Um acervo genético com 2,5 mil espécies de microorganismos da Amazônia está cuidadosamente catalogado no CBA (Centro de Biotecnologia da Amazônia). A responsável por esse rico material é a farmacêutica e doutora em Biotecnologia, Ingrid Reis, que explicou ao Jornal do Commercio qual a importância do acervo, mantido desde 2005, graças ao apoio da Suframa (Superintendência da Zona Franca de Manaus) e da Fapeam (Fundação de Amparo e Pesquisa do Amazonas).
Jornal do Commercio: Que microorganismos são estes 2.500 que estão catalogados?
Ingrid Reis: O Laboratório de Microbiologia do CBA (Centro de Biotecnologia da Amazônia) mantém há mais de 16 anos, uma Coleção de Culturas com mais de 2.500 microrganismos (entre fungos, bactérias e actinomicetos), sendo a maioria endofíticos, isolados de plantas amazônicas. Entre os fungos catalogados na coleção estão representantes dos gêneros: Fusarium, Aspergillus, Penicillium, Colletotrichum, Trichoderma, Paecilomyces, Botritys, Curvullaria, Cladosporium, Xylaria, Pestallotia, Pestallotiopsis, Lasiodiplodia, Ulocladium, Phomopsis, dentre outros.
JC: Onde e de que forma são conseguidos?
IR: A maioria dos microrganismos da Coleção CBA foi isolada de plantas (folha, caule, raiz) de importância da nossa região como: guaraná, cupuaçu, dendê, seringueira, tucumã, pau-rosa, copaíba, andiroba, e várias outras. Além das plantas, existem os isolados de solo, como fungos filamentosos e actinomicetos do gênero Streptomyces, de reconhecida importância industrial devido ao seu amplo potencial biotecnológico, principalmente na produção de antibióticos.
JC: Qual a importância de ter esse material catalogado?
IR: Diversos estudos comprovam que os microrganismos isolados de certas plantas (por exemplo, a copaíba) adquirem a capacidade de produzir os mesmos princípios ativos da planta (como um antibiótico). Portanto, a preservação e conservação deste patrimônio genético permite a manutenção desses princípios biologicamente ativos e a continuidade dos estudos dessa rica microbiota para a descoberta de novas biomoléculas de interesse biotecnológico. A obtenção de uma coleção de microrganismos oriundos da Amazônia, sem dúvida, é uma grande potencialidade biotecnológica, que além de contribuir para o desenvolvimento científico da região pode gerar tecnologias nas diversas áreas como saúde, agricultura e meio ambiente.
JC: Explique como esses microorganismos são ‘acondicionados’?
IR: Os principais métodos de manutenção deste acervo incluem a preservação em óleo mineral, água destilada estéril, liofilização, glicerol em freezer -20ºC e -80°C. Essas formas de preservação garantem a sobrevivência das células microbianas (material biológico vivo), além da conservação de suas características morfológicas, fisiológicas, genéticas e suas propriedades biotecnológicas.
JC: Tem alguém pesquisando o potencial de cada um desses microorganismos?
IR: Hoje o laboratório de Microbiologia do CBA conta com uma equipe de quatro profissionais entre doutores, mestres e especialistas que se dedicam a investigar as potencialidades biotecnológicas dessa microbiota e transformar essa rica matéria-prima em produtos biotecnológicos que possam ser utilizados em diversos segmentos da indústria ou em benefício da sociedade de forma geral.
JC: O que já se sabe a respeito desses microorganismos?
IR: Vários trabalhos já foram realizados com os microrganismos da Coleção onde foi constatado que eles produzem vários compostos de interesse como: antibióticos, antitumorais, enzimas de interesse industrial (lipases, amilases, celulases), biossurfactantes, corantes naturais, substâncias que podem ser utilizadas em diversos segmentos da indústria de alimentos, de cosméticos, farmacêutica dentre outras. Além disso, na área da agricultura podem ser utilizados para produção de inoculantes (biofertilizantes) e biodefensivos em substituição aos agrotóxicos e produtos químicos que causam diversos impactos ambientais e à saúde da população. Na área ambiental atuam também na biorremediação ou biodegradação de substâncias tóxicas. Esses resultados mostram o grande potencial destes microrganismos que estão à nossa disposição. Muito ainda pode ser descoberto.
JC: Atualmente o acervo possui 2.500 espécies catalogadas. Continuam coletando mais? Quantas milhares de espécies ainda podem ser encontradas?
IR: Sim. Esse é um trabalho contínuo. Principalmente na nossa região, onde temos uma mega biodiversidade e sempre buscamos isolar e identificar novas espécies de microrganismo de interesse. Estima-se que cada árvore da Amazônia abrigue cerca de 120 espécies só de fungos com características diferentes, e desses apenas 4% são conhecidos e estudados. Então imagina a riqueza que ainda podemos descobrir e conhecer. A continuidade desse trabalho é de fundamental importância para que todo o conhecimento acerca desse patrimônio genético não seja perdido.







