O nível de endividamento do consumidor de Manaus sofreu repique em dezembro, após sete meses de queda e um de estabilidade. A lista de negativados registrou a quarta alta seguida, e o grupo sem condições de pagamento já começou a avançar. Ao menos 80,3% (529.820) das estão com contas a vencer. O número é superior ao de novembro de 2023 (78,6% ou 518.277) e inferior ao de 12 meses atrás (81,1% ou 527.952). A situação piorou para a fatia com renda abaixo de dez salários mínimos, mas a predominância de dívidas com cartão de crédito e carnês é maior entre os que ganham mais.
A parcela de famílias com contas atrasadas cresceu para 48% (316.962) – contra 45% em novembro de 2023 (296.434) e 41,2% em dezembro de 2022 (267.948). A proporção de consumidores sem condições de pagamento também subiu e chegou a 18,1% (119.258). A inadimplência avançou nas duas faixas de renda, mas o percentual é maior no grupo dos mais pobres – inclusive entre aqueles que não poderão comparecer na próxima fatura. É o que revelam os números locais da Peic (Pesquisa de Endividamento e Inadimplência do Consumidor), da CNC (Confederação Nacional do Comércio de Bens, Serviços e Turismo).
A capital amazonense teve acompanhou a média nacional somente no quesito endividamento. O percentual de famílias brasileiras com dívidas pendentes em meios de pagamentos diversos subiu de 76,6% para 77,6%, na variação mensal e ficou 0,4 ponto percentual no comparativo anual de dezembro. O percentual de inadimplentes (28,8%), contudo, caiu em ambas variações. A parcela de consumidores sem fôlego para as contas (12,2%) também desacelerou ante novembro, embora tenha ficado maior do que a de 12 meses atrás.
A piora da Peic contrasta com a evolução de outros indicadores da CNC, para Manaus. O ICF (Intenção de Consumo das da Famílias) teve sua 18º alta consecutiva, com uma nova rodada de melhoras na percepção sobre renda, emprego e intenção de adquirir bens duráveis. Mas, o progresso se restringiu às famílias de menor renda, e a dificuldades de acesso ao crédito persiste. Após dois meses de queda, o ICEC (Índice de Confiança do Empresário do Comércio) retomou subida, em sintonia com os rios. Os comerciantes melhoraram sua percepção sobre a situação atual e expectativas de investimento, mas o entusiasmo foi menor do que o registrado um ano antes.
Cartões e carnês
O cartão de crédito perdeu participação no bolo das dívidas, mas ainda é o motor do endividamento em Manaus. Respondeu por 67,8% das dívidas locais – contra os 69,5% de novembro. Seu uso é ainda maior entre as famílias de maior renda (88,7%) e ocorre em sintonia com a praticidade dos cartões, em detrimento de seus custos. Conforme a Anefac (Associação Nacional de Executivos de Finanças, Administração e Contabilidade), essa ainda é a modalidade de financiamento mais cara do país, com juros mensais de 14,91% (e 430,02% anuais).
Os carnês (43,4%) também reduziram a participação entre os débitos das famílias de Manaus, mas mantiveram a vice-liderança, sendo impulsionados também pelos que recebem mais (46,8%). O crédito pessoal (13,1%) também caiu nas preferências, mas continua em terceiro lugar, sendo seguido por “outras dívidas” (10,9%), financiamento de carro (9%), crédito consignado (7,3%), cheque especial (6,1%) e financiamento de casa (4,8%). Invenção brasileira, e tradicionalmente de maior uso entre os mais pobres, o cheque pré-datado pontuou 0,6% e consolidou preferência também entre os mais ricos (1,6%).
Conforme a CNC, o percentual de consumidores de Manaus que se dizem “muito endividados” aumentou para 25,6%, sendo essa uma condição menos comum entre as famílias de maior renda (20,7%). O oposto pode ser dito da parcela dos que se declaram “mais ou menos endividados” (20%), que permaneceu estável no mês. Desta vez, a fatia dos “pouco endividados” (34,7%) diminuiu, mas ainda é majoritária, e também mais comum entre os que ganham menos.
Em média, as famílias de Manaus devem levar 28 semanas para quitar as dívidas. Os devedores com até três meses de compromissos pendentes (31,4%) renovou predominância. O grupo dos consumidores que esperam levar mais de um ano para isso (26,6%) diminuiu e seguiu na segunda posição. O comprometimento médio da renda dos consumidores para pagar dívidas estabilizou em 32,2%. Em torno de 30,6% das famílias de Manaus gastam mais da metade do que ganham, mas aqueles que consomem de 11% a 50% de seus rendimentos (45,6%) ainda são majoritários.
Nada menos do que 59,8% dos endividados locais já está inadimplente, um número muito maior do que o do levantamento anterior (57,2%). Apenas 26,2% garantem que conseguirão quitar o compromisso integralmente no próximo mês. Outros 36,2% estimam que vão pagar parcialmente, e a maioria (37,6%) assume que vai seguir devendo. Em média, as dívidas ainda estão atrasadas há 61 dias, sendo que a maioria está pendente acima de 90 dias (39,1%) ou entre 30 e 90 dias (35,9%).
Emprego e crédito
Em entrevista recente à reportagem do Jornal do Commercio presidente em exercício da Fecomercio-AM, Aderson Frota, ponderou que a pesquisa ainda sinaliza alguma estabilidade para Manaus. “Temos um pequeno aumento no nível de endividamento, e nada alarmante, por conta das festas de fim de ano. Ainda não atingimos nem a metade do endividamento focado pelo programa Desenrola, e muitas dívidas estão acima desse valor. Estamos na expectativa que 2024 seja um ano mais positivo”, avaliou.
No texto distribuído por sua assessoria de imprensa, a CNC ressalta que a média nacional da taxa anual da Peic caiu pela primeira vez em quatro anos, em 2023, embora a diferença tenha ficado em apenas 0,1 p.p. (ou 108 mil brasileiros a menos). A conta fechou em 77,8% da população e longe dos 58,3% de 2012. O endividamento no cartão de crédito (86,5%) caiu na mesma proporção, enquanto o uso do cheque especial (4,4%) foi o menor desde 2010. O número de inadimplentes (29,5%) foi o maior da série histórica. A região Norte apresentou as maiores taxas de expansão de endividamento (+3,7 p.p.) e inadimplência (+4,6 p.p.).
“A Peic mostrou que, pela primeira vez em dez anos, as famílias brasileiras terminaram o ano menos endividadas do que começaram”, amenizou o presidente da CNC, José Roberto Tadros. Conforme o dirigente, as melhorias ocorridas no mercado de trabalho ao longo do ano e a trajetória de queda dos juros básicos da economia influenciaram as condições de crédito ao consumidor, o que resultou diretamente na redução, mesmo que tímida, do indicador.
Já o economista-chefe da CNC, Felipe Tavares, destaca a importância de distinguir os conceitos de inadimplência e de endividamento. “Endividamento é algo fundamental para o desenvolvimento econômico, pois o crédito é o trampolim do sistema capitalista. A inadimplência é um resultado adverso do endividamento, causado pela renda baixa do brasileiro e pela volatilidade da economia do País”, encerrou.







