O carimbo da instituição no canudo universitário vem sendo um valor maior que o título em si ou ainda mais significativo que os próprios conhecimentos presumidos pela sua obtenção. Afirmar-se como estudante, formando ou professor da Universidade X –ou omitir por vergonha, muitas vezes descabida, a pertença à Universidade Y– é um costume assentado entre os cultuadores da educação e da ciência como fator número um para o avanço pessoal e social.
Ferramenta estratégica e excepcional no passado, hoje um determinado curso de um determinado departamento de uma determinada universidade renomada está presente em todos os casos de sucesso das empresas e das lideranças –em que pese a sempre citada exceção de Bill Gates, que nunca concluiu uma graduação superior, ou de Lula, que jamais chegou às portas da universidade. São exceções que confirmam a regra. Porém, tanto o “curso bom” como “o departamento reconhecido” estão com os seus dias contados.
No Brasil, ainda não se fizeram ver os efeitos do fim deste fetiche do nome da Universidade ou do Departamento acadêmico. Estamos ainda numa fase anterior: A nossa fornada de jovens se já souber ler e recitar meia dúzia de jargões pseudo-intelectuais será recebida com flores!
O mercado em geral paga mais a quem demonstra saber fazer algo mínimo corretamente do que a quem comprova “saber-poder-fazer” melhor do que o esperável. Estamos numa fase de alfabetização dos nossos universitários e no vestíbulo do estilo multidepartamental e transdisciplinar daquilo que será exigido a alunos pertencentes a um sistema da Universidade Global.
A realidade de algum curso, departamento ou professor de Bolonha, de Salamanca, de Coimbra, de Harvard, Oxford ou de Cambridge de fato nem sempre condiz com a estatura histórica simbolizada por estes grandiloqüentes referentes.
A Universidade de Coimbra por exemplo, embora seja perfeita no que toca à consideração com o pesquisador estrangeiro, à exibição do seu respeito pela História, ao congraçamento em rituais e libações prenhes de reconhecimento a quem se presta levar projetos de cooperação, possui um sistema bibliotecário algo deficiente, quanto à tecnologia, à aquisição de obras ou ao funcionamento do serviço de empréstimo, conforme pude constatar em reiteradas visitas a espaços de Letras ou Direito, algumas vezes sendo preferível ir a Lisboa que permanecer atado ao vetusto passado daquela velha sede de saberes –e está indelevelmente limitada pela impossibilidade de comunicação entre muitos dos seus orgulhosos departamentos acadêmicos.
A experiência não raro desvia o pensamento da construção do futuro
A experiência é um farol voltado para trás, já dizia Pedro Nava, pois não aquece nem ilumina –e não raro desvia até o pensamento do objetivo visado, a construção do futuro.
Claro que devido a haver atraído mais investimentos, o estilo estadunidense de fazer universidade impôs a sua própria linguagem de construir academias sempre departamentalizadas, vício taylorista no saber. Porém, não obstante os Estados Unidos tenham sido e continuem sendo aqueles que melhor desenvolveram a educação superior desde meados do século passado, o seu renome e o seu know-how não chegam para superar a contundência da quebra da enrijecida estrutura monodepartamental.
Caberá o trófeu àquelas instituições que souberem enfrentar a virada de paradigmas nas diversas áreas –no Brasil, todas elas bitoladas pela régua e compasso sulistas da CAPES, combatendo a Amazônia.
Não será o específico que impulsionará a fama das universidades nem será a sua vetustez, mas sim a sua forma de disponibilizar a informação (EaD, por exemplo) e o modo de superar a sua univocidade, trazendo outra e outra contribuição de vários campos de pesquisa, dia a dia, sol a sol.
Numa palavra, não será a fidalguia de participar em rankings globais e genéricos, mas a especialidade valorizada em cada área específica que souber linkar-se a uma outra área.
A multi, a trans e a interdisciplinaridade, novas formas de cru
Fábrica de saberes – A Universidade Global
Em: 17 de abril de 2008
O carimbo da instituição no canudo universitário vem sendo um valor maior que o título em si ou ainda mais significativo que os próprios conhecimentos presumidos pela sua obtenção.
Redação
Jornal mais tradicional do Estado do Amazonas, em atividade desde 1904 de forma contínua.
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