O banco havia reduzido a taxa no último dia 8 de 2% para 1,5%, em uma medida emergencial, em coordenação com outros BCs, para conter o avanço da crise financeira. Um dia antes da medida emergencial, o presidente do banco, Ben Bernanke, havia dito durante o encontro anual da Nabe (National Association for Business Economics), entidade norte-americana que reúne economistas dos setores público, privado e acadêmico, que o cenário econômico do país havia piorado e que os problemas poderiam se prolongar.
Com esse cenário, Bernanke disse que o FED teria de avaliar se a política de manutenção da taxa de juros continuaria “apropriada”. O banco reduziu a taxa para 2% em abril e manteve-a nesse patamar em junho, agosto e setembro.
“A combinação dos dados econômicos recentes e dos desenvolvimentos financeiros sugerem que a perspectiva para a expansão econômica piorou e os riscos de baixa para o crescimento aumentaram”, disse Bernanke, à época. “Ao mesmo tempo, o cenário para a inflação teve alguma melhora, embora ainda permaneça incerto. À luz desses desenvolvimentos, o Federal Reserve terá de considerar se a atual política de juros continua apropriada”.
Quando o Fomc (Comitê Federal de Mercado Aberto, na sigla em inglês, equivalente ao Copom no Brasil) se reuniu em setembro, o banco de investimento Lehman Brothers já havia quebrado. O banco não conseguiu obter financiamento para suas operações junto a outras instituições privadas nem junto ao governo. A quebra do Lehman pôs em movimento o que já foi chamado de segundo ciclo da crise financeira iniciada em agosto do ano passado, com a inadimplência no segmento “subprime” (de maior risco) do mercado americano de hipotecas. Desde então, quebrou também o banco Washington Mutual, do segmento de empréstimos e poupança (“savings & loans”) no que foi considerada a maior quebra de um banco nos EUA. Outro elemento que entrou em cena antes da reunião oficial do FED ontem foi o pacote de US$ 700 bilhões, preparado pelo secretário do Tesouro, Henry Paulson. O pacote tinha o objetivo de comprar papéis considerados “podres” (com baixíssima possibilidade de resgate, conseqüentemente com alto risco de calote), mas o Tesouro já se lançou para a compra de ações de bancos como Citigroup, JPMorgan Chase, Bank of America e Wells Fargo. O valor da ajuda aos bancos é de US$ 250 bilhões, saídos dos recursos aprovados no pacote.
No último dia 15, o FED divulgou o “Livro Bege” (documento com dados econômicos coletados nas 12 divisões regionais do FED), no qual informou que quase todos os distritos que apresentaram comentários sobre o setor de serviços “apontaram para uma redução da atividade”. O setor de serviços tem sido o motor da atividade econômica do país há vários anos anos. O documento mostrou que os gastos dos consumidores (responsáveis por mais de dois terços do PIB do país) caíram no mês passado na maioria dos distritos, tanto no comércio quanto nas vendas de veículos e no turismo.
Concessão de crédito
Os distritos do FED relataram também que o crédito foi restrito em setembro, e que os bancos endureceram seus critérios para a concessão de empréstimos. As pressões de inflação diminuíram um pouco, mas as condições no mercado de trabalho pioraram.
Escassez de crédito é o efeito da desconfiança generalizada que se instalou entre os bancos não só nos EUA, mas no mundo todo. As hipotecas de risco mostraram-se um lastro muito frágil para a variedade de papéis e derivativos que circulavam no mercado financeiro; o banco francês BNP Paribas, por fim, resolver ver as cartas do mercado financeiro -ou seja, resolveu suspender os resgates em alguns de seus fundos.
Isso enviou uma onda de desconfiança que causou prejuízos bilionários. O FED respondeu com cortes de juros que levaram dos 5,25% em que a taxa estava até a reunião de setembro do ano passado para o 1% que caiu ontem.
A taxa chegou a 1% quando o comando do banco estava a cargo de Alan Greenspan. Ele reduziu a taxa para esse patamar em junho de 2003 e a manteve aí por mais de um ano. Nesse período, a economia americana, que vinha de uma recessão causada tanto pelo estouro da bolha das empresas “pontocom” como pelos ataques do 11 de Setembro e os escândalos contábeis da Enron e da Worldcom, começou a reagir.
Esses juros baixos levaram a uma explosão de consumo e de financiamentos para compra da casa própria no país, abrindo caminho para critérios menos rigorosos para o fechamento de contratos de hipoteca.






