Especialista em psicopedagogia e interdisciplinaridade, terapeuta clínica psicanalítica e cognitiva comportamental, psicóloga do trânsito e doutora em psicologia pela Universidade UCES, de Buenos Aires, a psicóloga Nazaré Mussa lança seu primeiro livro, “Lembranças especiais do Roby”, um livro infantil, que traz uma mensagem para as crianças, e até mesmo adultos, que sofrem uma perda, no caso o cachorrinho Roby, conforme contou nessa entrevista ao JC. “Lembranças especiais do Roby” será lançado dia 3 de dezembro, quinta-feira, às 18h30, na livraria Saraiva, do Manauara.
Jornal do Commercio: Por que a senhora resolveu rescrever “Lembranças especiais do Roby”?
Nazaré Mussa: Tudo começou quando o cachorrinho de minha filha Daniela, que tem síndrome de Down, morreu. Ela pediu ele de volta do Papai do Céu. Eu me questionei. O que fazer quando as crianças perguntam o que temos dificuldades em juntar as palavras para responder? Minha filha precisava de uma resposta que abordasse o tema morte de uma maneira franca, simples e clara e acima de tudo não tornasse sua dor maior do que estava sentindo.
JC: Então o livro serve para ensinar as crianças a lidar com as perdas?
NM: A questão é muito maior para todos nós quando nos referimos a perda de entes queridos, sejam pessoas ou animais de estimação. Eu acredito que o livro trata do tema com mais leveza, dando oportunidade às crianças de refletirem sobre o tema de uma outra maneira. Ou seja, a morte é um fato, todos nós vamos perder uma pessoa amada, um animal de estimação. O que o livro tenta passar nas entrelinhas às crianças é que existe uma outra maneira de olhar o sofrimento e a dor. Chorar o luto é necessário, mas, também é importante lembrar de tudo que foi construído ao longo do tempo. Buscar as lembranças boas e nosso cognitivo, quando trabalhado, busca exatamente esse processo.
JC: Existem pessoas que têm muita dificuldade em lidar com as perdas, principalmente, se for a perda de alguém. Como se portar diante dessa situação?
NM: Verdade! Perder é complicado para todos nós. Mas, a morte é um fato, todos perdemos pessoas amadas…animais queridos. Este fato ninguém pode mudar porque morrer faz parte da existência humana. Todos os seres vivos morrem. O processo de vivenciar o luto é difícil e sofrível. Num primeiro momento, a negação, depois o luto propriamente dito e aos poucos, o sair dele. Como lidar com essa situação, a melhor maneira, é reconhecer seus limites e pedir ajuda quando a situação estiver além das nossas forças. O fato não poderá ser alterado, mas a compreensão do fato poderá ser modificada.
JC: Por que é importante para uma criança, principalmente se ela for especial, ter um animal de estimação?
NM: Para estimular o processo cognitivo, social, psicológico e comportamental da criança. Já existem trabalhos científicos que comprovam a melhora na qualidade de vida de crianças com determinadas limitações, no convívio com idosos, na rotina diária para pessoas que vivem sozinhas. Um cãozinho, por exemplo, fica sempre ao lado de seu dono, estimulando e interagindo o tempo todo que está com ele.
JC: Ao menos os animais, diferente das pessoas, não ficam com os olhos grudados em celulares, smartphones e tablets.
NM: A tecnologia é extremamente importante e hoje em dia fica complicado pensar na possibilidade de não possuir o e-mail, por exemplo, onde você se comunica com um amigo do outro lado do mundo, consegue resolver problemas com um simples toque. Contudo, como tudo na vida do ser humano precisa de limites, regras e normas. Imagine um adolescente que precisa acordar cedo para ir à escola, ficar na web até altas horas? Complicado e prejudicial. Sair para jantar com a família e em vez de interagir uns com os outros, a interação passa a ser virtual. Algumas pessoas precisam rever urgentemente os valores dados aos bens de consumo. Um animalzinho dá carinho, atenção e cobra de você muito pouco. Adotar um animal de estimação é mudar sua vida para melhor.
JC: Fale um pouco sobre o livro, quando começou a escrevê-lo? Quanto tempo levou para concluí-lo? E as ilustrações do Euros Barbosa?
NM: Quando milha filha me perguntou sobre o Roby eu disse à ela que iria explicar tudo direitinho, a conversa foi acontecendo… Quando terminamos o assunto, tive um insight e disse para mim mesma: vou escrever uma história, afinal de contas não é só minha filha que apresenta essa necessidade, lembrei do meu trabalho, escrevi o texto em um dia, levei para uma amiga ler e ela me incentivou a publicar. Daí à publicação, mais ou menos três meses. O Euros é um profissional ímpar, ele é extremamente sensível. Quando nos encontramos para conversarmos sobre o livro, ele começou a viver a história, sentir o que eu narrava, como se estivesse vivenciando cada momento, cada experiência. Sem palavras.
JC: “Lembranças especiais de Roby” é um livro pra crianças, mas a sra. está escrevendo um outro, para adultos. Nos adiante um pouco o conteúdo dele.
NM: Verdade! Esse livro tem um outro contexto, estou escrevendo sobre o Eu internalizado. O ser real e o ser ideal. Quem sou eu! Este sou Eu? Quem somos diante do social e quem somos quando estamos sozinhos? Descreve sobre as representações desse Eu, sobre psicanálise e a construção no subjetivo do ser. Por hora, é só.







