Fabricando boa música com som e com a marcenaria

Em: 5 de abril de 2019
Profissionais da música com habilidade de tocar e fabricar seus próprios instrumentos
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Profissionais da música com habilidade de tocar e fabricar seus próprios instrumentos

Saber tocar um instrumento é habilidade que poucos têm, agora, saber tocar e dominar a arte de construir o próprio instrumento, é para bem menos pessoas ainda.

José de Ribamar Sampaio Garcia Júnior (o nome é extenso como suas habilidades), nasceu em Belém e quanto tinha dez anos, começou a aprender tocar violão com o avô, João Batista, que por sua vez, aprendera sozinho a tocar o instrumento.

“Com 13 anos eu já dominava completamente o violão e já aprendia cavaquinho e bandolim. Enquanto isso, observava meu avô, que sabia trabalhar muito bem com madeiras, fazendo móveis”, lembrou.

Em 1983 Júnior recebeu o convite do amigo Cocó Rodrigues para vir tocar em Manaus, no Tropical Hotel.

“Cocó trabalhava a bordo do catamarã Pará, fazendo shows musicais, e numa de suas estadas em Manaus, o gerente do Tropical pediu que ele montasse um grupo de chorinho para se apresentar no hotel. Ele me convidou, e outros amigos de Belém, e nós viemos”, contou.

“Como éramos todos jovens músicos, sequer tínhamos a carteira da Ordem dos Músicos, por isso não pudemos, de imediato, fazer os shows no Tropical. Enquanto providenciávamos esse documento, o Zezinho Corrêa, do Carrapicho, conseguiu que fizéssemos os pré-shows de algumas de suas apresentações, e assim fomos passando. Uns seis, sete meses depois já tínhamos a carteira e começamos a nos apresentar no Tropical. Eles pagavam muito bem, com carteira assinada e tudo. Por isso resolvemos ficar em Manaus”, contou.

Até hoje, 36 anos depois, Júnior continua a se apresentar nos bares de Manaus (fixo no Chão de Estrelas, Novotel e ET Bar), além de outros, com seu cavaquinho, já tendo passado pelos grupos Ases do Pagode, Sucessamba, Coisa Nossa, Coisa de Bamba, Evolussamba, e vários outros, no auge do pagode.

Aprendeu seguindo um tutorial

A outra paixão de Júnior é a lutheria. Ele tem uma oficina na garagem de sua casa.

“Eu fui o primeiro cavaquinista a tocar cavaco numa escola de samba de Manaus, na Vitória Régia. Certa vez, no desfile da escola, eu estava com o cavaquinho de um amigo, e desabou um temporal. Levei o cavaquinho para casa, mas ele, encharcado, se destruiu”, recordou.

“Pra não deixar meu amigo ‘na mão’, eu mandei buscar nos Estados Unidos (vejam como faz tempo) uma fita de vídeo que ensinava a fazer violão. Aprendi e restaurei o cavaquinho de meu amigo. Quando ele viu o instrumento, nem acreditou que era o mesmo”, revelou.

Desde então, Júnior passou a fazer e consertar instrumentos de corda.

“Prefiro fazer do que restaurar. Dá menos trabalho. Todo o tempo chegam pessoas aqui com seus cavaquinhos, violões e cavaquinhos, para eu restaurar. Para fazer sai bem mais caro”, explicou.

“Esse é o meu quinto cavaquinho. Os amigos veem e querem comprar. Eu vendo e faço outro. Nunca deixei de pesquisar para saber cada vez mais sobre lutheria”, garantiu.

As madeiras amazônicas usadas por Júnior são a muracatiara, o marupá e o coração de nêgo, esta, poucos sabem, substitui o ébano, cada vez mais raro no mundo.

“Sempre vivi da música, desde sempre tocando cavaquinho, e depois como luthier. Tenho orgulho de dizer que sou conhecido e respeitado pelos grandes músicos de Manaus pelos meus dois tipos de trabalho”, enfatizou.

Músico, luthier e professor

Márcio Costa também é luthier, formado pela Oela (Oficina Escola de Lutheria da Amazônia), desde 2003. Começou a tocar cavaquinho com 13 anos e hoje domina o violão, o charango, o bandolim, a guitarra e outros instrumentos de corda. A diferença de Márcio para Júnior é que este disse não ter talento para ensinar o que sabe, enquanto Márcio abriu, em 2017, a escola de música que leva seu nome.

“Apesar de ter me formado luthier, sempre fui músico, tendo tocado em bandas de boi e grupos de pagode. Com o tempo, vi a possibilidade de, além de músico, colocar em prática o que tinha aprendido na Oela. Em 2016 abri a lutheria e desde então tenho exercido essa profissão, mas eu queria mais e, no ano seguinte, abri a escola de música”, informou.

“Uma coisa vai sucedendo a outra. Em 2016 fiz meu último show como músico e passei a me dedicar somente à lutheria. Quando inaugurei a escola, dava aulas. Durante doze anos fui professor na Escala”, revelou. “Agora não tenho mais tempo para dar aulas, me dedicando exclusivamente a coordenar os vários cursos da minha escola, mas ainda continuando como luthier, porque estão surgindo muitos músicos na cidade, graças aos tantos cursos existentes, então, fabricar e consertar instrumentos continua a ser um segmento promissor. Quem sabe, no futuro, eu também passe a formar luthiers”, adiantou.

Onde estão?

– Júnior Lutheria

– Parque das Laranjeiras

– 9 9144-0565

 

– Márcio Costa

– Rua Monsenhor Coutinho, 247, centro

– 9 9147-1931 / 9 8238-4753 / 9 9287-8784  

Redação

Jornal mais tradicional do Estado do Amazonas, em atividade desde 1904 de forma contínua.
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