Fuga pelo rio Amazonas

Em: 28 de março de 2017
https://www.jcam.com.br/2903_C1.png

O Peru é o país mais, digamos íntimo, do Amazonas. É lá que nasce o rio Amazonas e é por esse rio que, há séculos, peruanos descem em busca de melhores dias, geralmente tendo Manaus como destino.
Foi assim com José Manuel Mendoza que, menino ainda, junto com o irmão e a mãeVictoria, chegaram a Manaus, em 1927. Agora, 90 anos depois, o historiador Roberto Mendonça resolveu contar essa saga de seu pai no livro “Entre duas viagens”.

“Eu e meus seis irmãos queríamos homenageá-lo quando ele completasse 100 anos, em 2017, mas Manuel morreu em 2015, então, eu e meu irmão Renato resolvemos fazer o livro contando sua trajetória de vida, desde que saiu de Iquitos, do povoado de Caballococha, com a mãe e um irmão, garoto como ele, até chegarem a Manaus e depois até o dia em que morreu”, contou Roberto.

A vinda de Manuel a Manaus foi uma aventura. “A mãe dele, Victoria, apanhava do marido e fugiu com os dois filhos, quem sabe para não ser morta. Pegaram uma canoa e desceram o rio, segundo ele me contou, navegando de noite para não serem descobertos. No Brasil venderam a canoa, pegaram um barco de passageiros e rumaram para Manaus, então ainda em decadência econômica, mas bem melhor que as cidades peruanas”, disse.

Do começo ao fim de “Entre duas viagens” a história é contextualizada com os fatos que Manaus e o país viviam. Roberto lembra que naquele ano de 1927, quando Victoria e os dois filhos chegaram à capital amazonense, Peru e Colômbia brigavam pela posse da cidade de Letícia, hoje colombiana; Manaus ainda vivia os resquícios da Rebelião Tenentista de Ribeiro Júnior, ocorrida três anos antes; e a “febre” da exploração da borracha (o caucho) também havia cessado nas matas peruanas.

“A Manaus daquela época era uma cidade cuja economia se arrastava à custa do extrativismo do que havia na floresta. Os três foram morar num quarto de estância próximo ao Teatro Amazonas. Depois mudaram para um quarto na rua Dr. Moreira, num prédio que ficou conhecido como Vaticano. Para se sustentarem, Victoria lavava roupas enquanto os meninos levavam e traziam recados, então o meio de comunicação mais rápido existente na cidade”, riu.

Os livros de Mendonça
Roberto Mendonça é coronel da reserva da Polícia Militar e chegou a ser comandante do Corpo de Bombeiros, em 1974. Seu primeiro livro é exatamente sobre a instituição e já teve uma reedição revista e ampliada. Ainda com foco militar, Roberto Mendonça escreveu “Cândido Mariano e Canudos”, sobre a tropa amazonense que foi lutar naquela arena, na Bahia, e pesquisou in loco os lugares por onde os soldados comandados por Cândido Mariano caminharam e lutaram. Da mesma forma escreveu “Administração do Coronel Lisboa”, outro militar que deixou seu nome para a história ainda que no mercado público. O outro civil homenageado por Mendonça em livro foi o irrequieto padre Luiz Ruas. Até agora o historiador já escreveu três sobre o padre, que foi seu professor no seminário: uma biografia, um segundo com suas críticas sobre os filmes que via nos cines da cidade e publicava nos jornais da época, e o terceiro com as poesias que escrevia.

“Com meu pai foi diferente. Estava atrás da história, mas queria saber quem realmente havia sido aquele homem. Um ‘cara’ que trabalhou muito e nunca deixou faltar nada para a família e apesar de ter estudado somente alguns anos, fez questão que os filhos estudassem mais do que ele. Deixou todos os sete encaminhados na vida. Honesto acima de tudo e um apaixonado por Manaus. Descobri que ele foi um exemplo para mim, para meus irmãos e para aqueles que o conheceram”, concluiu.

“Entre duas viagens” saiu ontem do ‘forno’ e Roberto Mendonça ainda está organizando o lançamento. “Vou fazer uma viagem, agora, e quando voltar farei a divulgação do local do lançamento, que não sei onde será, talvez numa livraria, num espaço cultural, ou mesmo num dos sebos ali da Praça da Polícia, onde meu pai deve ter passado muitas vezes”, adiantou.

Trecho do livro
“Na calada da noite, uma canoa desce lentamente o rio, sorrateira para não despertar atenção; navega dias a fio. Três pessoas estavam naquela montaria, as mesmas que enfrentam agora o Distrito de Imigração de Benjamin Constant, no Estado do Amazonas, pois são originários do Peru, mais precisamente de Caballococha. Desejam obter passagens para completar a viagem até Manaus, em um dos ‘gaiolas’, que praticam essa rota.

Nessa longa peregrinação, desde a cidade de origem até a fronteira com o Brasil, foram quase 50 milhas navegando pelo Rio Marañon -que é o próprio rio Amazonas dentro do país andino -, e haviam contado também com a participação de mais dois adultos, que se engajaram nessa empreitada e dividiram as remadas em pequeno trecho, e os ajudaram a ‘pegar emprestada’ a tal canoa, sem a anuência do dono.
Uma jovem senhora, aos 36 anos, dotada de uma obstinação incomum, levando-se em conta que se tratava de pessoa inculta e oriunda dum lugarejo provinciano da Amazônia peruana,

Redação

Jornal mais tradicional do Estado do Amazonas, em atividade desde 1904 de forma contínua.
Pesquisar