Experiência inovadora

Em: 21 de outubro de 2007
Por mais que perversa que possa parecer essa conjuntura de crise, matizada pelo desemprego, ela contribui para que os trabalhadores se recriem e reinventem-se como ser social. O trabalho em Marx não somente um mecanismo de reprodução de material.
Por mais que perversa que possa parecer essa conjuntura de crise, matizada pelo desemprego, ela contribui para que os trabalhadores se recriem e reinventem-se como ser social. O trabalho em Marx não somente um mecanismo de reprodução de material.

Este estudo promete fazer uma análise sobre um tema emergente. O homem é o animal laborans nucleado pelo trabalho, por isso quando falamos em crise do trabalho deve ficar claro que estamos nos referindo à crise do trabalho assalariado. A estrutura sistêmica do mundo do trabalho capitalista passa por metamorfoses e profundas mudanças na sua base de acumulação. As crises cíclicas atingem inexoravelmente a raiz acumulativa obrigando o capital a rever seus métodos.

Toda vez que o sistema ameaça entrar em colapso a ratio capitalista entra em ação com reintrodução de novos métodos na base do trabalho. O taylorismo, fordismo e toyotismo são métodos construídos para dar sustentabilidade ao sistema no período crítico do keynesianismo que se manteve no período de 1945 a 1975, nos países centrais. Esse foi um período de sucessivas crises do trabalho assalariado e do fenômeno salarial em todo o mundo capitalista. Por mais perversa que possa parecer essa conjuntura de crise, matizada pelo desemprego, ela contribui para que os trabalhadores se recriem e reinventem-se como ser social.

O trabalho em Marx não é somente um mecanismo de reprodução material do ser social. Assume também uma dimensão simbólica presente na ação praxiológica do sujeito histórico que transforma, cria e recria-se nesse processo. É verdade que o capitalismo eclipsou a dimensão de exteriorização do homem no evento do trabalho, pois a forma de exteriorização do trabalhador no processo fabril ocorre de forma alienada e não em seu aspecto criador e recriador da condição humana.

Assumir a direção racional no processo de trabalho e autogerir os negócios, representa um salto de grandeza na reabilitação humano-social do trabalhador. Some-se a isto, o fato de que “trabalhadores em cooperativas de produção não obedecem a ninguém, não tem patrão e, por outro lado, não podem fazer corpo mole, como acontece muitas vezes com quem tem quem pague seu salário no final do mês” (Singer, 1998). A Anteag (Associação Nacional dos Trabalhadores em Empresas Autogestionárias) é, talvez, a iniciativa de autogestão e participação acionária dos trabalhadores que tem se destacado nessa conjuntura de reinvenção das classes trabalhadoras.

Fundada em 1994 num encontro de seis empresas em autogestão dentre as quais a Makely, em Franca/São Paulo, a Anteag traduz-se numa experiência de economia solidária que vem dando certo na sociedade brasileira. Para Singer (2000), “ a economia solidária surge como modo de produção e distribuição alternativo ao capitalismo, criado e recriado periodicamente pelos que se encontram (ou temem ficar) marginalizados do mercado de trabalho”. O trabalho voluntário e a iniciativa autônoma de algumas pessoas foram construindo teias de relações importantes que deram origem à Anteag. A autogestão é a novidade e a marca consagrada dessa associação que surge dando um novo sentido ao trabalho. As características da entidade são basicamente as seguintes:

1) peculiaridade fabril e urbana dos estabelecimentos;

2) o caráter de organização coletiva e reprodutiva de trabalhadores;

3) e um certo apoio dos sindicatos (Nakano, 2000).Por tudo isso devemos operacionalizar alternativas de geração de renda como esta.

Celso Torres é economista, Mestre em Sociologia do Trabalho pela UFAM (Universidade Federal do Amazonas).

Redação

Jornal mais tradicional do Estado do Amazonas, em atividade desde 1904 de forma contínua.
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