A ex-ministra da Fazenda Zélia Cardoso de Mello, uma das criadoras do Plano Collor, que fez 20 anos ontem, reconheceu, em entrevista à Rádio Eldorado, os resultados negativos da iniciativa, mas disse que, na época, não havia alternativa ao país. “Houve muitos efeitos negativos, mas tínhamos pouquíssimas opções à frente. Estávamos à beira da hiperinflação, com inflação de 82% ao mês, e subindo a cada dia”, relembrou.
O pacote de medidas foi oficialmente chamado de Plano Brasil Novo, mas se tornou fortemente associado à figura do ex-presidente Fernando Collor de Mello, hoje senador pelo PTB de Alagoas, que enfrentaria um impeachment dois anos depois, em 1992. O plano combinava, entre outros pontos, medidas radicais para a estabilização da inflação, com a abertura do país às importações e a venda de empresas públicas.
A iniciativa mais drástica ficou conhecida como confisco, em que o governo tomou posse dos depósitos bancários acima de 50 mil cruzados novos (a moeda da época). Zélia, contudo, diz que o projeto provocou mudanças que considera importantes, como a privatização e a abertura comercial.
Como ocorreu em outras ocasiões, Zélia contou que a inclusão da poupança no confisco ocorreu pouco antes de a proposta ser anunciada. “A intenção não era essa, mas, como os rumores eram muito grandes e havia uma migração de recursos de outras aplicações para a poupança, fomos obrigados a incluí-la”, justificou.
A ex-ministra justificou a decisão dizendo que foi baseada em muitos estudos e tomada num momento em que a equipe econômica não tinha escolha. “A outra opção era deixar a hiperinflação acontecer” Figura mais proeminente na divulgação do plano, Zélia também atribui a decisão ao Congresso, que aprovou a medida provisória que o criou.
Depois de 20 anos, Zélia, sócia de uma consultoria nos EUA em que faz prospecção de empresas que procuram recursos para investimento, diz que virou a página, mas que pensa sempre sobre o assunto. “Mas, é inevitável pensar nessas coisas. Queria que o plano tivesse sido bem-sucedido em tudo”, lamentou.
Gestão Lula
A ex-ministra disse que a gestão do presidente Luiz Inácio Lula da Silva surpreendeu e, do ponto de vista econômico, foi bem-sucedida. “Lula é extremamente perspicaz e percebeu que as mudanças que vinham sendo feitas desde os Planos Cruzado, Collor, Real foram boas e que ele deveria manter o curso e aprofundar o que estava sendo feito de bom, em vez de pegar as ideias do PT”, concluiu.







