A fabricação de aviões foi a única atividade que passou ilesa pela crise que derrubou a indústria no quarto trimestre e chegou a acelerar o crescimento em momento de perdas recordes para outros setores. Enquanto a indústria em geral despencou 19,8% em apenas três meses, o segmento de equipamentos de transporte, que inclui a fabricação de aviões registrou uma alta de 20,1% na produção no mesmo período.
A atividade de equipamentos de transportes inclui a fabricação de aviões e motocicletas mas, segundo o economista da coordenação de indústria do IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística), André Macedo, a expansão foi integralmente puxada pelo bom desempenho das aeronaves. Somente em dezembro, o setor cresceu 106,4%. Em São Paulo, Estado no qual está instalada a Embraer, houve alta de 135% no último mês do ano passado, ante igual período do ano anterior.
Enquanto a indústria total desacelerou o crescimento acumulado no ano passado de 6,4% de janeiro a setembro para menos da metade (3,1%) no fechamento de 2008, os equipamentos de transporte aceleraram a expansão, respectivamente, de 31,54% para 42,23%. Em São Paulo a aceleração foi ainda mais significativa, passando de uma alta acumulada de 37% de janeiro a setembro para 57,4% no fechamento do ano, já que no Estado não há o contrapeso negativo das motocicletas, cuja fabricação está concentrada no Amazonas.
Os dados do IBGE mostram também que, com apenas 2% de peso entre as 27 atividades investigadas na pesquisa industrial mensal do instituto, a atividade de equipamentos de transporte chegou ao final do ano com participação no crescimento industrial similar à contribuição acumulada de veículos automotores.
O segmento de equipamentos de transporte, que contribuía com 10% da expansão acumulada de 6,4% na indústria de janeiro a setembro, saltou para uma participação de 23% nos dados acumulado de janeiro a dezembro. Por outro lado, os veículos automotores, que tem fatia em torno de 10% na pesquisa, passou de uma contribuição de 27% para 25,6% no período.
O professor do Instituto de Economia da Unicamp Fernando Sarti explicou que, como os aviões são bens fabricados sob encomendas, geralmente efetuadas com dois anos de antecedência, acabam ficando mais protegidos da crise. Como os resultados do setor foram muito altos no quarto trimestre, acabaram protegendo a indústria como um todo de um tombo ainda maior do que o ocorrido
Segundo ele, a fabricação de aeronaves tem um efeito em cadeia importante na indústria, em segmentos como plástico, equipamentos eletrônicos e aço.
Sarti observou que esse planejamento de longo prazo dos clientes que caracteriza a indústria de aviões protegerá a Embraer de efeitos da crise no curto prazo e a empresa só será afetada se houver problemas significativos no setor aéreo em nível internacional. “Mas como as consequências seriam de longo prazo, é possível que até que cheguem a crise já tenha passado”, observou.
Perspectiva em 2009
A assessoria de imprensa da Embraer informou que a meta da empresa para 2009 é de entrega de 270 aeronaves, ante 204 aeronaves em 2008 – com expansão de 20% sobre 2007 -, com aumento de mais de 30% ante o ano passado. Porém, apesar da expectativa de crescimento e do bom desempenho do quarto trimestre, a assessoria ressalta que a empresa não se considera imune à crise e também vê com “muita cautela” o cenário em 2009, que ainda considera incerto para o setor aéreo.
Segundo a assessoria, a empresa tem contratos firmes da ordem de US$ 20.9 bilhões na carteira de pedidos, “o que dá certa segurança para uma produção aquecida a frente”. Assim como Sarti, a assessoria da Embraer lembra que a empresa trabalha com um longo ciclo de produção e o horizonte das encomendas efetuadas hoje chega ao ano de 2014, ou seja, a visão dos clientes é de longo prazo e, por isso, a empresa não é afetada imediatamente pelas turbulências.







