Entrevista: ‘A direita não está com Wilson Lima’

Em: 30 de setembro de 2022
Entrevista: ‘A direita não está com Wilson Lima’ - 3009 A7

MARCELO PERES

Face: @marcelo.peres  Twitter: JCommercio 

O governador Wilson Lima (UB) lidera as intenções de voto nas eleições deste ano, segundo as últimas pesquisas. Amazonino Mendes (Cidadania) e Eduardo Braga (MDB) estão empatados tecnicamente. Porém, o cenário eleitoral pode surpreender em um eventual segundo turno da briga pelo governo do Amazonas.

Lima tem a máquina estatal nas mãos. Daí vem o seu favoritismo em relação aos seus principais oponentes. E conta ainda com o apoio do prefeito de Manaus, David Almeida (Avante), hoje o seu maior cabo eleitoral, cuja gestão é bem avaliada pela população manauara.

Pelo menos 50% dos prefeitos do interior já fecharam com a campanha de reeleição do atual governador, mas na capital ele divide os votos com Amazonino. Com idade avançada e a saúde debilitada, o ex-governador pode ficar para trás nessa queda de braço, dando amplas chances de Braga disputar a segunda fase do pleito com Lima, hoje grande aliado do presidente Jair Bolsonaro (PL) na corrida pela Presidência da República.

Braga também tem um coringa, um grande álibi, que pode fazer muita diferença nesse contrapeso eleitoral –a aliança com o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT). O petista está à frente de Bolsonaro na maioria dos Estados, inclusive no Amazonas, na preferência do eleitorado, o que o habilita a fazer do senador o próximo governador do Estado, algo que poderia surpreender estimativas que antes apontavam Amazonino como favorito a continuar no páreo.

A dois dias do primeiro turno do pleito de 2022, os palanques dos candidatos estão a postos, mobilizando todas as suas forças apostando na vitória, principalmente o arco de aliança montado em torno de Wilson Lima. No entanto, está afastada a possibilidade de uma vitória esmagadora do atual governador, em tese com maiores possibilidades de decidir a disputa tendo Eduardo Braga como oponente, no lugar de Amazonino que foi impactado durante a campanha por ser octogenário e pelas suas aparições em público sempre acompanhado de cuidadores e médicos, muitas às vezes em cadeira de rodas.

Mas o processo eleitoral pode guardar muitas surpresas na próxima fase. Mesmo Wilson Lima vencendo no primeiro turno, nada está garantido que o desfecho acabará culminando com a reeleição. A história política do Amazonas está registrada de fatos surpreendentes –muitos venceram de primeira, mas perderam mais adiante, situação que pode muito bem se repetir.

Profundo conhecedor da política amazonense, o cientista político Breno Rodrigo fala de suas impressões sobre as eleições deste ano. Ele deu uma entrevista exclusiva para o Jornal do Commercio.

Jornal do Commercio – As últimas pesquisas indicam o favoritismo do governador Wilson Lima para vencer as eleições. Qual a sua avaliação sobre uma disputa, polarizada, hoje, entre Amazonino Mendes e Eduardo Braga?

Breno Rodrigo – Wilson Lima tem liderado as pesquisas pelo fato de ter uma ampla exposição. Está com a máquina estatal nas mãos, tendo uma articulação muito boa pelo fato de governar.

Então, a vantagem parece ser algo natural. Agora, em um trabalho de segundo turno, os dados são mexidos novamente. Há necessidade de se fazer alianças, expandir o eleitorado, mesmo porque o segundo e terceiro colocados devem se aliar.

É possível que haja uma transferência de votos de Amazonino Mendes para Eduardo Braga, e vice-versa. E isso me parece ser um cenário possível.

JC – O fato de Eduardo Braga ter um cabo eleitoral como Lula pode influenciar muito em um eventual segundo turno?

BR – Pode, com certeza. Mesmo porque o principal cabo eleitoral de Braga é, sem dúvida, Lula. Há uma relação, uma parceria muito discreta, entre Wilson Lima e Bolsonaro. Até porque Bolsonaro não fica pedindo votos para o governador.

O presidente não grava mensagens pedindo apoio a Lima, portanto, uma relação bastante equidistante, vamos dizer assim. Claro, é um palanque importante para Bolsonaro. Com essa logística do governador, há uma interiorização de sua campanha.

