A guerra no Leste Europeu já se prolonga por mais de 20 dias, gerando muitas especulações sobre possíveis impactos econômicos em diversos países do mundo. Para Marcelo Lima, gerente do Centro Internacional de Negócios da Fieam (Federação das Indústrias do Estado do Amazonas), dificilmente, porém, o conflito entre a Rússia e a Ucrânia poderá afetar as atividades da ZFM (Zona Franca de Manaus).
Segundo ele, hoje o mercado nacional é o principal consumidor dos produtos made in ZFM. As exportações também se destinam para os países da América Latina, Estados Unidos e México. E são praticamente zero as vendas para a União Europeia.
“Sinceramente, vejo poucas possibilidades de a Zona Franca ser impactada pela guerra na Europa. Até porque não dependemos, praticamente, de nada em termos de insumos e outras matérias-primas para alimentar as linhas de produção da indústria em Manaus”, afirma ele.
Hoje, quase 90% dos itens usados pelas indústrias no Amazonas vêm da Ásia, principalmente da China, o maior fornecedor de componentes e peças necessárias para a fabricação de produtos. A Coreia e o Japão também são grandes fornecedoras, mas são os chineses que respondem pela maior parte das exportações.
Marcelo Lima também critica as narrativas de que os russos vão suspender as vendas de fertilizantes para o Brasil, principal insumo utilizado nas grandes cadeias produtivas do agronegócio brasileiro, responsável, hoje, por pelo menos 45% do PIB nacional.
Para ele, os mais afetados serão os países da Europa. Pressionado pelas sanções dos Estados Unidos e da Otan, Vladimir Putin cortará o fornecimento de fertilizantes e gás natural para os países do Ocidente.
“As exportações russas continuam. Até o momento, não há nenhum indício de que a matéria-prima deixará de ser exportada para o País”, afirma Lima. Caso a Rússia suspendesse a venda de fertilizantes para o Brasil, o impacto seria praticamente zero no Amazonas, segundo Lima. O agronegócio regional ainda é muito incipiente, com quase nenhuma participação no mercado nacional.
Marcelo Lima falou exclusivamente ao Jornal do Commercio.
Jornal do Commercio – A Rússia ameaça suspender a venda de fertilizantes para o Brasil. Haverá algum impacto em relação ao Amazonas?
Marcelo Lima – Por ora, não existe nenhum impacto. Nós não importamos diretamente fertilizantes. As compras aqui são muito poucas. As atividades do agronegócio local são muito pequenas em relação à Região Centro-Oeste, que tem maior dependência desses insumos.
Obviamente, o Amazonas compra esses fertilizantes, mas não em grandes quantidades. Foi criada uma narrativa, não sei por quem, de que a Rússia havia suspendido o fornecimento de fertilizantes para o Brasil.
JC – Isso não é verdade, não procede…?
ML – Não procede, porque as negociações, pelo que eu sei, continuam normais. Nesse primeiro momento, não existe nenhum impacto no Brasil sobre as exportações de fertilizantes. Agora, são criadas narrativas de que o agronegócio brasileiro seria prejudicado com essa guerra. A curto prazo, não vejo nenhum prejuízo. Na minha opinião, é zero, e para o Amazonas, muito menos. Mas poderá ter algum problema no fornecimento dessa matéria-prima se o conflito se prolongar por muito tempo.
JC – Em que aspecto o conflito poderá afetar o Amazonas?
ML – As negociações do Amazonas com a Rússia são pequenas, tanto na parte de exportações como em importações. Nosso maior volume de importação da ZFM vem da Ásia, principalmente da China, da Coreia e do Japão.
Praticamente, não vem nada da Rússia em termos de componentes para a Zona Franca, para o Distrito Industrial, e nem da Ucrânia. Pelo contrário, compramos muito mais da Ásia.
JC – Como ficam os produtos da ZFM em relação à Europa?
ML – Até agora, não houve nenhum impacto. Até porque as exportações do Amazonas, do Polo Industrial de Manaus, os volumes não são muito grandes para a Europa. No momento, esse mercado ainda não foi afetado.
Até durante a pandemia, as negociações com a China, os volumes de exportações e importações, não sofreram solução de continuidade, isto é, não houve quase nenhuma interrupção. Os volumes permaneceram os mesmos.
Não atingiu a Zona Franca de Manaus. A mesma coisa está sendo com essa guerra. Hoje, 98% da produção industrial da ZFM se destina para o mercado consumidor nacional. O mercado interno. Os produtos também são destinados para os países da América Latina, os Estados Unidos e o México.
Vai muito pouca coisa para a União Europeia. Em nosso caso, não vejo nenhum impacto em termos de negociações.
JC – Existem, porém, muitos alardes sobre os impactos da guerra….
ML – Para ser sincero, diante de tantas narrativas que surgem, estou me desconectando de tudo – de problemas políticos, econômicos, sociais. Com relação ao Amazonas, não vejo ainda nenhum problema. Sempre estou acompanhando a atualização dos dados da Confederação Nacional da Indústria sobre o Brasil. E não há nada em relação a isso. Espero que o conflito acabe logo. Não existe bicho de sete cabeças para a gente ficar assombrado.
JC – E se a guerra se prolongar por mais tempo….?
ML – Bom, aí só Deus vai dizer. Mas em relação à ZFM, a gente não depende dos países que estão em guerra. Pode afetar a parte logística, a navegação, as negociações. Em princípio, não vejo prejuízo.
A navegação que traz esses componentes para o Amazonas vem de Hong Kong (China), Coreia do Norte, Tailândia, Japão, pela Ásia, vem direto costurando o oceano, pelo Pacífico, até chegar ao Canal do Panamá.
Se a Rússia continuar fornecendo fertilizantes para o Brasil, não vejo razão para nenhuma preocupação.
JC – É mais uma retaliação de Putin aos países do Ocidente…
ML – Com certeza, ele vai tomar medidas austeras contra esses países e a própria Otan.
JC – Como avalia a possibilidade de o mundo caminhar para uma guerra nuclear, como muitos já especulam?
ML – Não vejo nenhuma possibilidade. Acho que seria um ato de muita irresponsabilidade. Seria o fim do mundo. Os Estados Unidos jogaram duas bombas no Japão e acabou a segunda guerra. Nós vamos morrer por último porque estamos mais longe.







