Endividamento bate recorde

Em: 24 de março de 2026
Número de famílias endividadas em Manaus alcança maior nível da série histórica, com avanço da inadimplência.
" Cartão de crédito lidera dívidas das famílias manauaras." Crédito: Acervo JC
" Cartão de crédito lidera dívidas das famílias manauaras." Crédito: Acervo JC

A quantidade de endividados em Manaus voltou a crescer em fevereiro, e atingiu o pico da série histórica da CNC (Conferência Nacional do Comércio de Bens, Serviços e Turismo), iniciada em janeiro de 2010. Também há mais consumidores inadimplentes e insolventes. Os números locais da Peic (Pesquisa de Endividamento e Inadimplência do Consumidor) revelam que 623.810 famílias, ou 88,2% do total, estavam com contas a vencer, superando as marcas de janeiro (87,2% do total ou 616.956) e de um ano atrás (83,3% ou 580.338). Ainda assim, o nível de comprometimento de renda do manauara com dívidas (33,6%) e o tempo médio para pagar tudo (27 semanas) recuaram.

Ao menos 50% das famílias locais já estavam com as contas atrasadas em fevereiro (353.990), superando as marcas de janeiro de 2026 (48,9% ou 345.441) e de fevereiro de 2025 (42% ou 292.740). Quem está nessa situação, já deve há 65 dias, em média. A proporção de famílias já sem condições de pagar (18,5% e 130.603) também sofreu aceleração nas duas comparações. O cartão de crédito (71,2%) ainda é o vilão preferencial do endividamento na cidade, principalmente entre os mais abastados (77,6%). Na segunda posição, os carnês (52,3%) ainda têm mais vítimas na fatia majoritária de habitantes com menor poder aquisitivo (53,4%).

Assim como no levantamento anterior, a cidade acompanhou a média brasileira do setor. O endividamento dos brasileiros cresceu pelo segundo mês seguido na passagem de janeiro (79,5%) para fevereiro (80,2%). Também superou o dado de 12 meses atrás (76,4%). De acordo com a Confederação Nacional de Comércio de Bens, Serviços e Turismo, o número renovou o recorde da série histórica da Peic nacional. O grupo de famílias negativadas (29,6%) também subiu em ambas as comparações, embora a proporção de brasileiros sem condições de pagamento (12,6%) tenha estabilizado na base mensal.

A dinâmica da Peic em Manaus ocorreu em paralelo com o arrefecimento da confiança do consumidor. Medido pela mesma CNC, o índice de ICF (Intenção de Consumo das Famílias) aponta que o manauara está menos seguro com o emprego, enxerga mais dificuldade no crédito e está menos satisfeito com a renda. Apurado pela mesma entidade, o Icec (Índice de Confiança do Empresário do Comércio) mostra melhora no humor dos lojistas, lastreada pelo progresso na percepção sobre as condições atuais da economia, do comércio e da própria empresa, refletindo em maior intenção de investir – mas não de contratar.

 

Cartões e carnês

Com a progressão das taxas de juros bancários em patamar proibitivo, o cartão de crédito voltou a reduzir sua participação no bolo das dívidas, mas continua consolidado como motor do endividamento em Manaus. Respondeu por 71,2% das dívidas locais – contra os 73,9% de janeiro – e a pressão vem principalmente no foco das famílias de maior (77,6%). Conforme o levantamento mais recente da Anefac (Associação Nacional de Executivos de Finanças, Administração e Contabilidade), referente a fevereiro, esse ainda é o meio de financiamento mais caro do país, com juros mensais de 15,22% (o equivalente a 447,44% por ano).

Os carnês (52,3%) elevaram sua fatia e seguiram preponderantes entre os que recebem menos (53,4%), até porque os juros do comércio (5,45% ao mês e 89,04% ao ano) são menos elevados. Os demais meios de pagamento listados são crédito pessoal (21,9%), crédito consignado (12,7%), financiamento de carro (9,7%), “outras dívidas” (8,9%) e financiamento de casa (2,2%). Dono da segunda maior taxa de juros do país, o cheque especial (7,96% no mês e 150,70% no ano) elevou sua fatia para 3%. Invenção brasileira, e de uso restrito aos mais pobres, o cheque pré-datado não passou de 0,2% do total.

Apesar da alta do endividamento médio, a parcela de consumidores de Manaus que se dizem “muito endividados” encolheu de 19,3% para 18,8%, diante de janeiro, sendo essa uma condição mais comum nos grupos de consumidores de menor renda (20%). A fatia dos “mais ou menos endividados” (24,9%) também foi reduzida, mas se mostrou predominante entre as famílias que ganham mais de dez salários mínimos mensais (34,1%). Já o grupo dos “pouco endividados” (44,5%) ganhou substância e continua um pouco maior entre as famílias de menor poder aquisitivo (44,8%). 

Os endividados de Manaus devem levar uma média de 27 semanas para quitar compromissos, proporção um pouco inferior à do mês anterior (28). O grupo de consumidores com mais de um ano de pendências (25,4%) voltou a encolher, em sentido contrário ao verificado na majoritária parcela das famílias com até três meses de compromissos programados (31,5%). Em média, os manauaras têm 33,6% de sua renda comprometida por dívidas. Em torno de 35,9% gastam mais da metade do que ganham, mas a maioria (42,9%) emprega de 11% a 50% de seus vencimentos para esse fim.

O percentual das famílias endividadas em Manaus que já estão inadimplentes foi ampliado de 56% para 56,7%, na variação mensal. Uma proporção minoritária, mas crescente, garante que conseguirá quitar o compromisso integralmente no próximo mês (17,6%). Há menos consumidores que estimam que vão pagar parcialmente (44,9%), mas o grupo que diz que vai continuar devendo (36,9%) estabilizou. Em média, as dívidas relatadas estão atrasadas há 65 dias, sendo que as famílias manauaras que estão ‘penduradas’ há mais de 90 dias (49,3%) ainda são predominantes, embora tenham estagnado.

 

“Patamar crítico”

Em comunicado à imprensa, a CNC observa que a piora no endividamento veio acompanhada de retomada da inadimplência que interrompeu três meses de queda. “O endividamento atingiu patamar crítico e inédito, asfixiado pela manutenção da taxa Selic em níveis elevados desde 2025. Embora o crédito seja motor essencial para o consumo, o custo do dinheiro permanece proibitivo, criando um ciclo perigoso em que o aumento das dívidas é potencializado por juros altos que dificultam a amortização. Sem alívio consistente nos juros, a capacidade das famílias de limpar seus cadastros fica seriamente comprometida”, lamentou o presidente da entidade, José Roberto Tadros.

O economista da Fecomercio-AM, Max Cohen, disse à reportagem que a Peic de fevereiro confirma um ambiente financeiro mais pressionado para as famílias locais. “Há aumento contínuo de endividamento, inadimplência e incapacidade de pagar. O cenário sugere que o consumo no curto prazo segue sustentado por crédito, mas com risco crescente de restrição futura e elevação no nível de negativados. Para os empresários, recomenda-se maior rigor nas compras financiadas, fortalecimento de políticas de cobrança e renegociação, foco em giro e liquidez, além de estratégias comerciais ajustadas à capacidade real de pagamento do consumidor manauara”, concluiu.

Marco Dassori

É repórter do Jornal do Commercio
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