É como se fosse uma campanha utilizando a logística da outra. Agora, em um cenário de segundo turno, é possível que haja, sim, um apoio mais explícito de Bolsonaro a Wilson Lima. E Lula continuará dando apoio a Braga, evidentemente se os dois presidenciáveis forem para o segundo turno.

Portanto, há necessidade de um alinhamento de estrelas, de interesses, com esses candidatos se ajudando mutuamente.

JC – Temos uma situação atípica. Wilson Lima é aliado de Bolsonaro, enquanto o prefeito David Almeida, seu maior cabo eleitoral, tem manifestado muita insatisfação com os decretos presidenciais que reduziram o IPI, chegando, inclusive, a taxar de ‘burros’ os atuais integrantes do Planalto por desconhecerem as peculiaridades do Amazonas. Como avalia essa questão?

BR – Me parece que, no caso de David Almeida, que é um aliado de Wilson Lima e indicou o vice para compor a chapa da reeleição no Estado, tem um alinhamento com Bolsonaro em parte do eleitorado.

O bolsonarismo tem uma parcela importante de eleitores, principalmente entre os evangélicos, que é a base eleitoral de David Almeida. Eles não vão brigar nesse pequeno nicho. E podem até se aliar, inclusive.

Agora, o acirramento recente entre o prefeito e Bolsonaro se deu principalmente sobre os decretos em torno do IPI. David foi extremamente crítico ao presidente. No entanto, a relação entre Wilson Lima e Bolsonaro é muito mais ocasional, mas por conta da eleição mesmo. Eles não compartilham as mesmas bases.

Por exemplo, Wilson Lima não é um direitista, um conservador, que fala em nome do conservadorismo. Ao passo que Bolsonaro, sim, ele tem uma base eleitoral muito mais aguerrida, também nas redes sociais, uma mobilização muito mais pulverizada, com apoio de evangélicos, de militares.

No Amazonas, a direita não está com Wilson Lima. Está com Bolsonaro. Me parece que o homem de confiança no Estado não é o governador. E tampouco o prefeito. E, sim, o Coronel Alfredo Menezes.

JC – O prefeito declarou apoio a Omar Aziz….

BR – Exatamente, é uma coisa muito confusa. O prefeito compartilha a base eleitoral evangélica com Bolsonaro, mas declara apoio a Omar Aziz, que é um inimigo do bolsonarismo.

Então, é uma triangulação muito interessante. A política estadual não é tão coerente em relação à política nacional.

JC – Pesquisas apontam um empate técnico entre Amazonino e Braga. Qual deles prevê que irá para o segundo turno?

BR – Se você observar as pesquisas, tudo indica que será Amazonino. Mas não sabemos se Amazonino tem condições de dar uma acelerada nessa reta final. As semanas que antecedem as eleições precisam muito desse corpo a corpo, do agitamento da militância, com muito mais publicidade.

Resta saber se Amazonino vai conseguir. Caso ele não consiga, é possível, sim, uma virada eleitoral de Eduardo Braga. Até por uma questão de identidade com o ex-presidente da República, no caso, Lula.

Amazonino não tem esse vínculo com presidenciáveis. Me parece ser um político muito mais visando à política local. Ao contrário, Eduardo tem articulações tanto aqui como na política nacional.

JC – Então, Braga tem grandes chances de virar no segundo turno com Wilson Lima….?

BR – Sim, até porque no segundo turno você gira os dados. É uma outra campanha, uma outra lógica de alianças, muito mais pragmáticas, já visando distribuição de cargos numa eventual vitória.

É uma eleição muito mais pragmática nesse sentido. Há toda uma redistribuição do eleitorado, entre aqueles que estavam indecisos. E passa a ser, realmente, uma incógnita.

JC – As pesquisas apontam que Omar Aziz lidera para o Senado. Acha que ele chega lá?

BR – A meu ver, essas pesquisas para o Senado são muito incertas. Para o eleitor, talvez seja o único voto que ele decida, tanto para senador como para deputado. Há muita indecisão ainda.

Obviamente, Omar é o atual senador e tem muito maior visibilidade. Mas o Coronel Menezes e Arthur Neto são candidatos muito competitivos. Não consigo ver essa vantagem toda de Omar Aziz. É extremamente incerto.

