EUA e China lideram mercado da castanha

Em: 19 de julho de 2016

A castanheira (Bertholletia excelsa), a gigante da Amazônia, que pode chegar a 50 metros de altura, produz um dos melhores frutos de nossa região: a castanha, rica em proteínas, carboidratos e gorduras. Mas boa parte da produção vai para o exterior.
Atualmente, a grande exportadora de castanhas em Manaus é a Ciex, que este ano está completando 80 anos de existência e sempre teve o fruto em seu portifólio, conforme falou Daniel Benzecry, bisneto do fundador Issac Benzecry. “Jacob, pai de Issac, já havia trabalhado com castanha antes, mas foi Issac quem iniciou a empresa do zero, em 1936, trabalhando com produtos regionais, como castanha, juta, sorva, balata, pau rosa e couros. A castanha sempre foi importante para o grupo, mas apenas mais recentemente tomou a liderança”, contou.
Pelas décadas trabalhando com o produto, Daniel conhece bem as idas e vindas da produção. “O fato de ser um produto extrativista coloca um pouco mais de volatilidade neste mercado, uma vez que não possuímos controle da produção. Nos últimos anos o mercado tem sido pressionado pela concorrência boliviana e peruana, a qual consegue muitas vezes comprar castanha in natura do Acre e Amazonas sem pagar todos os tributos devidos. Isso coloca os beneficiadores brasileiros numa situação de desvantagem. Em relação ao ano de 2016 nós temos tido cautela nas exportações devido à volatilidade do dólar”, explicou.
E atender às solicitações do mercado faz parte do negócio. “A castanha desidratada e industrializada pode ser vendida com casca e sem casca. A classificação é em relação ao tamanho, feito por libragem. O exterior tem a tendência a preferir castanha com casca e castanha sem casca em tamanhos menores enquanto o mercado interno tem preferência pela castanha descascada mais graúda. São dois mercados que se complementam. No exterior temos Estados Unidos, China e Austrália como principais compradores, enquanto no mercado interno o Estado de São Paulo é o principal destino de nossas castanhas”, enfatizou.
“O comércio da castanha vem desde as épocas coloniais, porém, expandiu-se após a crise da borracha (1911), quando a empresa inglesa Booth Line começou a introduzi-la nos mercados da Inglaterra”, contou o historiador Antonio Loureiro.
Entre as descobertas de Loureiro, uma diz respeito à queda do consumo pelos ingleses, e como o problema foi resolvido. “Descobriu-se que a afla toxina, bactéria resultante da produção de fungos, pela umidade, era altamente tóxica para o fígado. Então, os navios da Booth passaram a levar trabalhadores somente para revirar o produto durante as viagens. Também, para evitar a afla toxina, passou-se a descascar e torrar as castanhas. Na Segunda Guerra foi proibido o embarque de castanhas, pois tinha prioridade o embarque da borracha, muito utilizada pelos americanos”. E da mesma forma que a borracha, os ingleses nos levaram a castanha para as suas colônias no Oriente, mas com esta, “quebraram a cara”. “Em primeiro lugar o longo tempo para a frutificação, de 15 anos, inviabilizaria os investimentos a curto prazo, depois, as castanheiras floresceram, mas não produziram ouriços pela inexistência de polinizadores”. Nas primeiras décadas do século passado, já se conhecia o valor nutritivo das castanhas. Um anúncio da Associação Comercial dizia que o valor alimentício de duas castanhas médias equivalia ao de um ovo. “Na verdade, muitas crianças, como minha avó materna, sobreviveram nos famintos seringais, graças ao leite de castanha, substituindo ao fraco leite de mães subalimentadas ou ao caro leite condensado, pois ainda não existia leite em pó”, recordou. “É uma pena que os governos não se interessem pelo uso da castanha nas merendas escolares, pois é o único alimento vegetal que contém todas as proteínas necessárias ao ser humano, sendo importante para o crescimento e até substituindo a carne e o peixe, no entanto sempre foi exportada como comoditie, para ser usada como alimento exótico, na fabricação de rações para engorda de perus e na confecção de chocolates famosos”, reclamou.

15 anos para frutificar

Na Embrapa (Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária), as pesquisas sobre a castanheira só começaram na década de 1970 e desde então muito já se descobriu. “A técnica de enxertia de copa desenvolvida pela Embrapa proporciona alguns benefícios como: menor altura da copa; copas bem formadas com materiais mais produtivos e sadios; e possibilidade de reproduzir características genéticas superiores. No entanto, a característica de frutificação precoce, hoje em 15 anos, é uma característica que ainda não foi possível reproduzir até o momento”, falou o pesquisador Roberval Lima. Sobre a produção do fruto no Amazonas, quem falou foi Kátia Emídio, também pesquisadora da Embrapa. “A castanha-da-amazônia tem ocorrência natural em praticamente todo o Estado. O que pode variar é a densidade das castanheiras em cada região”, explicou. Segundo dados do Anuário Estatístico do Amazonas 2013, a produção de castanha nas mesorregiões foram as seguintes: Beruri e Tefé (6.188 toneladas); Boca do Acre e Manicoré (4.694 toneladas); Fonte Boa e Tonantins (643 toneladas) e Novo Airão e Barcelos (262 toneladas). “Estes dados são relacionados ao extrativismo da castanha. No Amazonas, há uma empresa localizada em Itacoatiara que produz castanha oriunda de plantio”, completou, e o Acre é o maior produtor de castanhas da Amazônia (13.684 toneladas), em 2014, deixando o Amazonas em segundo lugar com 12.901 toneladas.

Redação

Jornal mais tradicional do Estado do Amazonas, em atividade desde 1904 de forma contínua.
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