Endividamento das famílias de Manaus diminui, mas inadimplência bate recorde

Em: 6 de fevereiro de 2024
Inadimplência é maior no setor de comércio na Região Norte

O nível de endividamento do consumidor de Manaus voltou a avançar em janeiro, mas ainda está abaixo da marca de 12 meses atrás. A lista de inadimplentes, por outro lado, registrou sua quinta alta seguida e bateu recorde. Ao menos 80,3% (529.820) das famílias estão com contas a vencer. O número é superior ao de dezembro de 2023 (80,3% ou 529.820), mas inferior ao de janeiro do mesmo ano (85,2% ou 555.286). A situação piorou para a fatia com renda abaixo de dez salários mínimos, mas a predominância de dívidas com cartão de crédito e carnês é maior entre os que ganham mais.

A parcela de famílias com contas atrasadas cresceu para 50,7% (334.743) –contra 48% em dezembro (316.962), e 45,4% no mesmo mês de 2023 (296.112). A proporção de consumidores sem condições de pagamento também subiu e chegou a 18,9% (125.113). A inadimplência avançou nas duas faixas de renda, mas é maior no grupo dos mais pobres. É o que revelam os dados locais da Peic (Pesquisa de Endividamento e Inadimplência do Consumidor), da CNC (Confederação Nacional do Comércio de Bens, Serviços e Turismo). 

A situação também piorou na média nacional do indicador. O percentual de famílias brasileiras com dívidas a vencer em meios de pagamentos diversos subiu de 77,6% para 78,1%, na variação mensal, praticamente igualando a marca de 12 meses atrás (78%). Ao contrário do ocorrido em Manaus, o percentual de inadimplentes (28,3%) caiu em ambas as comparações. A parcela de consumidores sem fôlego para as contas (12%) também desacelerou ante dezembro, mas continua superior do que um ano atrás.

Os dados da Peic contrastam com a evolução de outros indicadores da CNC, para Manaus. A ICF (Intenção de Consumo das da Famílias) teve sua 19ª alta consecutiva, com novas melhoras na percepção sobre renda, consumo e emprego, mas com a dificuldade de acesso à  compra de bens duráveis, e o progresso limitado às famílias de baixa renda. Já o ICEC (Índice de Confiança do Empresário do Comércio) cresceu pelo segundo mês seguido. Os comerciantes melhoraram a percepção sobre a economia e reforçaram a intenção de investir, embora a vontade de contratar tenha arrefecido, e o entusiasmo seja menor do que o de um ano atrás.

Cartões e carnês

O cartão de crédito perdeu participação no bolo das dívidas, mas ainda é o motor do endividamento em Manaus, em sintonia com a praticidade, apesar dos custos. Respondeu por 63% das dívidas locais –contra os 67,8% de dezembro –e seu uso é ainda maior entre as famílias de maior renda (91,9%). Conforme a Anefac (Associação Nacional de Executivos de Finanças, Administração e Contabilidade), esse ainda é o meio de financiamento mais caro do país, com juros mensais de 14,56% (e 410,97% anuais). E, apesar das quedas seguidas na Selic, os juros continuam subindo nessa modalidade.

Os carnês (44,3%) aumentaram a participação entre os débitos das famílias de Manaus e mantiveram a vice-liderança, mas deixaram de ser impulsionados também pelos que recebem mais (43,5%). Na sequência estão o crédito pessoal (11,8%), “outras dívidas” (9,8%), financiamento de carro (8,6%), crédito consignado (7,9%) e financiamento de casa (4,3%). Dono da segunda maior taxa de juros da lista da Anefac (8,12% por mês e 155,20% por ano), o cheque especial responde por 5,7% das dívidas. Invenção brasileira, o cheque pré-datado pontuou 0,6% e voltou a ser predominante entre os mais pobres (0,7%).

Conforme a CNC, o percentual de consumidores de Manaus que se dizem “muito endividados” caiu para 25,5%, sendo essa uma condição, agora, mais comum entre as famílias de menor renda (26,6%). O oposto pode ser dito da parcela dos que se declaram “mais ou menos endividados” (20,7%), que aumentou no mês. A fatia dos “pouco endividados” (35,8%) também cresceu e também é mais comum entre os que ganham mais. 

Em média, as famílias de Manaus devem levar 27 semanas para quitar as dívidas. Os devedores com até três meses de compromissos pendentes (34,6%) renovou predominância e aumentou participação O grupo dos que esperam levar mais de um ano para isso (25,4%) diminuiu e seguiu na segunda posição. O comprometimento médio da renda dos consumidores para pagar dívidas diminuiu para 31,8%. Em torno de 30,4% das famílias de Manaus gastam mais da metade do que ganham, mas aqueles que consomem de 11% a 50% de seus rendimentos (44,1%) ainda são majoritários.

Nada menos do que 61,8% dos endividados locais já estão inadimplentes, número maior do que o do levantamento anterior (59,8%). Apenas 22,6% garantem que conseguirão quitar o compromisso integralmente no próximo mês – contra os 26,2% apurados em dezembro. Outros 40,1% estimam que vão pagar parcialmente, e 37,4% assumem que vão seguir devendo. Em média, as dívidas ainda estão atrasadas há 60 dias, sendo que a maioria está pendente acima de 90 dias (37,7%).

“Mais fôlego”

Apesar dos números, o presidente em exercício da Fecomércio-AM, Aderson Frota, se mostrou otimista. “O endividamento se deu por vários fatores, inclusive pelo esforço do BC (Banco Central) para conter o processo inflacionário. As taxas de juros exercidas pelos bancos e empresas de cartões de crédito estão em níveis insuportáveis. Mas, o programa Desenrola, com mais os decréscimos da Selic, tendem a contribuir para a queda da inadimplência. Isso é positivo, mas ainda falta fazer muita coisa. O governo federal tomou a decisão muito acertada de conter a aplicação de juros de mora”, avaliou.

Texto distribuído pela assessoria de imprensa da CNC, aponta que o endividamento diminuiu entre os consumidores de menor escolaridade. O economista-chefe da entidade, Felipe Tavares, lembra que o consumidor que está mais normalmente tem emprego mais estável e mais bem remunerado, e pode arcar com mais dívidas sem ficar inadimplente, tendência que vem sendo observada desde outubro passado. “Como os menos instruídos geralmente têm menor renda, precisam controlar melhor seu orçamento, o que explica a redução da inadimplência e do endividamento com maior intensidade”, ressalta.

No mesmo texto, o presidente da CNC, José Roberto Tadros, avalia que, em aspecto geral, os dados nacionais da Peic de janeiro mostram um cenário positivo para 2024. “As pessoas estão conseguindo, aos poucos, quitar suas dívidas para contrair outras e adquirir novos produtos, planejar viagens, enfim, voltar a consumir com mais fôlego”, assinalou, acrescentando que as projeções da para o ano indicam aumento gradual do endividamento e redução das famílias inadimplentes.

Marco Dassori

É repórter do Jornal do Commercio
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