Fartura de peixes para amenizar época de enchente

Em: 18 de junho de 2019
Em Iranduba, moradores ‘se viram’ como podem para ganhar algum dinheiro com a cheia
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Em Iranduba, moradores 'se viram' como podem para ganhar algum dinheiro com a cheia

A cota máxima do rio Negro chegou a 29,40 metros no dia de ontem, ainda distante da grande cheia de 2012 quando o rio bateu a extraordinária marca dos 29,97 no dia 29 de maio daquele ano, mas já causa grandes estragos e aborrecimentos para os ribeirinhos da maioria dos municípios amazonenses e moradores de ao menos 15 bairros de Manaus.

Projeção feita pelo SGB (Serviço Geológico do Brasil) mostrava que a cota máxima deste ano chegaria aos 29,18 podendo ir até 29,33 metros, números que ficaram para trás há dias. A previsão do SGB é que as águas devem continuar subindo pelos próximos dez dias.

Dos 62 municípios amazonenses, as sedes de 46 já estão totalmente, ou em parte, submersas, afetando cerca de 400 mil pessoas, que passam a ter dificuldades para conseguir água potável, além da possibilidade maior de contrair doenças, sem falar do perigo do ataque de animais como cobras e jacarés.

Em Iranduba, banhada pelo Solimões, a cheia mostra que das agruras se pode tirar algo de bom. Desde abril a doméstica Rosineide Paula da Silva, 58, montou uma barraca no porto da cidade, junto ao rio, para vender peixes.

“Sou do Janauacá e vim morar em Iranduba quando tinha dez anos e aqui não tinha praticamente nada. Meu pai, Raimundo Carlos, foi um dos primeiros moradores de Iranduba”, contou.

“Faço bico, como doméstica, na casa das pessoas e até capino quintal se precisar, mas nessa época da cheia está dando para ganhar um bom dinheiro vendendo peixes aqui no porto. Este ano é a primeira vez que estou aqui”, revelou.

Peixes do Janauacá

Outros moradores da cidade também pensaram como Rosineide e montaram barracas junto ao limite do rio. Desde abril, quando as águas começaram a tomar a frente da cidade, eles passaram a se instalar no local. Na manhã de ontem ao menos dez das barracas estavam ocupadas com seus responsáveis vendendo, além dos peixes, farinha e ingá, e aproveitaram a presença do Jornal do Commercio para reclamar que, mesmo eles não tendo outra forma de ganhar dinheiro, a prefeitura os está mandando retirar as barracas do lugar.

Os peixes que chegam até o Iranduba vêm do Janauacá, lago localizado na frente da cidade, do outro lado do Solimões.

“Chego aqui às 4h e fico até às 18h. Os pescadores negociam os peixes aqui mesmo”, contou Rosineide. “Hoje estou vendendo só jaraqui, mas eles trazem pacu, tucunaré, aruanã e outros, e vendem o cento. Agora que o rio está muito cheio, os preços dispararam. Até maio o cento do jaraqui custava R$ 10, mas agora está custando R$ 70. Eu vendo 15 jaraquis por R$ 20”, explicou.

Assim como as águas inclementes, da mesma forma o sol escaldante, do verão que se aproxima, é um inimigo dos vendedores do porto de Iranduba. Alguns se protegem na sombra das casas, outros cobrindo suas barracas, mas Rosineide fica sob o sol mesmo.

“Tenho que vir de madrugada pra cá porque é a hora que os pescadores chegam do Janauacá para vender os peixes. Se não estiver aqui, outros já estarão e conseguirão preços melhores. Hoje mesmo os colegas aqui compraram peixe mais barato do que eu e tive que baixar meu preço pra igualar ao preço deles, senão não vendo. Quando dá 18h já vendi todo o meu cento”, falou.

Na cheia e na vazante

Fartura de peixes para amenizar época de enchente -
Lica Abreu, mais conhecida como ‘Rainha do Peixe’ não reclama da época de cheia
 

Quem também não reclama muito da enchente do Solimões é Lica Abreu, a Rainha do Peixe. Junto com o irmão Miguel, há quatro meses Lica alugou o restaurante Brega N’água para o qual deu o nome de Dois Irmãos.

O restaurante é flutuante e por isso, tanto na vazante quanto na cheia, continua a atender normalmente seus clientes.

“Meu apelido é Rainha do Peixe porque vivo da compra e venda de peixes. O restaurante veio complementar esse meu negócio porque posso negociar os peixes daqui mesmo, e também vendê-los fritos, assados, cozidos e a caldeirada”, falou.

De acordo com Luiz, outro irmão de Lica, esse flutuante existe há uns 30 anos naquele mesmo lugar, junto ao porto.

“Na vazante, ele fica ali, junto do cais de ferro, mas na enchente, vamos trazendo ele pra cá”, informou Luiz.

“O gasto que tenho é para construir a ponte da beira até o flutuante. Nesta aqui eu gastei R$ 600, mas à medida que voltamos para o lugar original, vamos construindo mais ponte”, revelou Lica.

Toda a frente de Iranduba, a beira rio, está submersa, com água até o meio das casas. Ao longo da estrada, em regiões onde a água já chegou, podem ser vistos moradores em barracas improvisadas tentando ganhar alguns trocados vendendo peixes para quem passa nos automóveis. É se adequar às dificuldades enquanto o Solimões não retorna ao seu leito normal.            

Redação

Jornal mais tradicional do Estado do Amazonas, em atividade desde 1904 de forma contínua.
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