A quantidade de endividados em Manaus sofreu repique na virada do ano. Em paralelo, os grupos de inadimplentes e insolventes também engrossaram. Os números locais da Peic (Pesquisa de Endividamento e Inadimplência do Consumidor) da CNC (Conferência Nacional do Comércio de Bens, Serviços e Turismo) revelam que 616.956 famílias, ou 87,2% do total, estavam com contas a vencer em janeiro. O escore superou a dezembro (86,6% do total ou 611.278) e janeiro (81,6% ou 567.897) de 2025. Em média, o manauara compromete 34,1% da renda com dívidas e vai levar 28 semanas para pagar tudo.
O número de famílias com contas atrasadas também subiu entre dezembro de 2025 (47,4% ou 334.490) e janeiro de 2026 (48,9% ou 345.441), além de superar o registro de um ano atrás (41,4% ou 288.188). Quem está nessa situação, já deve há 65 dias, em média. A proporção de famílias já sem condições de pagar (18,1% e 115.589) também sofreu aceleração frente a dezembro, mas ficou menor do que a de janeiro do exercício anterior. O cartão de crédito (73,9%) ainda é o vilão preferencial do endividamento, tanto entre os mais abastados, quanto entre os mais pobres. Na segunda posição, os carnês (54,6%) ainda têm mais vítimas entre pessoas de menor poder aquisitivo.
Assim como no levantamento anterior, a média nacional trilhou caminho semelhante à verificada na cidade. Na virada de dezembro (78,9%) para janeiro (79,5%), o endividamento dos brasileiros quebrou uma sequência de duas baixas, para voltar a expandir. Além disso, continuou superando o dado de 12 meses atrás (76,1%). De acordo com a Confederação Nacional de Comércio de Bens, Serviços e Turismo, o número voltou a atingir recorde da série histórica, iniciada em 2010. O grupo de famílias negativadas (29,3%), por outro lado, subiu apenas no comparativo anual, em sentido contrário ao verificado entre aqueles que não tem mais condições de pagamento (12,7%)
A dinâmica da Peic em Manaus ocorreu em paralelo com a renovação da confiança do consumidor. Medido pela mesma CNC, o índice de ICF (Intenção de Consumo das Famílias) mostra que, a despeito da sazonalidade negativa, o manauara está mais seguro com o emprego, vê menos dificuldade no crédito, e ficou mais propenso a adquirir bens duráveis, embora esteja menos satisfeito com a renda. Já o Icec (Índice de Confiança do Empresário do Comércio), que é apurado pela mesma entidade, mostrou uma escalada no otimismo dos comerciantes. A melhora veio principalmente da percepção sobre as condições atuais da economia, do comércio e da própria empresa, com maior intenção de contratar e investir, a despeito de um esfriamento nas expectativas.
Cartões e carnês
Com a progressão dos juros bancários em patamar proibitivo, o cartão de crédito reduziu sua participação no bolo das dívidas, mas segue consolidado como motor do endividamento na cidade. Respondeu por 73,9% das dívidas locais – contra os 76,3% de dezembro – e seu uso foi praticamente igual entre as famílias de maior e menor renda. Conforme o levantamento mais recente da Anefac (Associação Nacional de Executivos de Finanças, Administração e Contabilidade), referente a janeiro, esse ainda é o meio de financiamento mais caro do país, com juros mensais de 15,22% (o equivalente a 447,44% por ano).
Os carnês (54,6%) elevaram sua fatia e seguiram preponderantes entre os que recebem menos, até porque os juros do comércio (5,44% ao mês e 88,83% ao ano) são menos elevados. Os demais meios de pagamento listados são crédito pessoal (21,5%), crédito consignado (11,7%), financiamento de carro (9,2%), “outras dívidas” (8,5%) e financiamento de casa (2,1%). Dono da segunda maior taxa de juros do país, o cheque especial (7,92% no mês e 149,59% no ano) respondeu por 2,3% do total. Invenção brasileira, e de uso restrito aos mais pobres, o cheque pré-datado não pontuou neste mês.
A parcela de consumidores de Manaus que se dizem “muito endividados” aumentou de 18,4% para 19,3%, na comparação com dezembro, sendo essa uma condição mais comum nos grupos de consumidores de menor renda (20,1%). Em contrapartida, a fatia dos “mais ou menos endividados” (28%) foi levemente reduzida e se mostrou predominante entre as famílias que ganham mais de dez salários mínimos mensais (30,5%). Já o grupo dos “pouco endividados” (40%) também ganhou substância e continua um pouco maior entre as famílias de menor poder aquisitivo (40,2%).
Os endividados de Manaus devem levar uma média de 28 semanas para quitar compromissos, proporção um pouco inferior à dos três levantamentos precedentes (29). O grupo de consumidores com mais de um ano de pendências (28,3%) encolheu e já foi superado pela parcela das famílias com até três meses de compromissos programados (29,2%). Em média, os manauaras têm 34,1% de sua renda comprometida por dívidas. Em torno de 36,7% gastam mais da metade do que ganham, mas a maioria (44,4%) emprega de 11% a 50% de seus vencimentos para esse fim.
O percentual de endividados em Manaus que já estão inadimplentes subiu de 54,7% para 56% na variação mensal. Uma proporção minoritária e crescente garante que conseguirá quitar o compromisso integralmente no próximo mês (17,5%). Há menos consumidores que estimam que vão pagar parcialmente (45,1%), mas o grupo que diz que vai continuar devendo (37%) cresceu. Em média, as dívidas relatadas estão atrasadas há 65 dias, sendo que as famílias manauaras que estão ‘penduradas’ há mais de 90 dias (49,2%) ainda são predominantes e engrossaram as fileiras em relação a dezembro (47,5%).
Expectativa na Selic
Em comunicado à imprensa, o presidente do Sistema CNC-Sesc-Senac, José Roberto Tadros, avalia que o retorno ao recorde do endividamento na Peic nacional motiva cautela. “É uma variável da economia que está estreitamente relacionada à taxa de juros cobrada no Brasil, uma das maiores do mundo”, afirmou. “É fundamental priorizar o equilíbrio das contas públicas para que a política monetária possa ser flexibilizada, aliviando a carga sobre consumidores e empresas”, emendou.
A CNC projeta que o endividamento continuará avançando no primeiro semestre, como recurso para manutenção do padrão de consumo. Mas acrescenta que a tendência é que a inadimplência siga em queda, impulsionada pela esperança de redução da Selic. “Nossa expectativa é de alívio no aperto monetário, a partir da próxima reunião do Copom. Essa percepção, unânime entre os analistas, tende a distensionar os juros aos consumidores já no segundo trimestre deste ano”, disse o economista-chefe da CNC, Fabio Bentes.
Já o economista da Fecomercio-AM, Max Cohen, disse à reportagem que os números de Manaus ainda revelam “um ambiente financeiro das famílias mais pressionado, com endividamento e inadimplência em trajetória de alta, tanto na comparação mensal quanto anual”. “Para os empresários, o cenário sugere crescimento do consumo no curto prazo mais dependente de crédito, porém com risco crescente de inadimplência, exigindo maior rigor em políticas de concessão de crédito, monitoramento de recebíveis e foco em estratégias comerciais que privilegiem giro, liquidez e ticket médio ajustado à capacidade financeira do consumidor manauara”, finalizou.