JC – E para deputado (estadual e federal), quem tem maiores chances?

BR – Acho que Marcelo Ramos e José Ricardo já estão reeleitos. O delegado Pablo não volta. Bosco Saraiva está na berlinda. Vanessa Grazziotin é muito forte. E Amom Mandel também.

Há muitos candidatos para deputado estadual. E muitos competitivos. Não dá para prever…

JC – Lula tem sido favorito nas pesquisas. Acha que ele vence no primeiro turno….?

BR – Acho muito difícil. Por uma razão simples. Ele nunca conseguiu ganhar uma eleição no primeiro turno. A Dilma, apadrinhada por ele, também venceu no segundo turno. É um dos motivos para ele vencer no segundo turno.

Vejo essa diferença de 15 pontos muito incongruente. Mas, de fato, Lula lidera. E há um cenário muito interessante nesta eleição que é o de rejeição. Os dois candidatos possuem uma taxa de rejeição muito alta, tanto Lula como Bolsonaro.

Em um eventual segundo turno, precisa reduzir a taxa de rejeição. O Bolsonaro conseguiu um pouco. Com o resgate do eleitor antipetista, será que ele vai votar no Bolsonaro ou vai anular o  voto? Há  toda uma esperança de recuperação desse eleitor.

JC – Lula está liderando no Amazonas?

BR – Acho que sim. Lula tem um voto retrospectivo muito grande no Amazonas, principalmente nas cidades do interior. Mas há uma rejeição muito forte ao PT e a Lula em Manaus.

As cidades interioranas são muito simpáticas ao Lula. E ele tem uma vantagem no Estado por conta desse voto retrospectivo.

JC – E também pelos ataques à ZFM….?

BR – Sem dúvida. Essa decisão de Bolsonaro de politizar o tema do IPI, em um cenário de eleição, me pareceu uma imprudência terrível. Ele comprou uma briga com o Estado inteiro. É muito difícil dizer que o presidente defende o Amazonas se ele ataca a vantagem econômica comparativa em relação às outras economias.

A vantagem comparativa é justamente o modelo com exclusividade tributária.

JC – Em um eventual governo Lula pode ser recuperada essa isenção total no IPI?

BR – É possível, mas resta saber como será o comportamento da equipe econômica de Lula. Ele poderá adotar tanto uma postura mais conservadora, que foi feita com Antonio Palocci, mas se ver vantagem nisso, possivelmente pode manter essa decisão, criando outras alternativas para a Zona Franca.

Mas se ele pegar uma equipe mais conservadora, é possível, sim, mexer com a política fiscal que favoreça a ZFM. O modelo Zona Franca depende de um viés de política econômica intervencionista.

JC – Em 2018, foi a eleição do antipetismo. E agora, em 2022, seria a eleição do antibolsonarismo?

BR – Não vejo dessa forma. Bolsonaro se desgastou muito, principalmente na questão da pandemia. Mas não consigo ver um eleitorado articulado antibolsonarista, como vimos em 2018 em relação ao PT, com movimentos nas ruas, paralisações.

Vejo muito mais uma articulação de poderes. O STF, necessariamente, entra nessa seara, e parte da mídia, principalmente os grandes órgãos midiáticos, um antibolsonarismo muito mais militante.

Agora, não consigo ver essa adesão na população. A rejeição ao bolsonarismo é alta, mas o antipetismo é tão alta quanto. Esse antipetismo já está articulado lá em 2018. Ninguém votou em Bolsonaro pensando no projeto de Bolsonaro.

As pessoas votaram no Bolsonaro para se livrar do PT. O que o PT é hoje não é o voto antibolsonaro, é o voto do PT. O PT tem um eleitorado. O eleitorado de Lula se sobrepõe ao eleitorado do PT.

Vejo que o PT recuperou parte de seu eleitorado e parte da sua base, claro. Em um eventual segundo turno, Lula vai ter que correr para o centro político. E aí vai disputar diretamente com o eleitor de Bolsonaro.

Tem parte do centro político que vai votar em Bolsonaro e também em Lula. Em uma eventual vitória, Lula vai enfrentar um Congresso muito hostil. O lavajatismo ainda é muito recente.

Marcelo Peres

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