Entre empreendedorismo e indústria, mulheres ampliam presença e autonomia econômica

Em: 8 de março de 2026
Projetos sociais e avanços na indústria mostram como a presença feminina cresce em diferentes setores da economia, fortalecendo autonomia e liderança às vésperas do Dia Internacional da Mulher.
FAS 2024 - Solar Community Hub - Oficinas de Biojoia e Zoologia (Boa Esperança) Créditos Rodolfo Pongelupe
FAS 2024 - Solar Community Hub - Oficinas de Biojoia e Zoologia (Boa Esperança) Créditos Rodolfo Pongelupe

Às vésperas do Dia Internacional da Mulher, celebrado neste domingo (8), histórias de transformação e novos caminhos profissionais revelam um cenário em mudança para mulheres na Amazônia e em diferentes setores da economia brasileira. De iniciativas de empreendedorismo em comunidades ribeirinhas ao avanço nas fábricas e nas ruas do país, a presença feminina tem se consolidado como força de desenvolvimento social e econômico.
Em territórios tradicionais da Amazônia, o desafio vai além da celebração simbólica da data. Para muitas mulheres, conquistar autonomia financeira significa garantir melhores condições de vida para suas famílias e fortalecer a sustentabilidade das próprias comunidades.

Nesse contexto, projetos voltados à qualificação profissional e ao empreendedorismo têm ampliado oportunidades para mulheres da região. Iniciativas desenvolvidas pela Fundação Amazônia Sustentável (FAS) buscam justamente criar caminhos para que elas possam transformar conhecimentos tradicionais em fonte de renda e protagonismo.
Uma dessas ações é o Laboratório de Empreendedorismo Feminino, realizado em Manaus dentro do projeto Empreendedoras da Floresta. A iniciativa promove formações voltadas ao desenvolvimento de negócios sustentáveis e criativos, reunindo mulheres de comunidades amazônicas para oficinas, mentorias e troca de experiências.

Durante as atividades, as participantes aprendem sobre planejamento, inovação de produtos e estratégias de comercialização. Ao final do processo formativo, apresentam suas ideias em formato de pitch para uma banca avaliadora, exercitando a capacidade de estruturar e defender seus próprios negócios. Para a superintendente-geral adjunta da FAS, Valcléia Lima, o fortalecimento econômico feminino é um passo fundamental para o desenvolvimento regional. “Garantir autonomia econômica para as mulheres da região amazônica é oferecer ferramentas concretas para que elas possam empreender, gerar renda e fortalecer suas comunidades. Quando investimos em formação e valorizamos os conhecimentos locais, criamos caminhos reais de transformação social e desenvolvimento sustentável”, destaca.

Entre as participantes está a empreendedora Joana Oliveira, do grupo Formiguinhas do Saracá, localizado na comunidade Saracá, a cerca de 60 quilômetros de Manaus por via fluvial. Para ela, a formação representou uma oportunidade de aprimorar o próprio negócio. “Pude aprender bastante sobre planejamento, precificação e organização dos produtos até a venda. Foi muito importante, porque a FAS e a L’Oréal vêm dando oportunidade para mulheres artesãs”, relata.
Outra frente de atuação é o projeto Elas Reparam, que capacita mulheres de Unidades de Conservação para realizar manutenção de eletrodomésticos, como geladeiras, máquinas de lavar e aparelhos de ar-condicionado. A iniciativa amplia as possibilidades de renda nas comunidades e reduz a necessidade de deslocamento até centros urbanos para realizar reparos.

Além disso, programas de qualificação profissional também têm sido direcionados a mulheres em situação de vulnerabilidade social. A Jornada de Empregabilidade e Carreira, realizada em parceria com o Amazonas Shopping, ofereceu orientações sobre elaboração de currículos, participação em entrevistas e preparação para processos seletivos.

Enquanto projetos sociais abrem novas portas nas comunidades amazônicas, outro movimento de transformação ocorre dentro da indústria instalada no Polo Industrial de Manaus (PIM), especialmente no setor de duas rodas.
Dados analisados pela Associação Brasileira dos Fabricantes de Motocicletas, Ciclomotores, Motonetas, Bicicletas e Similares (Abraciclo) mostram que a presença feminina nas fábricas mais que dobrou na última década. Em 2015, 1.511 mulheres trabalhavam nas empresas do setor no PIM. Em 2024, esse número chegou a 3.134 colaboradoras — um crescimento de 107%.

Atualmente, elas representam 17% da força de trabalho nas fabricantes de motocicletas, bicicletas e componentes instaladas na capital amazonense, ocupando funções que vão desde as linhas de produção até cargos de gestão.
Para muitas trabalhadoras, a entrada no setor significou também a descoberta de um novo universo profissional. A analista de gestão de pessoas Joelma Costa conta que, antes de ingressar na indústria, não conhecia os detalhes da fabricação de uma bicicleta.
“Hoje conheço todas as etapas da produção. É gratificante trabalhar em algo que ajuda a transformar sonhos em realidade e que também promove saúde e qualidade de vida”, afirma.

Nas linhas de montagem, atividades que exigem precisão e atenção aos detalhes também têm contado cada vez mais com a presença feminina. É o caso da operadora de produção Rejane da Silva, responsável pela adesivagem de bicicletas, etapa fundamental para garantir o acabamento do produto. “É um trabalho delicado e técnico ao mesmo tempo. O olhar feminino faz toda a diferença”, destaca.

A presença das mulheres também cresce na gestão das empresas. Para a supervisora fiscal e administrativa Misleide Silva, a ampliação desse espaço reflete uma mudança gradual no ambiente corporativo.

“A presença da mulher na indústria prova que competência não tem gênero. Estamos cada vez mais preparadas e conquistando nosso espaço com mérito e profissionalismo”, afirma.
A transformação também se reflete fora das fábricas. Nas ruas e estradas do país, o número de mulheres habilitadas para conduzir motocicletas cresceu 64% nos últimos dez anos. Atualmente, mais de 10,6 milhões de brasileiras possuem carteira de habilitação na categoria A.

Embora ainda representem cerca de 25% do total de motociclistas, a participação feminina vem crescendo em ritmo superior ao dos homens.

Para muitas condutoras, pilotar representa mais do que mobilidade. É também um símbolo de autonomia. A gerente de tecnologia Laura Schneider, que tirou a habilitação recentemente, conta que a experiência mudou sua rotina.
“Tirei minha CNH no ano passado e passei a usar a moto no dia a dia. Gostei tanto que já fiz quatro cursos de pilotagem para aprimorar minhas técnicas, principalmente em relação à segurança”, relata.
Entre comunidades da floresta, linhas de produção industriais e estradas brasileiras, histórias como essas mostram que o avanço feminino ocorre em múltiplas frentes. Mais do que ampliar a participação das mulheres no mercado de trabalho, essas trajetórias revelam um movimento crescente de autonomia, liderança e transformação social.

 

foto: Gerente de tecnologia Laura Schneider
foto: Gerente de tecnologia Laura Schneider

Mônica Freires

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