O bumba meu boi tem origem no Nordeste, principalmente no Maranhão e Piauí, estados que dividem fronteira, certamente idealizado por negros escravos já que a batida original dessa brincadeira lembra bastante o batuque dos afros. Possivelmente foram os maranhenses que trouxeram a brincadeira para o Amazonas, pois o maranhense Eduardo Gonçalves Ribeiro, quando governou o Estado de 1892 a 1896, trouxe várias famílias de conterrâneas seus para trabalhar nas obras que desenvolvia na capital amazonense.
Essas famílias foram alojadas na região onde hoje é a Praça 14 de Janeiro e, não por acaso, neste bairro foram criados vários bumbás como o Flor do Campo, Estrela Dalva, Rica Prenda, Malhadinho, Brilhante (existente até hoje) e o Caprichoso, fundado em 1913, ou 1914. Conta a lenda que este bumbá teria descido o rio Amazonas e ido se criar na ilha de Parintins, mas isso é apenas lenda, pois o Caprichoso baré brincou até a década de 1970, em Manaus mesmo. Quem sabe se o de lá não copiou o nome do daqui?


A ligação dos bumbás maranhenses com o Amazonas fica mais clara com o surgimento do Garantido, em 1913, na Ilha Tupinambarana, criado por Lindolfo Monteverde, um parintinense descendente de pais e avós maranhenses que ensinaram para o menino os fundamentos da brincadeira.
Lindolfo nasceu em 1902, filho de Marcelo Rolim e Alexandrina, a Xanda, e cresceu vendo os folguedos juninos realizados pelos moradores da região, pescadores como eles. Em 1909 criou seu próprio boizinho com uma folha da palmeira curuatá, que lembra uma canoa, e quatro anos depois, com apenas onze anos, foi a vez do Garantido, já com o formato de um boi.


Vindos do Ceará
Sozinho o Garantido não faria muita festa. Ele precisava de um adversário, um contrário, que pudesse ‘medir forças’ com ele e, ano a ano, ambos buscassem fazer apresentações com toadas mais provocativas e arregimentar maior número de brincantes. É aí que surge o Caprichoso, naquele mesmo ano de 1913, criado por outros nordestinos, estes do Ceará, os Cid: Roque, Antônio, Beatriz e Pedro.
Os bumbás do Ceará também eram uma brincadeira de negros escravos com mistura indígena e lá recebem outros nomes: Boi de Reis (porque brincam nas festividades natalinas e de Reis) e Boi Surubim. O Boi Surubim existiu de verdade, segundo a oralidade da região, e tinha esse nome porque apresentava malhas no couro como as desse peixe.
Voltando ao Caprichoso, se o contrário havia sido ‘criado’ num dos lados da ilha, na Baixa da Xanda, e os Cid moravam do outro lado, no bairro da Francesa, porque não criar um boi para chamar de ‘nosso’? E se o outro era branco, esse daqui seria preto. Ali iniciaram as diferenças e a disputa entre os dois. E as divisões foram só aumentando. Veio o vermelho de um e o azul do outro, o coração na testa de um e a estrela na testa do outro. Se o Garantido, surgido no meio de humildes pescadores, era ‘o boi do povão’; o Caprichoso era o ‘boi da elite’, afinal de contas o bairro da Francesa tinha esse nome porque ali havia habitado uma família de franceses e uma das filhas era tão bela jovem que deixava os homens da ilha embasbacados ao vê-la. Diz-se que, nos finais de tarde, esses homens se reuniam e indagavam uns aos outros: ‘vamos ver a francesa?’, pois ela costumava passear junto ao lago, hoje lago da Francesa.
Se resignam com a derrota
Em Manaus ficaram famosos os embates homéricos que aconteciam, nas décadas de 1940, 50 e 60, quando os bumbás Corre Campo (da Cachoeirinha), Tira Prosa (da Santa Luzia) e Mina de Ouro (do Boulevard Amazonas) se encontravam principalmente se um, propositadamente, invadisse o bairro do outro. Em Parintins não há registros de tais ocorrências. Os embates se davam nos desafios das toadas quando um rebaixava o outro nos versos cantados pelos amos. Os últimos brincantes daqueles tempos, já senhores de idade, lembravam daqueles versos cantados em criança. Mesmo a ilha sendo dividida em duas, o lado vermelho, e o lado azul, e os moradores da Baixa do São José (antes Baixa da Xanda) e da Francesa, serem ferrenhos torcedores de seus respectivos bois, eles não brigam. Após o resultado de quem foi o campeão, a cada Festival, os perdedores se resignam diante das gozações dos vencedores tendo a certeza que, quando for a sua vez de ganhar, também farão o mesmo.
Desde que o Festival Folclórico foi criado, em 1965, com a competição iniciando no ano seguinte, o Garantido acumula 33 vitórias e o Caprichoso, 27. Lindolfo e a família Cid jamais imaginaram que aquela brincadeira, que acontecia nas ruas escuras de Parintins nos dias 13 (Santo Antônio), 24 (São João) e 29 (São Pedro) se tornaria tão grande e faria a Ilha Tupinambarana ser conhecida no mundo todo.







