O Federal Reserve (FED, o BC americano) de-cidiu manter sua taxa de juros em 2% ao ano, a terceira manutenção consecutiva. Apesar de o CPI (Índice de Preços ao Consumidor, na sigla em inglês) ter registrado deflação de 0,1% em agosto (após a alta de 0,8% em julho) e da crise financeira em bancos de investimento e seguradoras, o FED optou por manter a cautela.
O furacão financeiro que vem abalando Wall Street nos últimos dias acabou ganhando peso, e um corte de juros traria para o primeiro plano o chamado risco moral (“moral hazard”, na expressão em inglês) de salvar instituições que assumiram posições muito arriscadas anteriormente.
Assim, a redução da taxa, no atual contexto, poderia ser entendida como um sinal de que a economia está mais afetada pelos problemas financeiros que o estimado.
O banco de investimentos Lehman Brothers, uma instituição financeira de 158 anos de existência, pediu proteção sob o capítulo da legislação americana de trata de falências e concordatas. O banco vinha procurando um comprador, mas, sem ajuda do governo, candidatos em potencial como o Bank of America e o Barclays desistiram.
O Lehman esperava obter ajuda do Departamento do Tesouro -que disponibilizou um pacote de até US$ 200 bilhões para as gigantes hipotecárias Fannie Mae e Freddie Mac ou do FED -que ajudou o JP Morgan na compra do Bear Stearns, em março. Não obteve ajuda nessas frentes.
Depois da reunião de agosto e antes dos problemas do Lehman ganharem o primeiro plano, a Fannie Mae anunciou um prejuízo de US$ 2,3 bilhões no segundo trimestre deste ano. A Freddie Mac também teve um prejuízo acima do esperado no trimestre, com perdas de US$ 821 milhões. As duas empresas detêm ou garantem cerca de US$ 5,2 trilhões de créditos hipotecários, ou seja cerca de 50% do fluxo do crédito imobiliário americano.
Além dos problemas do Lehman e das hipotecárias, a seguradora AIG (American International Group) vem se tornando cada vez mais uma fonte de preocupação para o mercado financeiro.
As principais agências de classificação de risco -Standard & Poor’s, Moody’s e Fitch- reduziram a classificação da seguradora. Desde o início do ano, a companhia já perdeu 93% de seu valor no mercado financeiro.
A empresa precisava levantar US$ 20 bilhões para honrar seus compromissos com os investidores e foi autorizada a receber o dinheiro de suas filiais no exterior, segundo David Paterson, governador do Estado de Nova York.
Na ata da reunião anterior, o banco informou que uma próxima alteração nos juros poderia ser para cima. Alguns membros do FED avaliavam à época que o núcleo da inflação (que exclui os preços dos alimentos e da energia) não ficaria “moderado no próximo ano a menos que a posição da política monetária seja (fosse) apertada mais cedo do que o esperado”.
O banco também avaliava, na nota divulgada após a decisão do dia 5 do mês de agosto, que a preocupação com a inflação continuava. Ontem, no entanto, o Departamento do Trabalho mostrou que o núcleo da inflação teve alta de 0,2% em agosto, menor que a de julho, 0,3%.
Mercado imobiliário
O banco também avaliava que a atividade econômica americana deveria “permanecer baixa por alguns trimestres”. O dado da produção industrial de agosto, divulgado na segunda-feira, reforçou um pouco essa impressão, devido à queda de 1,1% registrada -a maior desde a passagem do furacão Katrina, em 2005.
No dado de inflação divulgado ontem o departamento mostrou que os preços da energia tiveram uma deflação de 3,1%, reflexo da queda do petróleo -que de US$ 147,27 no dia 11 de julho, chegou a US$ 90. A perspectiva de uma economia americana desaquecida fez caírem as projeções de demanda da commodity. A Opep (Organização dos Países Exportadores de Petróleo) revisou para baixo a previsão de crescimento da demanda mundial: neste ano deverá ficar em cerca de 86,79 milhões de barris diários, 12% a menos que o estimado há um mês.
O mercado imobiliário, que está na raiz dos problemas econômicos e financeiros americanos, ainda mostra sinais de fraqueza.
A MBA (Associação de Bancos de Hipoteca, na sigla em inglês) informou no início deste mês que a parcela de imóveis com hipotecas com ao menos um pagamento em atraso atingiu a marca recorde de 6,41%, contra 6,35% no primeiro trimestre do ano.
Já o número de novos processos de execução de hipoteca atingiu 1,19% do total, ficando acima da marca de 1% pela primeira vez nos 29 anos em que a pesquisa é feita. As vendas de casas novas nos EUA em julho tiveram um crescimento inesperado de 2,4%, chegando a uma taxa anualizada de 515 mil unidades. O resultado de junho, no entanto, foi revisto para baixo, ficando em uma taxa anualizada de 503 mil unidades, a menor desde setembro de 1991. Em junho, as vendas haviam registrado uma queda de 0,6%. Também entre as reuniões do Fed o governo americano anunciou um crescimento de 3,3% da economia no segundo trimestre, contra uma estimativa inicial de 1,9%.
Mesmo assim, a expectativa para os próximos dois trimestres é de crescimento fraco, devido ao fim do efeito positivo do pacote de estímulo aprovado em fevereiro deste ano.







