Escola para formar beiradões

Em: 5 de março de 2026
Um ritmo musical bem nosso, o beiradão, agora terá uma escola especializada em ensiná-lo, primeiramente para crianças e adolescentes.
Chico Caju e Teixeira de Manaus, ícones do beiradão
Chico Caju e Teixeira de Manaus, ícones do beiradão

Na sexta-feira, 6, às 15h, será lançado no Caua (Centro de Artes da Ufam – rua Monsenhor Coutinho, 724 – Centro) o projeto ‘A Escola de Beiradão do Amazonas’ voltado para crianças e adolescentes de seis a 15 anos. O evento será aberto ao público.

“Idealizado por mim, o projeto foi contemplado pela PNAB (Política Nacional Aldir Blanc). Antes de ser professor universitário e diretor do Caua, sou um proponente de cultura e, como estratégia, tenho o Caua como um parceiro para colocar essa ideia de ocupação de espaço para a primeira Escola de Beiradão do Amazonas. A EBA vai funcionar no Caua e prevê formar crianças e adolescentes nesse ritmo musical amazonense com foco na manutenção da ideia de patrimônio cultural e identidade”, explicou Renato Brandão.

Renato, a EBA prevê formar crianças e adolescentes nesse ritmo musical amazonense.
Renato, a EBA prevê formar crianças e adolescentes nesse ritmo musical amazonense.

O beiradão é um estilo musical típico do Amazonas, surgido nas festas dos interiores, nos beiradões, nas décadas de 1970 e 80, onde músicos tocavam ritmos dançantes, uma mistura de cumbia, merengue e lambada, que ‘varavam’ a noite. Os instrumentos básicos do beiradão são a guitarra, o saxofone e o baixo. Alguns músicos, inclusive, usavam o instrumento como sobrenome artístico: Oseas da Guitarra e Magalhães da Guitarra, porém, quem realmente popularizou o beiradão foi Teixeira de Manaus, entre as décadas de 1970 e 80. Curioso que o beiradão só foi reconhecido como ritmo musical autêntico do Amazonas mais de 40 anos depois de seus pioneiros o executarem nos interiores longínquos.

Em 22 de setembro de 2023, o beiradão foi oficializado como patrimônio cultural imaterial do Amazonas (Lei nº 6.448) e o dia 3 de outubro passou a ser considerado o Dia Estadual do Beiradão, homenagem à data de nascimento de Chico Caju, um dos pioneiros do ritmo.

 

Show a cada seis meses     

De acordo com Renato, o projeto da EBA tem como marco teórico as produções intelectuais de muitos pesquisadores amazônicos, alguns deles orientados por ele próprio em programas de pós-graduação.

Para auxiliar na didática foi elaborado um livreto, que norteará as ações dos professores de música. Este mesmo livreto é dividido em sete capítulos para ser absorvido como tema transversal no primeiro semestre de 2026. As ações da EBA ocorrerão em 12 meses, mas a validação pedagógica acontecerá de seis em seis meses para se observar como está se desenvolvendo a formação dos alunos.

“A metodologia de ensino foi adequada para essas faixas de idade. Foi levantado, por meio de pesquisa, um repertório exclusivo de músicas do Amazonas. Cada professor terá como missão, ao final de cada semestre, promover uma mostra didática, em formato de show, para mostrar o desenvolvimento artístico de seus alunos”, avisou.

A faixa etária de crianças e adolescentes, definida para os primeiros alunos da Escola de Beiradão do Amazonas, foi determinada por conta do viés educacional, mas Renato adiantou que, no futuro, os ensinamentos se estenderão, também, para adultos. As aulas serão de percussão, violão, ukulele, guitarra solo, canto coral, musicalização infantil e flauta doce. Haverá turmas pela manhã e à tarde, de segunda a sexta-feira.

“Iremos ensinar música e valores culturais do beiradão para as futuras gerações que irão gerir nosso Estado. Esses jovens, nascidos na cidade, precisam entender que no beiradão, enquanto espaço físico do Amazonas, ocorrem vidas que nos inspiram e, como muitos teóricos sugerem, o meio influencia nossas condutas. Assim, somos todos, de algum modo, ‘crias’ dos beiradões”, afirmou. 

 

Arraial de Manaós

“Quem sabe da EBA não saiam futuros mestres da cultura musical do beiradão, assim como foram Teixeira de Manaus, Chico Caju, Oseas da Guitarra, Magalhães da Guitarra, entre outros, os clássicos consagrados. Hoje, diante dessa retomada do termo beiradão, há uma corrente forte de músicos que se apoiam no viés das harmonias e melodias características da onda cultural. Los Matrinxãs, Alaide Negão, OBA, entre outros, são expoentes atuais que se ocupam de validar mais uma vez nossa cultura”, revelou.

Sob a direção de Renato, o Caua tem se tornado um centro de difusão de cultura e formação de artistas. Atuantes no espaço tem o Grupo de Dança do Caua, liderado pelo instrutor Sandro Michael; o Coral de Mulheres do Caua, tendo à frente o instrutor Angelus; as ações de dramaturgia, coordenadas pela professora Yara Costa, entre várias outras atividades. O próprio Renato lidera o grupo musical Arraial de Manaós.

“O grupo é institucionalizado na Ufam como um corpo estável da linguagem musical e tem como foco defender nossa cultura através da música. Os professores da EBA são músicos do Arraial de Manaós. Ainda que tenhamos essa consideração formal imposta na fundação da banda, somos amigos e sempre estamos relacionando nossas ações de pesquisa e estudos para dar valor à cultura e aos desafios amazônicos. A EBA será um desafio a mais para nós”, finalizou.

A EBA vai funcionar no Centro de Artes da Ufam
A EBA vai funcionar no Centro de Artes da Ufam

Evaldo Ferreira

é repórter do Jornal do Commercio
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