Exposição de arte mostra os Bisignólios de Helen Rossy

Em: 10 de novembro de 2022

No dia 4 passado a Galeria do Largo completou 17 anos de existência, mas é o público amante da arte quem, durante o mês de novembro, ganha o presente, na realidade, três presentes: duas exposições que iniciam na sexta-feira (11), ‘Bisignólio’, da artista plástica Helen Rossy; e ‘Yurupari 2022’; e uma terceira, na sexta-feira (25), ‘Beiradão em brasa’, do artista Anderson Brasa.

Chama atenção, logo de cara, o nome da exposição de Helen Rossy, até porque é uma palavra que não existe.

“Bisignólio é uma palavra criada por mim. Ela surgiu por acaso, após um amigo me contar uma história sobre um gazofilácio. Essa palavra existe. É um local, num templo, onde são recolhidas as oferendas. Curiosamente, toda vez que eu ia falar gazofilácio, saía bisignólio, então passei a definir bisignólio como aquilo que é inexistente e passa a existir a partir da criação do artista, tudo a ver com o meu trabalho com sobras de madeira que iam para o lixo e acabam sendo transformadas numa obra de arte”, explicou.

Inspirada por seu marido, o também artista plástico Buy Chaves, desde 1992 Hellen produz o que chama de esculturas utilitárias. São peças de decoração e utilitários como mesas, cadeiras, bancos, luminárias, entre outras, feitas a partir de troncos e pedaços de árvores. Morando na cidade de Novo Airão, Helen também sempre procura peças de madeira para construir sua arte, muitas enterradas nas areias da frente da cidade que até 2015 chegou a abrigar oficialmente 62 estaleiros de barcos de madeira.

Onze anos depois

“Aqui na frente da minha casa tinha um estaleiro. Vinha gente de fora encomendar os barcos. Com a proibição da extração de madeiras, esses estaleiros foram falindo, mas deixaram para trás belas peças de madeira nobre, que com o tempo foram sendo enterradas nas areias, com a ajuda das águas. Já encontrei belas pranchas que, por terem um rachado, ou algum outro defeito, eram descartadas. Também recolho troncos de árvores de queimadas”, contou.

O material encontrado por Helen, em suas andanças pelas praias do município, é trazido por ela e guardado em seu ateliê, até ser transformado numa obra de arte.

“Todo ano, com a vazante do Negro, aparece muita coisa. É uma época maravilhosa para a coleta de madeiras. Depois de seis meses debaixo d’água, essas madeiras têm outra textura, com várias ranhuras. Até hoje encontro belas peças que não foram utilizadas pelos estaleiros”, revelou.

Há mais de dez anos Helen Rossy não participava de uma exposição individual, em Manaus. A última foi em 2011.

“Participei de algumas coletivas. Este ano recebi o convite do ICBEU, para expor na sua Galeria, mas já estava envolvida com a produção dos ‘bisignólios’, e não pude aceitar. Trabalho direto no meu ateliê e sinto que a minha experiência com as madeiras fica cada vez mais apurada. Apesar de ser conhecida por minhas esculturas utilitárias, nesta exposição serão apenas esculturas. Resolvi ‘viajar’, como artista”, falou.    

‘Bisignólio’ está constituída por 14 peças exclusivas, todas produzidas neste ano especialmente para a exposição.

“Há dois meses estou trabalhando nelas, depois que recebi o convite da Secretaria de Cultura através de Cléia Viana, que é a curadora da exposição”, destacou.

Todas as peças estarão à venda.

Indígenas e manauaras

Já as telas de ‘Yurupari 2022’ enfocam duas entidades importantes na proteção das florestas e da biodiversidade: o Jurupari e a Kipaé. O Jurupari, na forma do grande líder anticolonial tupinambá Cunhambebe, e Kipaé, como o arauto anti extinção humana.

“Para os povos originários, estas entidades são importantes meios de comunicação entre o físico e o metafísico. Para os brasileiros, não passam de lendas e histórias para dormir ou assustar, e essa é uma problemática advinda da colonização brasileira”, adiantou Denilson Baniwa, curador da exposição.

No dia 25 é a vez de ‘Beiradão em Brasa’ entrar em exposição. As fotos abordam temáticas históricas da Manaus Moderna e retratam o cidadão manauara como um ser híbrido dependente da terra e da água. A exposição do fotógrafo Anderson Brasa tem a curadoria de Cristóvão Coutinho, diretor da Galeria do Largo.

“As três exposições têm como processo criativo as fotografias, pinturas e objetos esculturais da arte contemporânea. São artistas ligados ao artivismo (arte + ativismo) indígena e ao ambiente cultural amazônico, que se expressam por meio dessas criações artísticas”, finalizou Cristóvão.

Todas as exposições são gratuitas e poderão ser visitadas de terça-feira a domingo, das 15h às 20h. As vernissages terão início às 19h. ‘Bisignólio’ e ‘Yurupari 2022’ permanecem em cartaz até 12 de fevereiro de 2023, enquanto ‘Beiradão em Brasa’ prossegue até 23 de março. A Galeria do Largo está localizada no Largo de São Sebastião.

Por Evaldo Ferreira: @evaldo.am

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Evaldo Ferreira

é repórter do Jornal do Commercio
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