
Marco Dassori
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As famílias com renda acima de dez salários mínimos seguem como as mais endividadas em compras no comércio e serviços de Manaus. Cartões de crédito e carnês ainda são os principais vilões para os mais ricos. Os maiores índices de inadimplência, no entanto, voltaram a ser detectados entre os consumidores com renda familiar até dez mínimos. As maiores armadilhas financeiras para esse grupo ainda são o cheque especial e os financiamentos de veículos e imóveis. É o que revelam os dados locais da Peic (Pesquisa de Endividamento e Inadimplência do Consumidor) da CNC (Confederação Nacional do Comércio de Bens, Serviços e Turismo).
A sondagem confirma que a proporção de famílias endividadas avançou em julho. Ao menos 67% (433.593) se dizem nessa condição, contra os 66% (426.713) do mês anterior. Ainda assim, foi um dado melhor do que o de 12 meses atrás (67,9%). A inadimplência também subiu na variação mensal, de 27,4% (177.168) para 28,7% (185.651), assim como na comparação com julho de 2021 (26,4%). Ao menos 15,8% (102.096) dos consumidores locais declaram não ter mais condições de quitar dívidas atrasadas, indicando aumento ante o mês anterior (14,8%) e redução no comparativo anual (16,9%).
A capital acompanhou a média nacional. A proporção de brasileiros endividados interrompeu uma sequência de dois meses seguidos de baixa e chegou aos 78%, o maior índice registrado nos últimos 12 anos. Houve aumento de 0,7 ponto percentual na comparação com o mês anterior e de 6,6 p.p. em relação a julho do ano passado. O percentual de famílias com contas em atraso também avançou e foi a 29%, o maior percentual da série histórica da Peic, iniciada em 2010. A fatia dos consumidores brasileiros que admitiram não ter mais condições de pagar contas atrasadas praticamente não se moveu (+0,1%), e ficou em 10,7% do total.
A facilidade de uso do cartão de crédito contribuiu para sua predominância no endividamento em Manaus, a despeito de ser mais caro. A modalidade responde por 81,3% das dívidas, e com novo predomínio das famílias com mais renda (88,3%). Os juros da modalidade de pagamento já estão em 14,16% ao mês e em 389,97% ao ano, conforme a pesquisa mais recente da Anefac (Associação Nacional de Executivos de Finanças, Administração e Contabilidade). Os carnês (51,7%) seguem na segunda posição e continuam sendo impulsionados também pelos que recebem mais (53,3%).
Já o cheque especial (22,1%) é usado quase que apenas pelas famílias mais pobres (24,1%), embora seja a segunda opção mais cara da lista (8% mensais e 151,82% anuais). Na sequência estão outras modalidades de pagamento preferidas por esse público, como crédito pessoal (24,2%), financiamentos de carro (15,9%) e de casa (13,6%), crédito consignado (3,7%) e “outras dívidas” (2,4%). O cheque pré-datado (0,4%), uma invenção brasileira, também é usado exclusivamente pelos que têm rendimentos mais modestos.
Renda comprometida
Houve alguma melhora no nível de endividamento dos manauenses. Uma fatia inferior à do levantamento anterior se diz “muito endividada” (29,3%), com predomínio das famílias com renda até dez salários mínimos mensais (29,9%). Em seguida está o grupo dos “mais ou menos endividados” (16,2%), situação onde prevalecem as famílias maias ricas (25,6%). A lista se completa com os autoproclamados “pouco endividados” (29,3%) – que praticamente triplicou na comparação com junho (10,5%).
Em média, as famílias de Manaus devem levar 37 semanas para quitar dívidas. A situação segue a mesma nas estimativas de tempo de comprometimento com as dívidas, já que o percentual dos que estimam levar mais de um ano para tanto (43,7%) ainda é elevado. Em paralelo, a proporção dos devedores comprometidos entre seis meses e um ano (21,8%) e até três meses (13,6%) foi reduzida na comparação com as edições anteriores da pesquisa. Em contrapartida, grupo dos endividados de três a seis meses (19,4%) cresceu.
O nível de comprometimento de renda praticamente ficou na mesma. As famílias manauenses consomem 40,8% de seus ganhos com dívidas, percentual muito superior ao da média nacional (30,4%). A maioria das famílias de Manaus (55,9%) gasta mais da metade de seus rendimentos mensais com dívidas, em número melhor do que o de junho. Na sequência estão os que gastam de 11% a 50% (38,1%) e os que limitam os dispêndios a 10% de seus ganhos (4%).
Em torno de 42,8% dos endividados já estão inadimplentes. Apenas 23,9% garantem que conseguirão quitar integralmente no próximo mês. Outros 20,4% estimam que conseguirão pagar apenas parcialmente e os 55% restantes dizem que vão seguir devendo. Ao menos 21,4% estão nessa situação há mais de 90 dias. A fatia de manauenses com dívidas atrasadas entre 30 e 90 dias (65,1%) subiu novamente e ainda é majoritária. Já o grupo pendente há menos de um mês encolheu e responde por somente 13,1% do bolo. Em média, as dívidas das famílias inadimplentes de Manaus estão atrasadas há 61 dias.
“Ciclo vicioso”
O assessor econômico da Fecomércio-AM, Enio Ferrarini, assinala que, a despeito dos estímulos federais, ainda não foi possível neutralizar o impacto da crise sobre a renda dos brasileiros. Segundo o economista, o crescimento do endividamento e da inadimplência já era previsível, por estar diretamente relacionado ao crescimento da inflação, exacerbado pelos efeitos do “remédio amargo”, que foi o aumento dos juros para combater a inflação.
“A economia funciona em ciclos, denominados círculos virtuoso ou vicioso. Crises estruturais ou conjunturais. Apesar de ainda registrarmos alguns indicadores característicos de um círculo vicioso, já é amplamente reconhecido internamente e pela comunidade internacional que o Brasil está construindo sólidos fundamentos e iniciando um círculo virtuoso, que sinaliza um longo período de prosperidade, principalmente para consumidores e famílias que hoje fazem parte das estatísticas ruins”, amenizou.
“Efeito momentâneo”
Em texto distribuído pela assessoria de imprensa da CNC, a economista responsável pela pesquisa, Izis Ferreira, que as classes de despesas das famílias que ganham menos são justamente as que tiveram maiores aumentos de preços, impactando em uma maior proporção do orçamento comprometida com dívidas. “As famílias com menor renda foram mais afetadas e aumentaram o endividamento, a despeito dos juros altos, para sustentar seu nível de consumo”, explicou, acrescentando que as famílias mais pobres estão migrando para modalidades de pagamento mais baratas, como carnes e crédito pessoal.
No mesmo texto, o presidente da CNC, José Roberto Tadros, avalia que a piora de cenário se deve a um esgotamento nos efeitos das medidas federais de estímulo ao consumo. “A alta dos indicadores de inadimplência, após queda em abril, maio e junho, indica que as medidas extraordinárias de suporte à renda, como os saques extras do FGTS e a antecipação do 13º salário aos beneficiários do INSS, aparentemente tiveram efeito momentâneo no pagamento de contas ou dívidas já atrasadas, concentrado no segundo trimestre deste ano”, encerrou.






