professora doutora Rosana Zau Mafra e pela acadêmica Alana Giovana Souza dos Santos, presidente da Empresa Júnior Maximus, o encontro foi estruturado para apresentar conceitos tradicionalmente discutidos no ambiente universitário a partir de situações concretas do cotidiano. A programação abordou temas que vão da participação das mulheres na história do pensamento econômico aos impactos ambientais do desmatamento ilegal, passando pela relação entre inteligência artificial, desenvolvimento e bem-estar social.

Segundo a coordenação, a proposta foi contextualizar a teoria econômica, demonstrando como diferentes correntes de pensamento ajudam a interpretar fenômenos presentes na vida das pessoas e nos desafios enfrentados pela Amazônia. A iniciativa também buscou aproximar o conhecimento produzido na universidade de públicos não especializados, tornando os conceitos acadêmicos mais acessíveis.

Uma das discussões que despertou maior interesse foi a apresentada pelo economista Jefferson Praia, que tratou da chamada Felicidade Interna Bruta (FIB), indicador criado no Butão para complementar os parâmetros tradicionais de avaliação do desenvolvimento. O conceito parte da premissa de que crescimento econômico e qualidade de vida não são sinônimos.

“Uma sociedade pode crescer economicamente e ainda apresentar problemas sociais graves”, afirmou Jefferson Praia durante sua palestra.

A discussão parte de uma limitação reconhecida dos indicadores econômicos convencionais. O Produto Interno Bruto (PIB), principal referência utilizada para medir a atividade econômica de países, estados e municípios, registra a produção de bens e serviços, mas não consegue captar aspectos como saúde mental, qualidade das relações sociais, confiança institucional, preservação ambiental ou participação comunitária.

A proposta da Felicidade Interna Bruta é ampliar esse campo de observação. O modelo desenvolvido pelo Butão considera nove dimensões para avaliar o desenvolvimento humano, entre elas saúde, educação, cultura, governança, meio ambiente, uso do tempo e bem-estar psicológico. A lógica não é substituir o PIB, mas complementá-lo.

Jefferson Praia apresentou resultados de um estudo desenvolvido em parceria com outros pesquisadores sobre a aplicação desse conceito em pequenas comunidades amazônicas. A pesquisa analisa de que forma elementos frequentemente ausentes das estatísticas econômicas tradicionais influenciam diretamente a qualidade de vida da população.

A reflexão ganhou relevância especial ao ser aplicada à realidade amazônica. Em regiões onde a vida econômica está profundamente conectada aos rios, à floresta e às relações comunitárias, parte significativa da riqueza social e ambiental permanece invisível nos indicadores convencionais.

“A floresta deve ser vista como base do desenvolvimento, não como obstáculo”, afirmou o economista.

Outro eixo do encontro foi a discussão sobre a participação feminina na construção do pensamento econômico, conduzida pela acadêmica Walessa Rayze Almeida, também assistente de Projetos no Idesam. A programação do primeiro dia buscou evidenciar contribuições frequentemente pouco conhecidas fora do ambiente acadêmico, além de discutir o conceito de Economia do Cuidado, campo que analisa atividades essenciais para a reprodução da vida social, como o cuidado de crianças, idosos e pessoas dependentes.

Embora essas atividades sustentem o funcionamento das famílias e da própria economia, grande parte desse trabalho permanece sem remuneração e fora dos cálculos tradicionais de riqueza. O debate apresentou evidências de como essa invisibilidade afeta a formulação de políticas públicas e a compreensão sobre o funcionamento real das economias contemporâneas.

Nesse contexto, também foi discutido o legado da economista Maria da Conceição Tavares, uma das principais referências do pensamento desenvolvimentista brasileiro. Sua trajetória foi utilizada pela economista Lenice Ypiranga Benevides como exemplo da contribuição feminina para a formação da economia nacional e para a formulação de políticas voltadas ao desenvolvimento.

A programação avançou ainda para temas ligados à inovação tecnológica. Uma das oficinas abordou as relações entre inteligência artificial e economia a partir das contribuições do economista austríaco Friedrich Hayek. A discussão procurou compreender até que ponto sistemas automatizados conseguem processar informações complexas produzidas pela sociedade e quais são os limites dessa capacidade diante da dinâmica econômica real.

No encerramento, o foco voltou-se para a Amazônia. Dados apresentados durante o evento mostraram que atividades econômicas associadas ao desmatamento ilegal produzem retornos financeiros muito inferiores ao valor gerado pela manutenção da floresta em pé. O tema reforçou uma das mensagens centrais discutidas ao longo dos três dias: a necessidade de instrumentos capazes de medir dimensões do desenvolvimento que permanecem ausentes das estatísticas tradicionais.

A proposta que atravessou toda a programação foi justamente ampliar o alcance da economia para além dos especialistas. Ao conectar conceitos acadêmicos a questões como qualidade de vida, preservação ambiental, tecnologia, desigualdade de gênero e desenvolvimento regional, o encontro buscou demonstrar que decisões econômicas influenciam diretamente a rotina das pessoas, mesmo quando esse impacto não aparece de forma imediata nos indicadores mais conhecidos.

COORDENADA
Quando a economia sai da sala de aula

A economia costuma ser associada a gráficos, índices e debates técnicos restritos a especialistas. O Encontro de Economia da Ufam partiu de uma lógica diferente: transformar conceitos acadêmicos em ferramentas para compreender situações presentes no cotidiano da população.

A programação incluiu uma oficina voltada ao ensino de economia para não economistas, além de palestras que relacionaram temas como felicidade, meio ambiente, inteligência artificial e trabalho de cuidado às teorias econômicas desenvolvidas ao longo dos últimos séculos.

Segundo a organização, a iniciativa procurou mostrar que a economia está presente em decisões diárias que envolvem consumo, trabalho, transporte, educação, saúde e qualidade de vida. A proposta foi utilizar problemas concretos da realidade amazônica para ilustrar conceitos frequentemente tratados apenas no ambiente universitário.

BOX
Programação do Encontro de Economia da UFAM
Dia 1
— A HERstory of Economics: a participação de mulheres na construção do pensamento econômico –
Walessa Rayze Almeida de Matos
— Maria da Conceição Tavares: vida, obra e pensamento econômico brasileiro –
Lenice Ypiranga Benevides de Araújo Viera e Sá
— Mini-oficina: O PIB ignora as mulheres: o preço do cuidado

Dia 2
— Felicidade Interna Bruta: abordagens, atributos e implicações para as pequenas comunidades amazônicas — Jefferson Praia
— Mini-oficina: A Fantasmagoria do Algoritmo: Hayek, Inteligência Artificial e o fim do conhecimento disperso
— Mini-oficina: Instituições importam? Evidências a partir da história do Brasil

Dia 3
— O individualismo metodológico e sua contribuição para o estudo da inovação
Ageu Costa de Oliveira dos Santos
— Mini-oficina: Ensinando Economia para Não Economistas: lições com Frederic Bastiat
— Pequenos Ganhos, Grandes Riscos: PIB do desmatamento ilegal na Amazônia brasileira

Fred Novaes

É jornalista
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