Existem registros de bonecas com cerca de 2.500 a.C., no Antigo Egito, e não eram brinquedos, mas usadas em rituais religiosos, feitas de terracota, madeira ou osso, e enterradas junto com os faraós. Só agora, mais de dois mil anos depois, surge uma boneca cabocla, a Flor de Tucumã, que este ano completa três anos e faz sucesso em Manaus, no Brasil e no exterior.
“Nasci em Manaus, filha de pai paraense e mãe do interior do Amazonas. Com certeza minha mãe teve, em sua ascendência, alguma etnia indígena, pois apresentava fenótipo ancestral e muitas outras particularidades, como a fala, conhecimentos dos antepassados, e eu tinha muito orgulho dela por tudo isso”, lembrou Vanda Amaral, empreendedora e criadora da Flor de Tucumã.
Vanda nasceu na cidade por opção dos pais, que queriam ver a filha vencendo na vida através dos estudos, o que sempre repetiam para ela. Não queriam que a menina tivesse a vida árdua do campo, como a que eles viveram.
“Com a dinâmica de a cada ano estar em uma família diferente, tive acesso a muitas vivências e dentro dessas experiências as que mais guardei foram os momentos de brincar com bonecas. Naquela época não existiam bonecas com identidade nortista, nem tão pouco com fenótipo ancestral”, contou.
“Os povos originários eram muito marginalizados e eu não entendia porque não era legal parecer com eles. Isso era uma dor muito grande para mim, porque eu tinha traços muito fortes dos povos originários e chegava a me perguntar por que tinha nascido com aquela aparência. Com o tempo compreendi que aquilo se chamava preconceito”, completou.
Dez anos depois
Para piorar a baixa auto estima de Vanda, as bonecas que ela ganhava eram sempre brancas e loiras, com olhos verdes ou azuis. Na TV, os artistas que faziam sucesso tinham o mesmo perfil das bonecas, e as estrelas que inspiravam as crianças eram Xuxa, Angélica e Eliana.
“Então eu queria ser loura como elas, e cresci tentando me adequar a um fenótipo que não me pertencia. Com o tempo, ao entender que aquilo era preconceito, passei a aceitar que minha ancestralidade era o bem mais precioso que eu possuía. O fato de as bonecas não parecerem comigo era porque não produziam bonecas com identidade nortista. Foi então que surgiu a ideia de eu mesma produzir essas bonecas”, revelou.
Em 2013 Vanda conheceu o artesanato de bonecas de pano e se apaixonou por aquela arte, mas foram necessários mais dez anos, num momento de conflitos existenciais e problemas de saúde, que a bonecaria a encantou por completo.
“Eu estava concluindo uma especialização em ‘Negócios na floresta’ e precisava concluir meu projeto, cuja exigência da universidade era que fosse um produto vendável, com a cara da Amazônia, sustentável e com uma história real e emocionante. Foi quando tive a ideia de criar uma boneca de pano. Lembrei da minha infância brincando com bonecas que nada tinham a ver comigo”, falou.
E assim nasceu a Flor de Tucumã, uma boneca de pano que Vanda sempre quis ter.
“A Flor de Tucumã é um produto de pesquisa, e tudo nela tem significado a começar pelo fenótipo. Ela parece ser uma indigena, mas não é, porque eu não tenho etnia, nem vivências de aldeia e por isso não tenho lugar de fala. Flor de Tucumã é uma cabocla, uma boneca amazônica, como eu, filha de agricultores amazônicos”, afirmou.

Versão cunhã poranga
A Flor de Tucumã é produzida em tamanho único de 45cm, articulada e 100% artesanal. Toda a pintura do rosto da boneca é feita à mão livre, por Vanda que, às vezes, acrescenta uma faixa vermelha sobre os olhos de sua criação como forma de representar sua ancestralidade. A bonequeira ainda faz sapatinhos e a boneca possui uma coleção de roupinhas. Por mês ela chega a produzir quase 50 unidades da Flor de Tucumã, que agora ganha a companhia dos encantados da floresta, personagens das lendas, e outras bonecas, também amazônicas.
“Também produzo a Flor na versão cunhã poranga dos bois Caprichoso e Garantido, com pinturas simbólicas de grafismos que as cunhãs usam e cocares nas cores dos bois”, informou.
Criada em junho de 2023, a boneca tem feito tanto sucesso que Vanda as vende para todo o Brasil, e até para o exterior. Turistas da França, Portugal, Suíça, Espanha, Chile, Estados Unidos, Canadá, Alemanha, Paraguai, e Japão já levaram exemplares para seus países.
“Com o projeto da Flor já participei de vários editais e ganhei diversos prêmios, e seguimos conquistando corações”, comemorou.
“Agora existe uma boneca de pano que afirma a identidade da mulher amazônica, do Norte, seja do interior ou da cidade, uma mulher que não tem etnia, mais possui toda sua ancestralidade estampada em seus traços físicos e que pode dizer em alto e bom tom que é uma mulher amazônica”, concluiu.
Informações, Instagrams: @bonecadafloresta e @bonecariadaamazonia






